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Flamengo peita campeão europeu, mas Liverpool joga o suficiente para dar o troco de 1981 e conquistar o título inédito. Entenda como a Lei Bosman ajudou o brasileiro Firmino a virar o vilão rubro-negro

Marcos Paulo Lima
Marcos Paulo Lima
postado em 22/12/2019 00:00
 (foto: Karim Jaafar/AFP)
(foto: Karim Jaafar/AFP)


O Liverpool conquistou o título inédito do Mundial de Clubes da Fifa contra o Flamengo graças ao gol na prorrogação de um jogador brasileiro nascido em Maceió. Mais um sinal dos tempos de globalização no futebol pós-moderno, cada vez mais eurocêntrico. Isso seria improvável até 1995. Em 15 de dezembro daquele ano, o Tribunal de Justiça da União Europeia permitiu aos trabalhadores que são considerados comunitários jogar em um outro país da UE de acordo com as normas da Uefa e das federações locais. O caso ficou conhecido como Lei Bosman, referência ao atleta Jean-Marc Bosman. Ele havia entrado na Justiça para que o Liége o liberasse para defender o Dunkerque, da França. As cotas para estrangeiros aumentaram. Começava o êxodo desenfreado de jogadores de todas as partes do planeta para aos clubes do Velho Continente. Os times de lá viraram seleções transnacionais. Os Reds ergueram o troféu com um elenco que tem atletas de 14 países diferentes.

Coincidentemente, de 1995 para cá, os times brasileiros sofrem horrores em duelos com adversários europeus. Não conseguem marcar mais de um gol em confrontos do Mundial. Para se ter uma ideia, a última vez em que um time do nosso país fez mais de um gol num adversário do Velho Mundo aconteceu na decisão de 1993, quando o São Paulo derrotou o Milan por 3 x 2. Desde então, São Paulo, Internacional e Corinthians levaram o título pela contagem mínima. O Flamengo peitou o Liverpool. Porém, o ataque mais ofensivo do país em 2019 cometeu o pecado capital de não balançar a rede. Quando mais precisava, a defesa jogou melhor do que a comissão de frente.

Por esse (e outros motivos), em dezembro de 2019, o Liverpool é campeão inédito do Mundial de Clubes da Fifa. Vingou 1981 depois de uma batalha equilibrada no tempo normal decidida em um contra-ataque letal aos oito minutos do primeiro tempo da prorrogação. Fora de posição, Pablo Marí saiu para cobrir Filipe Luís, desarmou errado, a bola caiu nos pés de Henderson, o volante acionou Mané, o senegalês repassou a Roberto Firmino na direita e o alagoano teve sangue frio para tirar Rodrigo Caio e Diego Alves do lance e estufar a rede.

Responsável pelo ano da graça do Flamengo, o português Jorge Jesus estava em um dia ruim. Errou, principalmente, ao trocar Arrascaeta por Vitinho; apostou no talismã Diego na vaga de Everton Ribeiro ; protagonista de um chute cruzado defendido pelo melhor goleiro do mundo Alisson ; e descaracterizou o Flamengo nos últimos minutos da etapa final. O Liverpool tomou conta do jogo e poderia até decidi-lo no tempo normal não fossem os erros de finalização de Firmino ; um deles tocou duas vezes na trave de Diego Alves ;, a exibição de gala do goleiro rubro-negro, a revisão de um pênalti de Rafinha em Mané com o auxílio do VAR no último lance do tempo normal e a resiliência do time carioca nas blitzes do Liverpool no início dos dois tempos.

Vice contra o próprio Flamengo em 1981, ao perder por 3 x 0; e contra o São Paulo em 2005; os Reds finalmente conquistam o planeta. Atual vencedor da Champions League e da Supercopa da Uefa, a trupe de Jürgen Klopp empilha o terceiro título no ano. Na quinta-feira, o timaço da terra dos Beatles retoma a maratona pelo título inédito da Premier League. A equipe jamais levou o troféu desde que a competição virou liga nacional em 1992. A esquadra da terra dos Beatles se junta ao Manchester United. Até então, os Diabos Vermelhos eram os únicos campeões mundiais representando a terra da rainha.

Ao contrário de campeões recentes da Libertadores, o Flamengo caiu de pé. Lincoln poderia ter forçado os pênaltis ao desperdiçar gol incrível, no entanto, o Liverpool mostrou que está, sim, em outro patamar. Tirou o time rubro-negro da zona de conforto. Obrigou peças-chave do Flamengo a entregar mais do que de costume, e alguns deles não conseguiram. É o caso, por exemplo, de Gerson.

O Flamengo encerra o ano com três dos quatro títulos sonhados. No início do ano, faturou o Campeonato Carioca em cima do arquirrival Vasco. Faturou também o Campeonato Brasileiro. Saiu da fila de 10 anos. Na Libertadores, quebrou jejum de 38 anos ao superar o River Plate de virada. No Mundial de Clubes, a torcida rubro-negra terá de continuar cantando o mantra Dezembro de 1981. Os heróis do maior título rubro-negro em 124 anos continuam sendo: Raul; Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. Enquanto os vice-campeões recebiam as medalhas, os novos donos do mundo festejavam com a fanática torcida ao som do hino escrito no escudo do clube inglês: ;You;ll never walk alone;.

O suspense no retorno do elenco ao Brasil é quanto a permanência do técnico Jorge Jesus e dos atacantes Bruno Henrique, alvo do futebol chinês, e Gabriel Barbosa, cujo contrato de empréstimo da Internazionale expirou.

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