ARTIGO

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Ana dubeux Anadubeux.df@dabr.com.br
postado em 08/12/2019 00:00



Um monge no caos


Muito tempo antes de a palavra resiliência entrar na moda, a Redação do Correio Braziliense já convivia com alguém que encarnava fielmente as características deste conceito emprestado da física. A capacidade de lidar com situações adversas, superar pressões, obstáculos e problemas, e reagir positivamente a eles, sem entrar em conflito psicológico ou emocional, era uma das características que mais impressionava em Divino Alves, querido amigo e talentoso diagramador, que faleceu na semana passada, aos 63 anos.

Durante um quarto de século, o nosso colega de trabalho nos deu lições diárias. Mais do que encarar a vida de forma leve, tranquila e positiva, virou sinônimo de resolvedor de crises, de eficiência em todas as horas, tipo um bombeiro, tal qual um anjo no caos. Virou também substantivo. A expressão ;divinada; era usada para se referir à necessidade de solucionar problemas nas páginas. Texto demais, foto de menos... e alguém decretava: ;Vou chamar o Divino;.

Divino resolvia de forma tranquila, sem arroubos ou excessos. Gostava do que fazia. Gostava, como eu, até de plantão. Sua irmã me confidenciou. ;Ele chegava no sábado na minha casa e dizia: já que não tenho o que fazer, vim pra cá;. No cartaz de despedida, ela escreveu: ;Ele não lutou pela vida. Ele viveu a vida;. Referia-se à luta diária, com sessões de hemodiálise e as internações recorrentes.

Ficávamos todos espantados quando, depois de uma longa internação, ele voltava ao trabalho como se tivesse ido à padaria da esquina. Gostava do ofício. Disse a mim algumas vezes: ;Minha vida é isso aqui;. Eu o conheci antes mesmo de nossa convivência no Correio, quando trabalhamos no Jornal de Brasília. E ele sempre foi um anjo em meio ao caos de uma Redação. Transitando com leveza pelas páginas, acalmando crises, consolando amigos com sua incrível capacidade de enfrentar seus problemas de saúde de forma leve e positiva. Não parecia sofrer.

Trabalhou normalmente até segunda-feira às 22h30 e, no dia seguinte, antes da sessão de hemodiálise, teve uma parada cardíaca. Faleceu um dia depois. Foi-se com a serenidade de quem sempre esteve em paz com a vida. Permanecemos nós com as lembranças bonitas e o exemplo frutífero de quem trabalhou com amor e semeou talento e bondade. Fará falta, mas sempre será luz.



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