>> entrevista SERGIO VALE

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economista-chefe da MB Associados

Rosana Hessel
postado em 05/01/2020 00:00
 (foto: Rosana Hessel/CB/D.A Press)
(foto: Rosana Hessel/CB/D.A Press)


;Governo não pode mais perder tempo;
O governo perdeu tempo com pautas menos importantes em 2019, e, neste ano, precisará definir melhor as prioridades em um ano eleitoral, na avaliação do economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, que espera crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2% neste ano. Apesar de defender a reforma tributária como a mais importante para ser tocada após a da Previdência, o especialista considera que o governo Jair Bolsonaro não conseguirá entregá-la até o fim do mandato. ;Uma reforma tributária com vários lobbies fazendo suas demandas pode atrapalhar o processo. É preciso um governo mais forte politicamente para conseguir aprová-la;, destaca.

O economista critica a insistência da equipe econômica em ressuscitar um tributo nos moldes da antiga Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) com outra roupagem. ;Imposto digital é CPMF da mesma forma. Não tem diferença;, alerta. Para ele, o tributo é ;ruim;, pois onera o setor produtivo em cascata. De acordo com o especialista, o governo precisa ficar atento aos danos causados na imagem na do meio ambiente, porque existe um aumento da consciência ambiental entre os consumidores jovens, inclusive, na China, maior parceiro comercial do país. Para ele, o governo Bolsonaro é disperso na agenda econômica e isso atrasa o processo de retomada da atividade. ;A reforma da Previdência foi aprovada, mas não é mérito dele;, resume. A seguir os principais trechos da entrevista concedida ao Correio no escritório dele em São Paulo.

Pode avaliar o cenário da economia para 2020 em meio à crise entre Estados Unidos e Irã?
Quando Bolsonaro foi eleito, parecia que iria resolver tudo da noite para o dia, mas, no primeiro semestre, vimos um governo com dificuldades políticas. Na verdade, houve uma adequação a uma realidade mais razoável. O crescimento hoje é dependente de reformas que estão sendo feitas desde Michel Temer. Bolsonaro, ao dar continuidade, trouxe estabilidade. Com algumas reformas microeconômicas, o conjunto vai levar a um crescimento mais forte, salvo choques. O maior risco é o cenário internacional. Pretendemos elevar nossa projeção de crescimento do PIB, de 1,6% para 2%, em 2020, mas o Irã será um desses riscos. Uma guerra com os EUA pode levar a uma disparada no preço do petróleo.

Houve frustração nas projeções do mercado. O que aconteceu?
Nossa estimativa era 2,2% de crescimento para 2019. O mercado começou com previsão de crescimento médio que ia de 2% a 3%. No geral, a expectativa era positiva com as reformas, mas o governo Temer parou depois das delações. Tivemos a mais relevante reforma, a da Previdência, que destravou a expectativa. Trouxe um ambiente fiscal mais crível para os próximos anos, ajudando a cair a expectativa de inflação e, consequentemente, a de juros. Existem medidas para destravar o investimento nos próximos anos, como o marco regulatório do saneamento. Quando olhamos esse conjunto, 2020 tende a ser um ano melhor.

O que vai puxar o PIB?
Investimento e consumo. Para 2020, a queda de juros vai ser essencial para o financiamento imobiliário. A construção está retomando de forma mais intensa agora, com aumento na venda de cimento, por exemplo, que é um indicador antecedente.

As manifestações na América Latina podem comprometer a retomada?
O Brasil está no caminho de crescimento, de melhora do emprego, e é único país latino-americano a fazer reformas. Por isso, há chances de recuperação do crescimento. Além disso, o país já teve as grandes manifestações em junho de 2013. A população foi para a rua. Já tivemos nossa crise por conta delas. Os outros países ainda vão passar por esse processo.

A popularidade do presidente vem caindo, mas há otimismo no mercado. A percepção é de que a economia está andando, apesar do Bolsonaro?
A economia está andando porque as reformas têm sido feitas desde 2016. O governo errou ao não encaminhar a reforma tributária no segundo semestre de 2019. Quando aparece com (a nova) CPMF, o governo perde tempo. E depois volta com esse assunto no fim do ano, como um imposto digital, que é CPMF. Me parece que o governo, de fato, tem dificuldades em pensar o que deveria ser uma boa reforma tributária para o Brasil. Vai acabar, infelizmente, perdendo a oportunidade.

Existem duas propostas de reforma tributária no Congresso;
A proposta do Bernard Appy que está na Câmara, a PEC 45, me parece a mais perfeita, a mais completa, para lidar com o IVA (Imposto sobre Valor Agregado), que é uma questão específica da reforma tributária. Talvez, nessa parte, poderia resolver grandes problemas de crescimento do país. Mas não vai avançar muito, e talvez vamos ter apenas uma reforma de PIS-COFINS sendo agregados e, talvez, lá na frente, juntar o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). E não se sai muito disso de juntar os impostos federais.

Então, não vamos ter uma reforma tributária de verdade?
Vai ser uma minirreforma federal de tributos. O governo perdeu muito tempo com isso. E 2020 é ano eleitoral. De 2021 em diante, vamos ter uma agenda carregada de política por conta da eleição presidencial. Uma reforma tributária com vários lobbies fazendo suas demandas pode atrapalhar muito o processo. É preciso um governo forte politicamente para conseguir aprová-la. Na reforma da Previdência, havia um lobby pesado do servidor público. Mas, quando se fala em reforma tributária, todos os segmentos estão envolvidos e todos querem manter seus benefícios: serviços, hotelaria, educação, agronegócio, segmentos importantes querendo alíquotas diferenciadas. Isso atrasa o processo. Perde força.

O governo diz que vai acabar com os campeões nacionais, mas mantém desonerações para igrejas;
São as dificuldades de termos Bolsonaro como presidente, que é a questão das armas e da religião pesando nas decisões. O Bolsonaro foi alijado da tarefa de política econômica. Mas a economia conseguiu andar sem o presidente interferir. Paulo Guedes, Rodrigo Maia (presidente da Câmara) e Davi Alcolumbre (presidente do Senado) fizeram as coisas andarem a despeito do presidente. Conseguimos chegar em 2019 com um arranjo à brasileira, uma espécie de parlamentarismo tripartite comandando a agenda.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, teve mais derrotas ou vitórias?
O governo, na verdade, não conseguiu avançar. Houve muitas derrotas na Câmara e no Senado. Além da reforma da Previdência, talvez a MP da Lib

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