Versos e prosas

Versos e prosas

Devana Babu*
postado em 04/12/2019 00:00
 (foto: Juliana Barbosa/Divulgação)
(foto: Juliana Barbosa/Divulgação)


Hoje e amanhã a cidade recebe dois lançamentos de poetas que se aventuram pela prosa. O poeta, político e ex-guerrilheiro Pedro Tierra lança seu primeiro livro de ficção, o memorialista Pesadelo ; Narrativas dos anos de Chumbo, hoje, às 19h, no Sebinho (406 Norte), e o poeta Wélcio de Toledo, após enveredar pela prosa no último livro volta com tudo à poesia em Tudo que não cabe no poema, lançado amanhã, às 19h, no Bar Tombado (206 Norte).

Quando publicou seu primeiro livro de poemas, Pedro Tierra encontrava-se preso pelo regime militar por ter sido membro da ALN (Aliança pela Libertação Nacional), um grupo de resistência armada. Ele começou a se envolver com o movimento ainda aos 16 anos, na cidade do interior de Goiás onde nasceu, Porto Nacional, que hoje faz parte do Tocantins. O livro foi lançado na Itália e em alguns outros países e só foi publicado no Brasil muitos anos depois.

Tierra esteve preso entre 1972 e 1977, primeiro em Brasília, passando depois por outros presídios, como o de Carandiru, em São Paulo. Quatro décadas e 10 livros de poemas depois, Tierra lança seu primeiro livro de ficção, e em prosa, usando como matéria- prima essas ;memórias do cárcere;, para citar uma obra de Graciliano Ramos, que também registra as memórias de um preso político em época de repressão e que foi publicada décadas depois.

Tierra admira muito a obra de Graciliano, que compara a Tólstoi, mas as semelhanças param por aí. Em Pesadelos, narra as histórias de sete companheiros de prisão, em sete contos independentes que têm como ponto de partida as memórias e os diálogos vividos nas prisões pelas quais passou. Para o autor, que acredita na literatura como instrumento de luta, a função do livro é pagar a dívida histórica do Brasil em transmitir a história para as novas gerações.

Para se aventurar por um gênero novo, Pedro, que planejava trabalhar por um ano no livro, acabou levando quatro. ;A história é cíclica. Eu pensei: já vi esse filme; e ele não acaba bem. Vivemos presos entre o pesadelo de que nos lembramos e o pesadelo que se anuncia;, reflete. Mas ele acredita também que a resistência é não só possível como necessária, e que arte, como sempre teve, tem um papel de protagonista solidário nesta luta.

Versos beatniks

Amanhã, é a vez do poeta Wélcio de Toledo, brasiliense nato, publicar o quarto livro, o terceiro de versos, após também se aventurar pela prosa no livro anterior. Tudo que não cabe no poema, livro de poemas ágeis e marginais, que vai do concretismo ao poema beat, é um libelo contra as convenções e o elitismo da poesia. ;O que não cabe no poema é justamente o que cabe no poema, e que está no meu livro;, garante Wélcio.

Ainda como manifesto contra a hipocrisia e a ditadura da legitimidade, o livro tem orelha assinada, falsamente, pelo poeta beatnik Gregory Corso, que morreu em 2001, e o prefácio assinado por Alexander Shinasky. ;Você conhece esse poeta? Não? Ainda bem, porque ele não existe. Fui eu que inventei;, conta o escritor, sobre o alter ego que une também o nome de dois ícones beatniks e que ele confessa ter feito para sacanear com a zona de conforto do leitor.

*Estagiário sob a supervisão de Igor Silveira



Pesadelo ; Narrativas dos anos de chumbo, de Pedro Tierra (editoras Autonomia Literária e Perseu Abramo)
Sebinho (406 Norte, Bl. C lj. 44). Hoje, às 19h. Entrada franca. Classificação indicativa livre.



Tudo que não cabe no poema
De Wélcio de Toledo (Editora Patuá). Bar Tombado (206 Norte). Amanhã, às 19h. Entrada franca. Classificação indicativa livre.


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