Desiludida com a política, geração 2020 vai à luta

Desiludida com a política, geração 2020 vai à luta

Jovens nascidos em 2000 são os primeiros nativos digitais. Totalmente conectados, exigem o fim das velhas tradições políticas, mostram preocupação com ataques à democracia, dizem que combate à corrupção ficou pela metade e prometem ir às ruas para garantir direitos

MARIA EDUARDA CARDIM CATARINA LOIOLA* ANDRÉ PHELIPE*
postado em 05/01/2020 00:00
 (foto:  Lucas Batista/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Lucas Batista/Esp. CB/D.A Press)
Na época em que eles nasceram, a internet já existia e se popularizava com o surgimento da banda larga. O pendrive era lançado para substituir o disquete, consoles de videogames ganhavam a segunda versão e a globalização engolia toda a sociedade. A geração 2020, formada pelos 3,5 milhões nascidos no ano 2000, é a primeira 100% digital. Em 2020, as crianças nascidas naquele ano completam 20 anos. O Correio foi atrás delas para saber o que pensam e descobriu que estão decepcionadas com a política.

Eles votaram em 2018 já em urnas digitais, e consideram o direito ao voto essencial. No entanto, muitos se mostram desiludidos com a política por causa do excesso de escândalos de corrupção, cujo combate, na visão deles, ficou pela metade. Para a geração 2020, ainda prevalecem as velhas tradições políticas. A nova era alardeada pelo presidente Jair Bolsonaro ficou na promessa. Mas, apesar do distanciamento e da desilusão, os jovens prometem ir às ruas para garantir seus direitos. Eles querem um futuro melhor. E isso passa pela garantia de empregos.

Para a estudante de enfermagem Ana Gabrielly Marcelino de Sousa, que completa 20 anos em março, a política brasileira é desestimulante. Moradora do Valparaíso (GO), ela conta que já foi mais atenta ao que ocorre na Esplanada dos Ministérios, mas parou de observar a cena política por desilusão e descrédito.

;Eu não acompanho muito o dia a dia da política. Antigamente, observava mais. Até os meus 17 anos, estava todo dia vendo o que envolvia economia e ideologia. Deixei isso um pouco de lado porque perdi as esperanças. Agora penso assim: vou fazer minha parte e seja o que for;, desabafa. Apesar da falta de interesse pelo cenário político, Ana Gabrielly votou nas eleições de 2018, tanto no primeiro turno, quanto no segundo. ;O voto é importante porque, por meio dele, escolhemos as pessoas que governarão o país e que vão decidir como nosso dinheiro será investido. Quem não participa das eleições não pode reclamar depois, e ainda joga por água abaixo aquilo que as pessoas lutaram tempos atrás ;, diz.

O sergipano Victor Raul Villela Coronado, que completa 20 anos em julho, segue o mesmo caminho que Ana Gabrielly. O estudante de direito já acompanhou bastante a política, mas perdeu o interesse. ;Acompanhava muito o dia a dia da política e as questões que envolviam mudanças de leis e decretos. Também adorava os bastidores do Congresso e tudo que ocorria lá dentro. Diminuí a atenção porque tem uma hora que a gente fica cético, fica triste com o que está acontecendo com o país. Então, essas coisas tiram a empolgação que o jovem tem;, afirma.

Nascido no ano em que a internet se consolidava como veículo de comunicação, Victor acredita que a tecnologia atrapalha a política. ;Acho que a política está uma bagunça atualmente, pois o povo está alienado. É gente demais com opinião pronta, pega da internet e só repete o que ali encontra;, diz. A corrupção também preocupa o jovem, que se queixa de se inteirar de ocorrências diárias no interior do Sergipe. ;O interior do país está tomados por corrupção. Muitos compram o voto. Pessoas chegam e se vendem para terminar a reforma da casa, entre outras coisas. Isso atrapalha muito o Nordeste;, lamenta.

Apesar da polarização política das últimas eleições presidenciais, a identificação com partidos políticos não parece ser um costume da geração 2020. Tanto Victor quanto Ana Gabrielly preferem não declarar preferência por legendas. ;Não tenho nenhuma preferência por partido político. Prefiro não votar por conta do partido e, sim, por ideias e propostas dos candidatos, mas evito votar em certos partidos. A gente sabe que, no passado, essas siglas só pensavam nelas e não necessariamente no povo;, argumenta o jovem, que vê nas manifestações de ruas uma forma de combater tudo que está errado. ;Temos que deixar claro o que estamos pensando. E os protestos são um bom caminho.;

O tatuador Ruan Oliveira, próximo dos 20 anos, conta que nunca se identificou totalmente com nenhum partido. Para ele, a política brasileira é comandada por pequenos grupos que prezam apenas pelos próprios interesses. Por isso, ele considera importante votar com consciência. ;O voto rege tudo o que a gente faz. Se a gente não votar, pode entrar uma pessoa que não nos representa, pode entrar um maluco. Votar é importante para nossos princípios serem valorizados;, avalia.

AI-5
A geração 2020 qualifica a democracia, tema que mobilizou fortemente o debate nas últimas eleições, como essencial. As declarações polêmicas emitidas por integrantes do governo de Jair Bolsonaro, como a menção à volta do Ato Institucional (AI-5), que suspendeu direitos políticos e civis na época da ditadura militar, dividem os jovens. Para alguns, são frases da boca para fora, para outros, merecem punição. ;Esse tipo de declaração atrapalha muito, mas a gente sabe que, no fundo, são apenas bobagens. Essas pessoas precisam se policiar bem mais;, opina Ana Gabrielly.

O estudante de publicidade Jean Michel Rodrigues Barros, também da geração 2020, que acompanha firmemente os desdobramentos da política, acredita que a democracia é a melhor opção para resolver os problemas do país. ;Ao mesmo tempo em que o presidente Bolsonaro representa uma ameaça à nossa democracia, ele agrada muita gente por conta do seu jeito;, avalia.

A preocupação da estudante de engenharia química Nicoly Mendes, nascida no ano 2000, é parecida. ;Na minha opinião, qualquer um que flerte com a ditadura militar e com AI-5 deveria perder o cargo, pois isso vai totalmente contra a democracia;, diz. Em outubro de 2019, o filho do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) sugeriu a reedição de um ;novo AI-5;, caso houvesse manifestações nas ruas semelhantes às que ocorreram no Chile. Ela diz mais: ;Estou disposta a ir às ruas para defender nossos direitos. Temos que lutar por melhores condições, sobretudo por mais empregos. Com a precarização das leis trabalhistas, as pessoas estão cada vez mais em subempregos;, frisa.

Estagiárias sob supervisão de Cláudia Dianni



;Estou disposta a ir às ruas para defender nossos direitos. Temos que lutar por melhores condições, sobretudo por mais empregos. Com a precarização das leis trabalhistas, as pessoas estão cada vez mais em subempregos;

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