Além dos pulmões

Além dos pulmões

Pesquisas mostram como partículas tóxicas presentes no ar entram no sistema respiratório, se espalham pelo corpo e causam complicações diversas. Diabetes, irregularidade menstrual e maior vulnerabilidade a inflamações estão entre os problemas relacionados

» Paloma Oliveto
postado em 12/01/2020 00:00
 (foto: Kim Kyung-Hoon/Reuters - 11/10/14 )
(foto: Kim Kyung-Hoon/Reuters - 11/10/14 )


A associação entre poluição atmosférica e asma, alergias e câncer de pulmão já está bem estabelecida pela ciência. Contudo, só recentemente começaram a aparecer evidências de que os malefícios das partículas tóxicas concentradas no ar não se limitam ao aparelho respiratório. Estudos epidemiológicos e de campo mostram que a exposição a poluentes ; algo de que dificilmente a população urbana escapa ; tem implicações negativas bem mais amplas.

Recentemente, pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Washington em St. Louis concluíram que mesmo a poluição atmosférica em níveis seguros (limite de 20;g/m;, segundo a Organização Mundial da Saúde) aumenta o risco de diabetes. A doença afeta, hoje, 250 milhões de pessoas globalmente, e os casos elevam ano a ano. As estimativas da OMS apontam que, até 2030, esse número pode dobrar. Os principais fatores de risco são dieta não saudável, obesidade e estilo de vida sedentário. Contudo, os autores do artigo, publicado na revista The Lancet, afirmam que as toxinas inaladas também desempenham um papel.

;Encontramos um risco aumentado, mesmo com baixos níveis de poluição do ar atualmente considerados seguros pela OMS. Isso é importante porque muitos grupos de lobby do setor argumentam que os níveis atuais são muito rigorosos e devem ser relaxados, quando, na verdade, precisam ser reforçados;, destaca Ziyad Al-Aly, MD, autor sênior do estudo e professor-assistente de medicina na Universidade de Washington. De acordo com ele, até hoje o fardo da poluição na incidência de diabetes não havia sido quantificado, embora a hipótese tenha sido levantada anteriormente.

Para avaliar a poluição atmosférica no ambiente externo, os pesquisadores analisaram partículas ; pedaços microscópicos de poeira, sujeira, fumaça, fuligem e gotículas líquidas no ar. Estudos anteriores descobriram que essas substâncias podem entrar nos pulmões e invadir a corrente sanguínea. No caso do diabetes, acredita-se que a poluição reduza a produção de insulina e desencadeie a inflamação que impede o corpo de converter a glicose no sangue em energia necessária para manter a saúde.

Os cientistas estimaram que a poluição contribuiu para 3,2 milhões de novos casos de diabetes em todo o mundo em 2016, o que representa cerca de 14% de todos os registros inéditos da doença naquele ano. Eles também calcularam que 8,2 milhões de anos de vida saudável foram perdidos em 2016 devido exclusivamente ao diabetes associado à inalação de partículas tóxicas.

Também devido aos hormônios, a poluição atmosférica pode afetar os ciclos menstruais, tornando-os irregulares, segundo um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de Boston. De acordo com a ginecologista Shruthi Mahalingaiah, um dos autores da pesquisa, o sistema endócrino reprodutivo é fortemente influenciado por partículas tóxicas suspensas no ar: ;Há efeitos negativos bem documentados nesse sentido, incluindo infertilidade, síndrome metabólica e síndrome dos ovários policísticos;, afirma.

Agora, a equipe de cientistas descobriu também que a exposição à poluição do ar entre adolescentes de 14 a 18 anos está associada a risco aumentado de irregularidade menstrual. Além disso, demora-se mais a atingir a regularidade no início da vida adulta. ;O ciclo menstrual responde à regulação hormonal, e a poluição do ar por partículas altera a produção hormonal;, diz a pesquisadora, que publicou um artigo sobre o estudo na revista Human Reproduction.

Metabolismo celular

Evidências como essas incentivaram uma equipe da Universidade de Búfalo (UB) a pesquisar como a toxicidade no ar afeta o organismo no nível dos metabólitos ; o produto do metabolismo de células ou moléculas. Eles fizeram isso em uma das cidades mais poluídas do mundo ; Pequim ;, avaliando o comportamento dessas substâncias antes, durante e depois das Olimpíadas de 2008. Os resultados foram publicados no ano passado pela revista Environmental Health Perspectives. Durante o evento, o governo chinês adotou controles temporários de poluição, abandonados, contudo, após o encerramento.

;Pense em nosso corpo como uma sociedade. Esses metabólitos cumprem posições diferentes, como professor, agricultor, trabalhador, soldado. Precisamos que cada um funcione adequadamente para manter um sistema saudável;, compara Lina Mu, coautora do artigo e professora-associada de epidemiologia e saúde ambiental na Escola de Saúde Pública e Profissões da Saúde da UnB. ;Nosso estudo descobriu que o corpo humano sofreu alterações sistêmicas no nível de metabólitos antes, durante e após as Olimpíadas de Pequim em 2008, quando a poluição do ar ambiente mudou drasticamente.; De acordo com a cientista, 69 dessas substâncias foram alteradas significativamente quando a qualidade do ar mudou. Muitas delas estão envolvidas em estresse oxidativo, inflamações, sistemas cardiovascular e nervoso.

Duzentos e um adultos participaram do estudo. Os pesquisadores os acompanharam durante os Jogos Olímpicos, quando a poluição do ar estava baixa, e, posteriormente, quando os níveis retornavam à sua máxima habitual na cidade de 21 milhões de pessoas. Os cientistas usaram uma plataforma que mede toda uma coleção de metabólitos detectáveis ; 886, no caso da pesquisa ; simultaneamente. ;Juntos, esses metabólitos representam uma imagem relativamente abrangente das respostas do corpo humano à poluição atmosférica;, diz Lina Mu.


14%
dos casos de diabetes registrados no mundo em 2016 tiveram alguma relação com o contato com a poluição atmosférica, segundo pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Washington em St. Louis



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