Folia sustentável

Folia sustentável

A produção de lixo durante o carnaval brasiliense caiu 39,5% em 2019, em relação ao ano anterior. Entre os materiais mais descartados, estão latinhas, plásticos, garrafas PET e vidros

» Ana Maria da Silva* » Agatha Gonzaga * Estagiária sob supervisão de José Carlos Vieira
postado em 26/01/2020 00:00


Os brasilienses entraram no clima do carnaval mais cedo este ano. Fantasias, tiaras e purpurinas começaram a fazer parte das vitrines, e a variedade de momo está presente no comércio da capital. Mas, se por um lado o carnaval é um dos eventos brasileiros mais esperados, por outro, o consumo excessivo e massivo de itens da folia gera resíduos que podem prejudicar o meio ambiente.

Preocupadas com o impacto ambiental, foliões criaram iniciativas conscientes e sustentáveis, de tal forma que as pessoas possam curtir a festa sem agredir a natureza com produtos e resíduos tóxicos. De acordo com o Serviço de Limpeza Urbana do Distrito Federal (SLU), nos últimos anos, houve uma redução de 39,5% na quantidade de resíduos recolhidos. Em 2018, foram registradas 82,2 toneladas de lixo produzidas durante o carnaval, número alto se comparado a 2019, que gerou 49,7 toneladas. Latinhas, plásticos, garrafas pet e vidros são os materiais mais descartados.


A coordenadora de mobilização social do SLU, Luana Cristeli Sena, explica que a redução destaca a consciência ambiental cada dia mais presente na vida do brasiliense. ;É um indicativo de que a população está se conscientizando mais. É importante sensibilizar os órgãos públicos, os organizadores de blocos, ambulantes e pessoas que curtirão a festa, quanto à importância da manutenção da limpeza da nossa cidade;, diz.

Luana explica também que a Lei 5.610 de 2016 passou a responsabilizar grandes geradores de resíduos sólidos, o que afeta diretamente os blocos dos carnavais. ;Desde então, todos os eventos que atraem grande público vêm sendo cadastrados no SLU, e os blocos de carnaval fazem parte da lista. Dessa forma, a obrigatoriedade de manter a limpeza durante a festa recai sobre eles;, esclarece.

Entre as iniciativas do órgão, está o programa Bloco Brasília Limpa, que acontece desde 2015 e promove palestras de conscientização aos organizadores dos blocos e ambulantes. ;O projeto tem o objetivo de sensibilizar a manutenção da limpeza durante as festas, promovendo uma mudança cultural para o descarte adequado dos resíduos durante os eventos;, acrescenta Luana.


Para valorizar o esforço dos foliões no recolhimento de lixo produzido, o SLU distribui certificados de limpeza aos blocos de rua que mais se empenham em manter os locais de festas livres de resíduos após o evento. Além disso, durante a festa, a limpeza é feita diariamente. Este ano, a novidade é que os garis estenderão o período de trabalho até meia-noite.

Conscientização
Levar o próprio copo, usar transporte público e reutilizar fantasias. A bióloga Lara Oberdá Carneiro Marques, 26 anos, conta que sempre procura passar a festa de maneira sustentável, e essas são algumas das alternativas que encontrou para isso. ;Além de colaborar com o meio ambiente e com o bolso, também exercita a criatividade, o que é uma das graças do carnaval;, compartilha. Lara afirma que começou a tomar consciência no fim de sua graduação no curso de biologia. ;Discutimos muito em algumas disciplinas sobre os impactos negativos que o ser humano causa no planeta e isso acaba me fazendo repensar algumas atitudes e, principalmente, mudar alguns hábitos;, destaca.

Para a bióloga, aproveitar o carnaval de modo sustentável pode ajudar a criar hábitos que precisam ser levados para o dia a dia. ;De modo geral, acredito que essas pequenas mudanças facilitam a curtição da festa, pois diminui o número de coisas com que me preocupar, como carregar resíduos, procurar copos, segurança do carro, amigo da vez e etc.;, constata.

De acordo com ela, é possível enxergar o cuidado de alguns blocos, mas é preciso haver maior investimento do governo. ;Vemos muitos organizadores incentivando os foliões a levarem seus copos, com campanhas de conscientização sobre onde descartar os resíduos. Mas, sem o apoio para fornecer a infraestrutura adequada, como recolhimento e separação dos resíduos, há um limite para o que possa ser feito;, alerta.

Em resposta, o SLU reforça que tem procurado fazer campanhas de sensibilização. ;Além da limpeza das ruas durante a festa, o SLU também realiza um trabalho de conscientização com os blocos de rua, doando sacos de lixo verdes e azuis ; para destinação dos resíduos recicláveis ; e promovendo ações educativas sobre a importância de descartar o lixo no local certo, separando o que é orgânico e o que é reciclável;, explica o órgão, em nota.

Inovação
Preocupada em causar menos impacto no ambiente, a professora Laís Xavier de Moraes, 20, conta que optou por alternativas sustentáveis para passar o carnaval, após perceber a quantidade de lixo no chão na primeira vez que participou da festa. Uma das escolhas foi a customização de suas fantasias. ;Tento gerar a menor quantidade de lixo possível fazendo minha roupa com materiais e coisas que eu já tenho, usando glitter biodegradável. Além disso, levo de casa meu copo;, relata.

Para a professora, a curtição fica em segundo plano: ;O mais importante é aproveitar o carnaval com a consciência limpa, me responsabilizando pelo lixo que produzo;, completa. ;Minha expectativa para este carnaval é que mais pessoas possam entrar nessa jornada sustentável e curtam de forma ecológica. Ultimamente, as pessoas já têm adotado medidas mais sustentáveis, principalmente com os copos, canudos e sacolas. Espero não ver tanto lixo na rua desta vez durante a folia;, diz.

Sustentabilidade
A engenheira ambiental e de segurança do trabalho Thainy Cristina Silva Bressan aponta que o carnaval pode ser ainda mais sustentável. ;Nós temos um mundo muito mais acessível de informações. Na internet, várias pessoas estão mostrando como podemos usar a criatividade para fazer isso acontecer de forma mais fácil e prática;, assegura.

Segundo Thaiany, uma das iniciativas desenvolvidas é o glitter biodegradável. ;O glitter vendido em papelaria é uma micropartícula de plástico. A purpurina também tem o mesmo procedimento, mas é mais fina (polui do mesmo jeito). Passa o carnaval, e três meses depois ainda encontramos brilho;, lamenta. ;O bioglitter tem essa diferença. Ele não é de plástico. A maior parte do composto é de mica e gelatina, que são ingredientes naturais. É uma forma que as pessoas encontraram de manter a essência do carnaval, de forma que não agrida o nosso sistema de saneamento e o meio ambiente;, completa a engenheira.

Além do glitter, ela faz um alerta quanto ao uso do vidro, material de grande dificuldade de reciclagem no país. ;Aqui em Brasília, temos algumas iniciativas, mas a garantia de que 100% desse material que é descartado no carnaval vá para u

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