>> entrevista Ernesto Samper

>> entrevista Ernesto Samper

» RODRIGO CRAVEIRO
postado em 04/12/2019 00:00
 (foto: Juan Mabromata/AFP - 1/5/18)
(foto: Juan Mabromata/AFP - 1/5/18)
;A América do Sul vive um surto social;


As convulsões sociais na América do Sul equivalem a um ;grito da classe média; e apontam um segundo colapso do neoliberalismo em pouco mais de duas décadas. A opinião é de Ernesto Samper, presidente da Colômbia entre 1994 e 1998 e secretário-geral da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) de 2014 a 2017. Em entrevista exclusiva ao Correio, por e-mail, Samper avaliou a onda de descontentamento que varre a região e classificou de ;profunda; a crise no Chile. Na opinião dele, a solução para o impasse chileno exige a redação de uma nova Constituição, capaz de ;exorcizar ; o demônio do autoritarismo presente na atual Carta Magna, escrita durante a ditadura militar. Samper explica que cada vez mais sul-americanos retornam ao fosso da pobreza, e a classe média se vê ameaçada em relação ao futuro econômico. O problema também envolve uma crise de representatividade e a falta de confiança nos políticos tradicionais.

A crise social no Chile acaba de entrar na sétima semana sem solução plausível. Como o senhor vê esse fenômeno e quais as possíveis soluções?
O problema do Chile é profundo. Tem a ver com a imensa desigualdade acumulada durante mais de 30 anos, que levou o país à mais alta concentração de propriedades na região. Também tem a ver com a vigência de uma Consituição com a qual o ditador Augusto Pinochet tratou de deixar ;amarrada; a institucionalidade do Chile. O movimento social chileno, telúrico, como diria Pablo Neruda, também compartilha razões com outros movimentos que se estão expressando na região: é o grito da classe média, que se sente acossada pela insegurança em sua saúde, em sua educação, mas, sobretudo, em seu futuro econômico.

O movimento chileno parece sem face e com demandas bastante amplas. Como negociar nessas condições?
Por meio de um processo constituinte, como foi feito na Colômbia nos anos 1990, quando o narcoterrorismo levou a opinião pública a assumir seu desafio como uma ameaça contra o Estado de direito. A antiga Constituição de 1886, na Colômbia, assim como a de Pinochet, no Chile, era uma camisa de força para avançar em temas fundamentais, como a vigência dos dirietos humanos ou a participação dos cidadãos. Somente com um processo constituinte, democrático e livre, com ampla participação da sociedade civil, o Chile poderá exorcizar o demônio do autoritarismo que ele carrega.

O que explica a instabilidade social em alguns países da América do Sul, em especial Chile, Colômbia, Equador e Bolívia?
As cifras internacionais são claras e contundentes. A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) mostra que estamos perdendo os ganhos obtidos em matéria de redução da pobreza durante os últimos 20 anos. Dessas 180 milhões de pessoas que conseguimos retirar da pobreza, ao menos 20 milhões estão regressando à sua condição anterior de pobres absolutos. Os estudos também demonstram que a mobilidade educacional não anda mais de mãos dadas com a mobilidade na estrutura de distribuição de renda. O que alcançamos, em matéria de inclusão social por meio de políticas públicas sociais, ao longo deste século, se perdeu em exclusão trabalhista por conta de medidas de flexibilização e precarização do emprego, as quais aumentaram a informalidade no mercado de trabalho. O que está sendo vivido na América Latina é uma revolução da classe média, que está se proletarizando. Em termos políticos, é muito mais complexo retirar algo de alguém do que de quem nunca teve.

Há espaço para a convulsão social contaminar outros países da América do Sul?
Toda a região está enfrentando um surto social. Embora existam gatilhos comuns, cada país está encontrando sua própria saída: no Chile e na Bolívia, por meio de processos de ruptura. Na Argentina e na Colômbia, por meio de revezamentos democráticos com antigos protagonistas políticos. No Peru, por meio de um ajuste institucional que ainda não terminou. O povo quer mudanças, e as deseja imediatamente e por outras vias, umas mais violentas ou pacíficas do que outras.

Falta credibilidade aos governos ou o problema está no fracasso do neoliberalismo?
É claro que estamos assistindo a um segundo colapso do modelo neoliberal. O primeiro ocorreu no fim do século passado e foi articulado com políticas de inclusão em todos os países. Hoje, o colapso é mais profundo porque existe mais desigualdade. O populismo fiscal dos últimos anos retirou a carga tributária daqueles de cima e os subsídios sociais dos que estavam abaixo. A rejeição social a essas medidas concentradoras de renda foi repelida com o populismo punitivo, com mais penas, com mais presos nos cárceres e com resposta desproporcional da Força Pública. A América Latina tem que buscar um modelo alternativo de desenvolvimento que retome políticas relacionadas com a distribuição de propriedades: a partir dessa crise, não saímos distribuindo leite, temos de começar a dividir e compartilhar a própria vaca.

No Chile e na Colômbia, os presidentes apresentaram uma proposta de diáologo nacional, além de agendas econômicas ou sociais. Por qual razão fracassaram em escutar as demandas do povo?
Isso ocorreu porque as pessoas não acreditam nas saídas nem nos políticos tradicionais. Porque sentem que o governo quer escutá-los para que saiam às ruas, mas não para que regressem tranquilos aos seus lares. É a crise do paradigna da representatividade, sobre a qual estruturamos a democracia dos partidos. O povo quer democracia direta ou, pelo menos, canais diretos de discussão e solução de seus problemas. Enquanto os governos não entendendem que por meio das redes se pode manter esses movimentos de constestação, a região seguirá à deriva.



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