Dominando o português

Dominando o português

Você já parou para pensar que, talvez, entre os motivos para você não progredir profissionalmente, esteja a falta de domínio da língua nativa? Tropeços nesse quesito podem arruinar sua reputação

Ana Paula Lisboa
postado em 05/01/2020 00:00
 (foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)

No e-mail em que você envia seu curriculum vitae (CV), no próprio CV, na redação ou em questões discursivas durante uma seleção, erros de português podem ser fatais e custar a vaga de emprego. Para além da língua escrita, a oralidade também precisa estar adequada: falar equivocadamente mancha a imagem durante entrevistas ou dinâmicas de grupo. Dependendo do caso, tropeços no português, seja oralmente, seja por escrito, podem levar à eliminação de um processo seletivo.
Para quem já está trabalhando, incorreções são igualmente perigosas: colocam em risco não só a sua reputação, mas também a da empresa em que você atua. Por isso, podem contar pontos (negativos) para uma demissão. É o que revela Daniela Araújo Lustosa, gerente de RH da consultoria Véli, em Brasília. ;Varia de acordo com a posição. Se a gente estiver recrutando para um cargo de gestão ou de analista e vê o e-mail ou o currículo com erro de português, dependendo, a pessoa já pode ser eliminada ali;, crava.

;Se for para uma função operacional, em que a escolaridade da pessoa não é tão alta, a gente releva. Mas, mesmo nesses casos, entre um currículo bem escrito e outro com erros, vamos priorizar o primeiro;, conta. Segundo a psicóloga com MBA em gestão de pessoas e pós-graduação em avaliação psicológica, a correção no idioma é levada em conta em todos os tipos de cargos, mas é ainda mais central para cargos de chefia e aqueles que envolvem contato com o público, como recepcionista, vendedor e representante comercial.

;Tem que ter português bom independentemente do cargo. Dependendo da empresa, consideram a língua um quesito eliminador até para vagas operacionais, como motorista, pois querem um condutor que fale corretamente. Em outras, isso não é pedido, pois o cliente diz que tudo bem o motorista falar errado, pois não terá contato com o público externo;, afirma. ;Mas nunca se sabe quem será o empregador, então, é preciso estar preparado.; E, num período de desemprego em alta, com mais candidatos à disposição, Daniela avalia que o português ganha um peso maior.

Ela também alerta que os erros ao falar são tão problemáticas quanto os escritos e, quanto mais alto o cargo, mais exigente o crivo. ;Não dá para ter uma pessoa em um cargo gerencial cometendo erros ao falar... Ela representará a empresa. Já tive vários casos de pessoas boas tecnicamente e com bom currículo, mas reprovadas porque falavam supermal.; A questão é tão séria que podem, em última instância, fazer você acabar na rua: não unicamente por falar ou escrever mal, mas quando isso se junta a outros atributos negativos, pode ser a gota d;água...


Risco para contratados
;O comportamental tem um peso maior, mas, se a pessoa tiver um comportamento ruim, o português será uma coisa a mais a influenciar uma demissão;, afirma Daniela. ;Dependendo da posição que a pessoa ocupa, existe também o risco da demissão pelo mau português.; Por exemplo, ao fazer apresentações por escrito para clientes, um texto mal elaborado coloca a imagem da empresa em risco. Para quem trabalha com alguém que erra muito nesse assunto, é possível dar um toque.
;A gente recomenda ao gestor chamar a pessoa para conversar, mostrar os erros, explicar que o colaborador representa a marca.; A partir daí, o profissional precisa correr atrás. ;Existem cursos disponíveis até on-line. O trabalhador também pode procurar ler mais;, diz. Mas e se você for colega de quem tropeça na língua? Daniela aconselha pensar bem antes de falar. ;Esse papel é do gestor imediato. Você pode até chamar alguém para conversar informalmente: tem gente que vai absorver como crítica construtiva e tem gente que vai se ofender;, pondera.

Bom senso para reconhecer erros

Daniela, porta-voz da Véli RH, admite que os candidatos precisam ter certa dose de bom senso para reconhecer que têm problemas na área, pois os recrutadores não costumam dar esse toque aos concorrentes. ;A gente não dá um feedback específico. Dependendo da situação, se vê erro de português no e-mail enviado ou no currículo, a pessoa já é eliminada ali. Em outros casos, quando há redação, a pessoa só é informada de que não foi para a próxima etapa;, revela. ;O candidato precisa estar antenado: se ele participou de uma seleção, fez uma redação e não foi chamado; depois, isso aconteceu de novo, ele precisa ver que tem alguma coisa errada.;
Se perceber que pode ter problemas no português, a orientação de Daniela é buscar ajuda. ;Você precisa correr atrás de praticar. Existem cursos até on-line. Peça para alguém revisar seu currículo;, elenca. ;É preciso garantir que você vá bem não só na parte técnica durante uma redação ou prova de seleção para emprego. Tem quem ache que será avaliado apenas tecnicamente, e isso não é verdade. Assim, muitos quebram a cara. Ter o português muito ruim pode ser o motivo da eliminação;, alerta.


Sabendo da importância do idioma, Yan Gabriel Melo de Araújo, 19 anos, tomou providências. Ele terminou o ensino médio no ano passado e, desde então, procura uma oportunidade de se inserir no mercado de trabalho, especialmente por meio de vagas de jovem aprendiz. Até o momento, o morador do Itapuã foi chamado para apenas três entrevistas ; parte do processo seletivo em que ele se sente seguro. ;Acredito que falo bem;, diz. Ele não acha que tenha sido eliminado de uma seleção por causa dos conhecimentos linguísticos, mas não tem certeza e admite dificuldades na área.
;Disseram que iam considerar meu currículo e a entrevista e, em nenhuma dessas vezes disseram que o português era um critério, mas não sei...; Afinal, apesar de a língua portuguesa nem sempre ser citada como requisito para um cargo, muitas vezes, trata-se, sim, de um fator determinante. Yan relata tropeços no idioma, especialmente ao escrever. ;Tenho dificuldade na parte escrita. Algumas coisas eu erro muito. Por exemplo: vírgula, acentuação e concordância. Na época da escola, eu me esforçava para conseguir fazer as atividades de português e, em alguns bimestres, tirei nota baixa;, afirma.

Diferencial
Yan elaborou o currículo sozinho e envia para empresas sem passar pela revisão de ninguém. No entanto, por reconhecer os problemas na área, procurou um curso de português. ;Fui atrás de um porque fui muito ruim no
Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) no ano passado, principalmente na parte da redação;, admite. As aulas, relata

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