Irã e EUA em alta tensão

Irã e EUA em alta tensão

Milícias leais a Teerã se retiram do complexo da embaixada norte-americana em Bagdá, depois de invadirem e depredarem o prédio. Ataque provocou troca de farpas entre Trump e o aiatolá Ali Khamenei. Washington anunciou envio de mais 750 soldados ao país

Rodrigo Craveiro
postado em 02/01/2020 00:00
 (foto: Ahmad Al-Rubaye/AFP
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(foto: Ahmad Al-Rubaye/AFP )









A invasão das Unidades de Mobilização Popular (PMU, também conhecidas como Hashd Al-Shaabi), uma coalizão de milícias xiitas pró-Irã, à Embaixada dos Estados Unidos em Bagdá levou a tensão entre Teerã e Washington a um patamar perigoso. Helicópteros Apache lançaram sinalizadores sobre o complexo diplomático situado na fortificada Zona Verde, na noite de terça-feira. Ontem, fuzileiros navais norte-americanos dispararam gás lacrimogêneo e granadas de efeito moral contra os manifestantes, que se retiraram do prédio e divulgaram um comunicado no qual afirmaram que ;vocês receberam a mensagem;.

O aiatolá Ali Khamenei também enviou um recado ao presidente dos EUA, Donald Trump. ;Se a República Islâmica decider desafiar e lutar, ela o fará de forma inequívoca. Nós não estamos atrás de guerras, mas defendemos fortemente os interesses da nação iraniana, a dignidade e a glória. Se alguém ameaçar isso, nós o confrontaremos sem hesitação e o atacaremos;, avisou o líder supremo do Irã, que também se referiu a Trump de modo provocante. ;Aquele cara tuitou que vê o Irã como responsável pelos eventos em Bagdá e que responderá ao Irã. Em primeiro lugar, você não pode fazer nada. Em segundo lugar, se você fosse lógico ; coisa que não é ;, você veria que seus crimes no Iraque e no Afeganistão fizeram com que nações odiassem vocês;, escreveu no Twitter.

Foi uma resposta ao magnata republicano, que prometeu fazer o Irã ;pagar um preço muito alto; e acusou o regime teocrático islâmico de orquestrar o ataque à embaixada. ;Isso não é um aviso, é uma ameaça;, reforçou, Trump, que ordenou ao secretário de Estado, Mike Pompeo, o adiamento de uma viagem oficial à Ásia e à Europa. Por sua vez, o secretário de Defesa, Mark Esper, anunciou o envio de 750 soldados para o Iraque. ;Os Estados Unidos protegerão nosso povo e nossos interesses, onde quer que eles se encontrem no mundo;, assegurou.

Porta-voz militar das Kata;ib Hezbollah (;Brigadas do Hezbollah;), uma das milícias xiitas que invadiu a representação norte-americana, Jafar Al-Hussein explicou ao Correio que os manifestantes exigem a expulsão de soldados e diplomatas dos EUA do território iraquiano. ;Os Estados Unidos são um poder da ocupação e, portanto, indesejáveis. Eles devem ser expulsos do Iraque;, disse, por meio do WhatsApp. De acordo com Al-Hussein, o primeiro objetivo da invasão à embaixada foi pressionar Washington a desativar o complexo diplomático. ;A presença norte-americana no Iraque é a causa do assassinato de civis. Nós somos apenas parte da operação (de terça-feira). Somos parte do povo iraquiano, que considera o Exército dos EUA uma força de ocupação que matou nossas crianças;, comentou. Ele lembrou que a ofensiva contra a representação de Washington foi ;a primeira resposta ao bombardeio norte-americano às forças das PMU, na cidade de Oneya, em que 80 combatentes morreram;.

Crise
O iraquiano Suadad Al-Salhy, jornalista baseado em Bagdá, afirmou ao Correio que as PMU tinham o propósito de enviar uma mensagem com a operação de anteontem. ;As facções armadas pró-Irã queriam transmitir aos EUA a ideia de que sua embaixada estará sob ataque quando assim decidirem. Os Estados Unidos deveriam parar de provocá-las, atacando seus quartéis-generais e eliminando seus combatentes;, comentou. ;As PMU também demonstraram que insultaram e humilharam os americanos, ao atacarem a embaixada. Isso é mais eficiente do que combatê-los em uma guerra;, acrescentou. Suadad descarta que o incidente em Bagdá se transforme em uma crise de proporções desconhecidas. ;No entanto, os EUA tomaram vantagem disso para impor mais sanções financeiras ao Irã e aos seus aliados no Iraque.;

As cenas do ataque à embaixada evocaram o fantasma de dois traumas envolvendo representações diplomáticas dos EUA ; em Teerã, em 1979, e em Benghazi (Líbia), em 2012. ;Tivemos um grande sucesso: chegamos à embaixada americana quando ninguém havia feito isso antes e agora a bola está no campo do Parlamento;, disse à agência France-Presse Ahmed Mohieddine, porta-voz civil das Brigadas do Hezbollah. Autoridades pró-iranianas iraquianas trabalham para coletar assinaturas no Parlamento com o objetivo de denunciar o acordo entre Bagdá e Washington que autoriza a presença de 5,2 mil soldados americanos em solo iraquiano.




Pompeo adia embarque à Ucrânia

O secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, adiou ontem uma viagem à Ucrânia após o ataque à Embaixada dos EUA em Bagdá. ;A viagem foi postergada devido à necessidade de que o secretário esteja em Washington para continuar monitorando a situação atual no Iraque e garantir a segurança dos americanos no Oriente Médio;, explicou o porta-voz do Departamento de Estado, Morgan Ortagus. Pompeo tinha previsto viajar no fim de semana à Ucrânia, Bielorrússia, Cazaquistão, Uzbequistão e Chipre.


TUITADAS

;(...) O Irã será totalmente responsabilizado pelas vidas perdidas ou por danos sofridos a qualquer uma de nossas instalações. Eles vão pagar um preço muito alto! Isso não é um aviso, é uma ameaça. Feliz ano-novo!”

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos


;Aquele cara tuitou que vê o Irã como responsável pelos eventos em Bagdá e que responderá ao Irã. Em primeiro lugar, você não pode fazer nada. Em segundo lugar, (...) você veria que seus crimes no Iraque e no Afeganistão fizeram com que nações odiassem vocês;

Aiatolá Ali Khamenei,
líder supremo do Irã, ontem





Eu acho...


;Não creio que Trump vá repetir uma ação militar no Iraque ou atacar o Irã, pois ele sabe o tamanho do custo que isso teria sobre suas forças. O Irã é um aliado vital para o Iraque. Foi Teerã quem ajudou os iraquianos a se livrarem do Estado Islâmico criado pelos Estados Unidos.;

Jafar Al-Hussein, porta-voz
da milícia Kata;ib Hezbollah (;Brigadas do Hezbollah;)







Papa se desculpa por perder paciência com fiel
Antes da tradicional oração do Angelus, ontem, o papa Francisco pediu desculpas por ter ;perdido a paciência;, na noite de réveillon, com uma fiel asiática que tentou puxá-lo e apertou com muita força sua mão. ;Muitas vezes perdem

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