Conceito inovador para a sociedade

Conceito inovador para a sociedade

postado em 26/01/2020 00:00
;Democracia é, literalmente, educação;. A frase, do educador Anísio Teixeira, está destacada em um muro da Escola Parque 308 Sul, idealizada pelo autor. Mostra como o saber é essencial para a construção de uma sociedade que luta contra a desigualdade, sendo base para as mudanças necessárias de qualquer país. A instituição nasceu em 1960, mas baseada em preceitos modernos que estavam sendo estudados em 1940, como explica Ana Lúcia de Abreu Gomes, professora da Faculdade de Educação da UnB. ;Anísio Teixeira aplicou em Brasília uma experiência piloto que ele desenvolveu em Salvador, com a criação do Centro Educacional Carneiro Ribeiro. A proposta era de uma educação que oferecesse, em um turno, as disciplinas tradicionais do currículo e, no contraturno, disciplinas relacionadas às artes de uma maneira geral, à educação física e à profissionalização dos alunos;, explica. As ideias de educação integral completa eram revolucionárias para a época e não era à toa.

Naquele tempo, surgia no Distrito Federal a oportunidade de formação de um novo país. ;Havia o entendimento de que na capital recém-inaugurada haveria a emergência de uma nova sociedade brasileira. A educação dos jardins de infância, das escolas classe e parque seriam a matriz desse processo;, conta Ana Lúcia. O planejamento previa a construção de uma escola parque a cada quatro quadras, com atividades que preparavam os alunos para a vida moderna, como aulas de vários segmentos da arte, recreações físicas e até oficinas industriais. Essas aulas complementavam o ensino de outras escolas, permitindo que os estudantes ampliassem os conhecimentos artísticos, físicos e sociais, além de facilitar a inserção futura no mercado de trabalho.

;Os professores tinham autonomia para organizar os planos de aula e realmente acreditavam que a educação poderia ser transformadora. Então, ofereciam encontros a esses alunos com poetas, músicos e escritores. A Escola Parque 308 Sul mobilizou a vida cultural da cidade;, narra a especialista. A arquitetura dialogava com a liberdade de as crianças descobrirem diferentes habilidades. Exemplos disso são as janelas em fita, a integração entre os planos interior e exterior dos colégios e o planejamento de áreas como biblioteca, pavilhões, quadras esportivas, piscinas e conjuntos projetados para música, teatro e exposições.

Memória afetiva

Todos os conceitos aplicados na Escola Parque, construída em 1960, são vistos no dia a dia pelos alunos e lembrados com saudades pelos egressos da instituição. Alzira Maria Lima da Silva, 59 anos, teve sorte. Estudante da instituição entre 1969 e 1975, ela não abandonou esse projeto modelo. ;Costumo dizer que eu e a escola somos ligadas pelo cordão umbilical. Desde pequena sou apaixonada por ela, tanto que lembro de um dia, quando eu era criança, que subi naquele brinquedo trepa-trepa e disse para mim mesma que seria professora ali. Hoje, tenho muito orgulho de ver que consegui;, conta.

Alzira é auxiliar de direção na 308 Sul e divide com as recordações de infância o prazer do trabalho da fase adulta, ambos no mesmo local. Ela chegou à capital na década da inauguração, após o pai assumir um cargo público e se mudar com a família.

Matriculada no Centro de Ensino Fundamental 1, na 106 Sul, fazia atividades complementares na Escola Parque. ;A gente aprendia a lidar com costura, madeira, pintura em porcelana, cerâmica, caligrafia. E os professores sempre fizeram toda a diferença na vida dos estudantes, porque têm como principais características serem humanos, amorosos e dedicados. Não tinha como não se apaixonar pelo ensino;, comenta Alzira.

A garota cresceu e chegou a trabalhar como secretária parlamentar, mas se lembrou do sonho de infância quando viu um concurso para a Secretaria de Educação e não pensou duas vezes. Aprovada em primeiro lugar, foi convocada em fevereiro de 2001. ;Para qual escola me designaram? A Escola Parque. Ninguém imagina a emoção que senti quando pisei lá novamente, para assumir como professora. Hoje, ela consegue continuar o trabalho de aprendizado empático que recebeu quando criança. ;Tem aluno que fica apavorado quando é chamado na direção, mas nós não punimos, nós acolhemos. Sempre tentamos entender os motivos dos problemas deles para resolvermos juntos.;

Palco da história

Um grupo de centenas de alunos, de diferentes estados, culturas e contextos, convivendo na mesma escola: era esse o cenário da Escola Parque da 308 Sul, em 1960, quando a instituição deu início às atividades. Mesmo assim, havia algo em comum entre todos: era difícil não gostar de ir ao colégio para aqueles estudantes. É a opinião de Maria da Conceição de Lanna, 68. ;Vim de Minas Gerais e foi marcante esse contato com diferentes crianças. Tinha gente do Sul, do Nordeste, de todo lugar. Só não tinha brasiliense! A gente ia aprendendo um pouco da cultura de cada um e os professores incentivavam isso com as dinâmicas. Era uma troca muito boa;, diz a aposentada.

Maria se recorda do choque entre sair de uma cidade do interior para uma grande capital. ;Era acostumada a correr pelo mato, ter quintal grande, e vim para um apartamento pequeno de uma cidade desconhecida. Mas, na Escola Parque 308 Sul, fui me adaptando bem, porque era um lugar muito verde, aberto, com espaço para correr. Acho que não tinha nem essas grades de hoje;.

Regina Maris Freitas, 67, também sente falta dessa paz e do clima leve da Brasília recém-inaugurada. ;A gente era criança, mas tinha tranquilidade para ir a pé para o colégio. E, dentro da Escola Parque, o sentimento era de liberdade, porque o aprendizado era lúdico como se fosse brincadeira;, classifica.

Outra aluna da época que sente saudades da fase escolar é Dilma Cordeiro, 68. A carioca tem na memória principalmente momentos de prazer dentro da instituição. ;O que me marcou positivamente foram os professores extremamente dedicados, as diferentes atividades. A gente tinha aula de teatro e cheguei a ser protagonista de um espetáculo. Para uma criança de 9 anos, isso era incrível! Era uma época do início do grande projeto de Brasília, então havia muita preocupação em colocar em prática um projeto pioneiro de educação. No meio disso, a gente via construções importantes sendo erguidas, convivia com os candangos, que vinham de todo canto. Vivemos o começo da história;, afirma. Ela lembra com clareza e tristeza quando foi instaurado o golpe militar (1964) e a educação modelo começou a perder força.

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