Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 26/01/2020 00:00
Onze Horas

Enquanto o mundo explode, cuido de coisas mínimas para manter a sanidade. No momento, ocupo-me em constituir um jardim na minha casa. Pode parecer simples, mas não é tão fácil quanto se imagina. Mesmo que tivesse dinheiro suficiente para instalar um jardim completo, existem fatores imponderáveis que interferem no empreendimento.

Moro em um condomínio horizontal fronteiriço a uma mata cerrada. Algumas plantas não se adaptam ao ambiente e fenecem. O espaço é amplo. Além disso, as formigas atacam e têm preferência por determinadas espécies. Elas, praticamente, destruíram um pé de manacá que plantamos. E se não são as formigas, as pragas podem ser as lagartas. De modo que cultivar plantas é uma ciência complexa e delicada.

É preciso saber se gostam da sombra ou do sol, se apreciam pouca ou muita água. Na verdade, quem comanda, cuida e bota a mão na terra mesmo é a minha esposa. Eu entro com o apoio moral, a observação e, de vez em quando, ajudo na aguação.

O ataque das formigas ao manacá não me demoveu do projeto de plantar vários arbustos do cerrado. Estou de olho em um pé de caliandra rosa, que encontrei em um viveiro perto de casa. No entanto, enquanto fazemos planos florais, recebi um magnífico presente.

Contratamos um jardineiro para dar uma geral uma vez por mês no quintal. Havíamos comprado um vaso que estava no quintal sem função. Zé Vieira, o jardineiro, trouxe a muda da planta chamada popularmente de Onze Horas, que eu desconhecia. Adapta-se com facilidade a jardineiras, canteiros e vasos. E não exige maiores cuidados.

Ela tem me proporcionado muitos momentos de êxtase em razão de uma peculiaridade. Quando não está exposta à luz solar, fica com os botões fechados. Mas, no ápice do sol, os botões se abrem em flores que esplendem com todo o fulgor. A inflorescência derrama-se do vaso numa radiação de beleza. É um instante mágico. Além disso, ela atrai abelhas para a polinização.

A gente estuda que o mundo vegetal está em permanente mutação. No entanto, com a Onze Horas, é possível assistir a esse movimento de transformação.

É uma coisa tão linda que pensei em transformar a visitação da planta em turismo ecológico e cobrar ingresso. Todavia, ao fazer uma pesquisa na internet, constatei que a Onze Horas é muito disseminada e comum. Não importa, não altera em nada o meu encantamento.

As pétalas delicadas e a fulguração rosa com nuances de vermelho e de lilás têm sido, para mim, uma fonte permanente de alegria. Todos os dias, quando o sol entra a pino, vou ao quintal para apreciar esse pequeno milagre da natureza. A beleza, sopra-me ao ouvido Stendhal, é uma promessa de felicidade.


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