Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 26/12/2019 00:00
Flamengo até morrer

Não quero jogar farofa no chope do Flamengo, que deu uma aula de administração ao Brasil e viveu um ano de grandes conquistas. Jogou uma partida equilibrada contra o Liverpool, na final do campeonato mundial, perdeu no detalhe e podia ter vencido a batalha. Mas há um aspecto que envergonha o Flamengo: a indenização às famílias dos 10 meninos da base que morreram durante um incêndio terrível em 8 de fevereiro no Ninho do Urubu. A diretoria do Fla fechou acordo relativo a quatro jogadores. No entanto, tem agido de maneira mesquinha e indigna em relação ao caso.

Quando a tragédia irrompeu, os diretores prometeram amparar e indenizar as famílias dos meninos do Ninho do Urubu, sob a pressão da mídia e os olhos estarrecidos do Brasil e do mundo. Mas, passado o impacto inicial, os cartolas do Flamengo começaram a empurrar a questão com a barriga, contrataram advogados para protelar a ação, fizeram propostas insatisfatórias às famílias e recorreram de maneira indecorosa aos tribunais.

Em um dos lances jurídicos, o Ministério Público entrou com ação para a penhora de R$ 100 milhões do clube, visando à indenização dos atletas. O juiz responsável pelo caso indeferiu o pedido, sob o argumento de improcedência, uma vez que, segundo ele, o futebol da base do Flamengo tem caráter recreativo, não pode ser tratado como questão trabalhista.

Com todo respeito ao meritíssimo, gostaria de lembrar que o passe de Vinicius Júnior, jogador da base do Flamengo, foi vendido ao Real Madrid por 42 milhões de euros, quando o atleta recreativo tinha apenas 17 anos. Ele só pôde assumir o posto no clube espanhol depois de completar 18 anos. O Ministério Público propôs que o Flamengo pague R$ 2 milhões de indenização mais R$ 10 mil mensais até o momento em que os jogadores mortos completariam 45 anos de idade.

A diretoria do Flamengo recorreu novamente, e a questão rola nos trâmites da Justiça. Familiares dos jogadores mortos reclamam que os cartolas deixam a entender que estariam sendo vítimas do oportunismo. Não existe, ainda, decisão final da Justiça, mas as informações preliminares da imprensa apontam no sentido de que alojar os garotos da base em contêineres foi ato de grande risco. Os meninos dormiam em abrigos construídos com materiais de alta probabilidade de combustão.

O dormitório do Ninho do Urubu não tinha alvará de funcionamento. A prefeitura do Rio chegou a multar o Flamengo mais de 20 vezes. Mas, mesmo que o Ninho do Urubu funcionasse de maneira regular, ainda assim, o clube teria a obrigação moral de indenizar atletas adolescentes que estavam sob a sua responsabilidade.

A mesquinhez da diretoria do Flamengo ficou exposta em outro episódio: o do pagamento dos prêmios pelas conquistas durante 2019. Os cartolas só queriam conceder o bônus para os jogadores e a comissão técnica de Jorge Jesus. Houve rebelião, a diretoria recuou e resolveu pagar para todos os integrantes brasileiros da comissão técnica. Jorge Jesus apoiou o movimento, dando uma lição de dignidade.

O Flamengo gastou R$ 200 milhões em contratações e faturou R$ 130 milhões em prêmios neste ano. É preciso essa mesquinharia? A perda da vida dos filhos jogadores é irreparável. No entanto, a indenização é o mínimo para amenizar a tragédia. Fiquemos com o Samba da boa vontade, de Noel Rosa, poeta da Vila Isabel: ;Neste Brasil tão grande/não se deve ser mesquinho/quem ganha na avareza/sempre perde no carinho/não admito ninharia/pois qualquer economia/sempre acaba em porcaria;.



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