Crônica da Cidade

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Mensagem intergaláctica

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 04/12/2019 00:00
Ontem, liguei o computador e percebi um som estranho parecido com o de um disco voador. De repente, faíscas saltaram para todos os lados, e uma nuvem de fumaça se formou em cima da mesa. Levei um susto, mas, na verdade, era a mensagem de um jornalista do planeta Marte.

Ouçamos o relato objetivo do nosso correspondente em paragens intergalácticas: ;O presidente de Marte utiliza um enigmático critério para escolher os seus ministros no planeta vermelho. É mais ou menos assim. Se alguém diz ;Olha, eu detesto os índios;, ignoro se o sangue dele corre em minhas veias ou se eles fundaram a civilização brasileira. Sei é que as terras deles são boas para a mineração e para a monocultura;.

Ao ouvir o depoimento, o presidente exulta e declara: ;Rapaz, é impressionante, você tem o perfil perfeito para trabalhar na Funai marciana;. No entanto, outro personagem entra em cena: ;Não houve escravidão em Marte. Isso é uma mentira deslavada. O Dia da Consciência Negra nem devia existir. Os Beatles querem destruir a civilização ocidental;. O presidente comemora: ;Você é o cara que eu precisava para a Fundação Zumbi de Marte!”.

E mais um candidato se apresenta: ;Odeio meio ambiente. Essa história de aquecimento global é fake news. Basta ligar o ar-condicionado que a temperatura global desaquece. Simples assim. Vamos acabar com a fiscalização. Acho inclusive que quem desmata precisa ser condecorado e não fiscalizado;.

O discurso deixa o presidente entusiasmado: ;Você é demais! Perfeito para ministro do Meio Ambiente;. E, neste instante, surge outra candidata a cargo público: ;Eu me orgulho de que as pessoas me chamem de Musa do Veneno. Existe tanto preconceito contra os pesticidas neste planeta que deveríamos mudar o nome para produtos fitossanitários. Os cientistas estão ideologizando o problema ao afirmar que os pesticidas provocam doenças graves. Mas, por precaução, a minha família só come alimentos orgânicos;.

O presidente vibra com as palavras da candidata: ;É impressionante, você é de uma sapiência impressionante. Está talhada para ministra da Agricultura!” Mas eis que irrompe outro personagem: ;O meu caso é o seguinte. Eu detesto aposentados. É um bando de gente ociosa que suga o sangue dos jovens. Além disso, rouba até jujuba dos netinhos, quando esses se distraem. Os trabalhadores provocam o desequilíbrio fiscal. E os professores? Existe classe de gente mais irrelevante para o desenvolvimento do país? Vamos acabar com os privilégios e taxar os desempregados. Quem precisa de estímulos fiscais são os banqueiros;.

E o presidente: ;Bacana, bacana! Você é uma sumidade, um gênio, merecia o Prêmio Nobel. Perfeito para fazer a reforma da Previdência;. Entretanto, um outro candidato estava impaciente para falar: ;Eu detesto educação. Sofri na faculdade mais do que o personagem de O processo, de Franz Kafta. Alguém tem de pagar por isso. Tenho a maior inveja de gente sábia;.
O presidente de Marte não se conteve: ;Bravo! Bravo! Você tem o perfil exato para ministro da Educação. Podem me criticar sob alguns aspectos, mas ninguém discorda que eu escolho meus ministros a dedo, por critérios técnicos, sem nenhuma ideologização;. Ao terminar de ler a mensagem intergaláctica, respirei aliviado: ainda bem que isso só acontece no planeta Marte.

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