Nos trilhos do Brexit

Nos trilhos do Brexit

Boca de urna indica vitória mais expressiva dos conservadores em 32 anos. Para especialistas, maioria absoluta do premiê Boris Johnson no Parlamento consolidará o divórcio com União Europeia e colocará os trabalhistas em situação de fragilidade

Rodrigo Craveiro
postado em 13/12/2019 00:00
 (foto: Daniel Leal-Olivas/AFP
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(foto: Daniel Leal-Olivas/AFP )



Uma eleição parlamentar triunfante para os conservadores, catastrófica para os trabalhistas e afirmativa sobre o Brexit. As pesquisas de boca de urna anunciadas na noite de ontem sugerem um terremoto político no Reino Unido, com consequências ainda imprevisíveis. A julgar pelas sondagens, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, obteve o melhor resultado desde a vitória de Margaret Thatcher, em 1987. Os tories ; como são conhecidos os conservadores ; teriam conquistado 50 novos assentos no Parlamento, passando a controlar 368 das 650 cadeiras, uma maioria absoluta de 86 postos, segundo levantamento do Instituto Ipsos/Mori para as emissoras BBC e Sky News. Os trabalhistas, por sua vez, perderam 71 assentos em relação a 2017 e se limitarão a 191 deputados, o pior resultado desde 1935. Para especialistas, as urnas alargaram o caminho para uma saída amigável da União Europeia (UE) até 31 de janeiro, a data-limite estabelecida por Bruxelas.

;Parece que o tema do Brexit dominou a eleição. Isto se deve, em grande parte, ao cansaço com o Brexit. As pessoas querem acabar com isto;, admitiu o número dois do Partido Trabalhista, John McDonnell, em entrevista à emissora Sky News. Enquanto Johnson defende que o divórcio siga adiante, Jeremy Corbyn, líder dos trabalhistas, propõe estreitar os laços comerciais entre Reino Unido e União Europeia. Nesse sentido, especialistas creem que a votação de ontem se transformou em uma espécie de referendo sobre o Brexit. O premiê votou no fim da manhã em Westminster e posou para fotos com o seu cão, Dilyn. Corbyn votou por volta do meio-dia em Islington, no norte de Londres, e conversou com eleitores.

Panorama
;Esta será uma vitória esmagadora para Johnson, com as mais profundas consequências para o Reino Unido;, afirmou ao Correio Anthony Glees, professor emérito da Universidade de Buckingham. ;É o fim do socialismo corbynista, talvez do Partido Trabalhista enquanto força nacional;, acrescentou. Ele acredita que a legenda de Cobryn será tomada por disputas internas. ;Por sua vez, Boris Johnson será firmado como um dos líderes mais fortes da democracia ocidental, com a Inglaterra em suas mãos. O sucesso do Partido Nacional Escocês (SNP) deverá lançar a Escócia e a Inglaterra em um conflito. O Brexit ocorrerá, com o triunfo do nacionalismo inglês;, aposta Glees. As pesquisas sugerem que o SNP será representado por 55 parlamentares, 20 a mais do que em 2017. O estudioso acha que Londres se aproximará cada vez mais dos Estados Unidos e se afastará da Europa.

De acordo com Glees, Johnson foi beneficiado pelos votos dos adeptos do Brexit. ;Muitas pessoas creem que a União Europeia é a responsável pelos problemas econômicos enfrentados pelo Reino Unido desde 2008. Boris liderou o voto pela saída da UE, durante o referendo de 2016, e venceu. Esta é a recompensa dele.;

Diretor do Centro para Política e Governo Britânicos e do Departamento de História e Política do King;s College London, Andrew Blick explicou que os conservadores ganharam assentos em locais onde um bom desempenho era bastante incomum. ;A performance dos trabalhistas foi desastrosa. Uma questão é perceber se o realinhamento geográfico será duradouro ou se será único, efeito do Brexit e da impopularidade de Corbyn;, disse. Ele concorda que o divórcio com a UE foi o tema central da eleição. ;A votação não teria nem mesmo ocorrido se não fosse pelo Brexit. Os conservadores parecem ter vencido porque foram capazes de unir a maioria dos entusiastas do Brexit, enquanto os simpatizantes da permanência na UE se dividiram em diferentes partidos;, observou, ao citar dúvidas sobre a liderança de Corbyn e a orientação esquerdista mais dura do Partido Trabalhista como decisivos.

Blick considera que os trabalhistas ficarão em uma posição mais frágil, assim como outros partidos da oposição. ;Veremos até que ponto Corbyn posseguirá como líder e, se o fizer, o que ocorrerá dentro do Partido Trabalhista e quem o sucederá;, comentou. Na opinião do professor do King;s College London, o Brexit agora parece uma certeza. ;Nós sairemos até o fim de janeiro em um pacto acordado. Isso é apenas o começo, agora teremos de negociar um tratado de livre-comércio com a União Europeia e lidar com ramificações internas, como na Escócia e na Irlanda do Norte.;



;Obrigado a todos os que votaram em nosso grande país, participaram como voluntários, se apresentaram como candidatos. Vivemos na maior democracia do mundo;

Boris Johnson,
primeiro-ministro do Reino Unido, em tuíte publicado no fim da noite de ontem




Bastidores

Vestibular político

Um total de 3.322 candidatos disputaram, ontem, 650 assentos no Parlamento britânico. A formação de uma maioria exigiria a conquista de 326 distritos eleitorais ; pouco mais da metade do número de cadeiras na Câmara dos Comuns.



A cavalo para votar
Em alguns locais do Reino Unido, os eleitores usaram cavalos (foto) como meios de transporte até o voto. Foi o que ocorreu no pub The Rock Inn, transformado em seção eleitoral, em Chiddingstone Hoath, próximo a Edenbridge, no sudeste da Inglaterra.



Cães do lado de fora

Outra marca registrada das eleições britânicas foi a presença de cães (foto) levados por seus donos até as seções eleitorais. Para se proteger do mau tempo, alguns ostentavam até mesmo capas de chuva, como este no norte de Londres.


Reputação em xeque

Durante a campanha eleitoral, a imagem dos dois principais líderes políticos britânicos foi colocada à prova. O premiê, Boris Johnson, foi repetidamente atacado por sua reputação de ;mentiroso;. Por sua vez, o trabalhista Jeremy Corbyn foi chamado de antissemita por parte da comunidade judaica.



Criatividade pela democracia
No Reino Unido, igrejas, museus e até mesmo locomotivas se transformam em seções eleitorais. Na foto, uma igreja em Ordsall, no norte da Inglaterra, deixou um pouco os fiéis de lado e acolheu os cidadãos britânicos para o exercício do voto. O mesmo ocorreu com um moinho de vento em Suffolk, uma lavanderia em Oxford e uma loja de peixes e batatas fritas em Pembrokeshire.

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