Três perguntas para Flávio de Barros Vidal

Três perguntas para Flávio de Barros Vidal

especialista em tecnologia da UnB e membro do Grupo de Pesquisa em Sistemas Biométricos (BiTGroup)

postado em 22/12/2019 00:00

Hoje, o reconhecimento facial é uma tecnologia precisa?
O reconhecimento biométrico não é algo novo. Veio entre as décadas de 1970 e 1980. Em larga escala, começou a ser mais utilizado em 2010. Primeiro, é preciso analisar que não existe um sistema perfeito, sempre há uma brecha. Até mesmo a nossa digital tem falhas. Percebemos isso quando não conseguimos desbloquear o celular com essa função na primeira tentativa, por exemplo. Mas, em alguns casos, o reconhecimento facial tem qualidade próxima à digital do dedo ; chega a ser 99,9% exato. Claro que tudo depende da condição de captação da imagem. Algumas pessoas dizem que as bases utilizadas são racistas, porque identificam mais pessoas negras como suspeitos, mas acredito que isso ocorre devido à época em que elas foram criadas e que isso vai se atualizando para mudar. O que temos de entender é que um sistema não ser perfeito não faz dele inutilizável. A academia está trabalhando em muitos aperfeiçoamentos. Até a impressão digital não é uma tecnologia fechada.

O uso para segurança pública é uma boa opção?
Com certeza, há um bom auxílio desse sistema para ações de segurança. A pessoa pensa bastante antes de cometer um ato ilícito com uma tecnologia assim. Ainda mais porque ela tem um conjunto de finalidades, consegue montar a dinâmica de um indivíduo e reconhecer o jeito de andar dele, por exemplo, o que impede que a pessoa drible o sistema tampando o rosto. Vamos pensar em algum assaltante que estava usando uma calça amarela, mas muda de roupa para não ser identificado. A câmera vai saber que é ele em outra rua pelos traços captados do movimento do corpo, um reconhecimento de ação. É possível ter algum erro, e alguém que é inocente ser identificado como acusado de algo, mas é fácil eliminar o falso positivo. O sistema de reconhecimento não é a última fronteira, é um bom método para ajudar a elucidar o caso no início. Acho até que toda cidade deveria ter câmeras com biometria, independentemente dos índices de violência.

De que forma esse sistema pode ser usado para fins de mercado?
Vamos imaginar que, no caminho em que a pessoa passa para comprar pão, até chegar à padaria, tenham câmeras de reconhecimento. Elas podem observar o horário do trajeto, quantas vezes ao dia ela frequenta a padaria e outros padrões semelhantes. Isso pode fazer com que empresas de venda de pães on-line tenham acesso a essas informações e comecem a oferecer esse serviço em anúncios personalizados para aquela pessoa, nos horários em que ela mais precisa. Em shoppings, isso também pode ser usado para saber se uma pessoa ficou mais tempo na loja X, de calçados, ou Y, de roupas. Isso pode gerar desconforto, mas é necessário ter em mente que não há interesse em espionar a vida de alguém que não tem vida pública, um cidadão comum.

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