Desafio da educação é acabar com a demagogia

Desafio da educação é acabar com a demagogia

Presidente executiva do Todos pela Educação aponta que há uma parte da sociedade conivente com o atraso

CLÁUDIA DIANNI
postado em 12/01/2020 00:00
 (foto: Alexandre Ondir/Divulgação - 2/7/15 )
(foto: Alexandre Ondir/Divulgação - 2/7/15 )

Presidente do Todos pela Educação, Priscila Cruz acredita que o maior desafio da educação no Brasil hoje é acabar com a demagogia e ter gestores realmente comprometidos com o desenvolvimento estudantil. Para ela, uma parte da sociedade é conivente com o atraso. Priscila também vê um retrocesso ;sem precedentes na gestão federal da educação no último ano;. Em contrapartida, enxerga avanços importantes na educação básica nas últimas duas décadas, que resultaram, por exemplo, na criação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) para medir a qualidade do ensino nas escolas públicas.

;Em 2007, os alunos do 5; ano tinham 28% de aprendizagem considerada adequada e, em 2017, o resultado foi de 60%, mais que dobrou. Não temos, no Brasil, histórico de indicador social ou econômico com esse resultado;, comemora. Segundo Priscila, os bons resultados ainda não chegaram no ensino médio. Ela é favorável à escola em tempo integral para jovens e fim do ensino médio noturno, além de alterações no Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb).

Priscila também defende a valorização profissional da carreira de professor. ;No Brasil, é vista como atividade, não como profissão. Você já viu um cirurgião que vende Natura nas horas vagas? Mas professor, tem;. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista ao Correio.


Atualmente, qual é o maior desafio da educação no Brasil?
Por incrível que pareça, o maior desafio é ter pessoas comprometidas nos cargos de lideranças, pois as políticas decorrem do comprometimento dos gestores. Há um certo descompromisso das lideranças brasileiras com relação à indicação de cargos dos responsáveis pela educação. No nível federal, o ministro da Educação (Abrahan Weintraub) não tem uma agenda educacional, mas outras agendas e preocupações, e isso é um obstáculo para falar em políticas específicas, que são uma decorrência do comando dos que tocam os órgãos responsáveis pela modelagem e pela execução das ações. O que mais precisamos hoje é de compromisso real, e não demagógico, das lideranças políticas com a educação.

O que é preciso ser feito?
Não temos uma crise generalizada, pois a máquina funciona. O problema é que não se produz resultados. Temos uma crise de aprendizagem. Para que as políticas produzam resultados, é necessário investir em três prioridades, entre elas, políticas para docentes. Há uma ideia muito forte no Brasil de que basta contratar professores com vocação, que eles ensinam bem e, se não ensinam bem, é porque não têm vocação. Não funciona assim. Um bom professor se forma com política de incentivo e de indução. Isso é o que vai levar os dois milhões de professores a terem mais qualidade. Esse, da vocação, é um pensamento preguiçoso e joga o problema para o professor. Além disso, estamos vivendo a farra da educação a distância (EAD). Um exagero. Tem que ter currículo sério e boa gestão. Outra prioridade é a primeira infância. Os alunos já chegam na escola muito desfasados por falta de políticas voltadas para o desenvolvimento de crianças até cinco anos, período em que 90% das conexões neurais estão sendo formadas. Por fim, falta gestão e governança.

De cada 100 jovens que concluem o ensino médio,
apenas nove aprenderam o que seria esperado em matemática,
e 28, em língua portuguesa, segundo dados do Todos pela Educação....
É muito pouco. E o grau de indignação da sociedade é no nível da apatia. É simplesmente uma catástrofe e já estamos vendo as consequências do descaso. O Brasil passou séculos sem olhar para a educação. Precisamos criar o constrangimento de dizer aos gestores públicos: olha, você foi eleito, mas não tem carta branca; não podemos conviver com 9% de aprendizagem. Há uma conivência muito grande.

Houve avanços nas últimas décadas?
Sim, e avançamos mais do que o cidadão comum consegue enxergar. O problema é que o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos, rede mundial de avaliação de desempenho escolar coordenada pela OCDE) e a onda de melhoria ainda não chegaram ao ensino médio. Mas a educação básica vem avançando nos últimos 20 anos. Um dado concreto é que, em 2007, os alunos de 5; ano tinham 28% de aprendizagem considerada adequada e, em 2017, o resultado foi de 60% ; mais que dobrou. Não temos, no Brasil, histórico de indicador social ou econômico com esse resultado.

Essa evolução se deve a quê?
A vários fatores. Não teve, e nunca vai ter, uma bala de prata. Foi um conjunto, como a ênfase na alfabetização, no aumento de matrículas na educação infantil, na divulgação de avaliações com transparência. Os resultados do 5; ano são, sobretudo, resultados do empenho das prefeituras. Os prefeitos começaram a usar a educação como bandeira política, o que é muito bom. Antes do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica do governo federal para medir a qualidade do ensino nas escolas públicas), não faziam isso. É o resultado da transparência, pois a avaliação mostra o avanço em uma gestão específica. O Brasil aprendeu a ensino fazer fundamental. Agora, é continuar e chegar a 80% de aproveitamento, patamar de país asiático. São outras etapas, e vai ficando mais complexo, a defasagem vai se ampliando. Outra coisa é que houve mais articulação do MEC com os estados. Nos últimos anos, houve a aprovação da reforma do ensino médio, criou-se o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica, formado por recursos dos três níveis da administração pública para financiar a educação básica pública), o Ideb. Em termos de políticas públicas, aconteceu muita coisa. Foi bem dinâmico.

Em 2000, o Brasil investia R$ 2 mil ao ano por aluno e, em 2018, foram
R$ 6,3 mil. Por que não melhora? Falta

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