Experimentação do material

Experimentação do material

postado em 26/01/2020 00:00
 (foto: Thais Mallon/Divulgação)
(foto: Thais Mallon/Divulgação)

Unidos pela causalidade e, principalmente, pelo uso de materiais que haviam sido descartados, os designers Nina Coimbra e Thiago Lucas fundaram o Estudio Polpa. Nina tem formação em artes plásticas e um curso técnico em restauração e conservação de arte. ;Enquanto restauradora, meu pensamento vai muito a partir da beleza e do respeito à ação do tempo sob as coisas. O tempo conta muita história;, comenta.

Thiago, por sua vez, é bacharel em design pela UnB e realizou um trabalho de mobiliário, com reaproveitamento de madeira, com a cooperativa Sonho de Liberdade, da Estrutural. ;É uma forma de pensar o design de maneira menos destrutiva para o mundo. Sai da parte industrial e entra no aspecto mais artesanal. O material inicial me diz o que precisa ser feito. Ao mesmo tempo que é limitador, por já estar ali, expande o processo criativo. É uma restrição positiva, benéfica, que faz sentido. Aquele material já teve um caminho, uma história. Eu entro dentro desse processo já iniciado e consigo criar nele novos benefícios, não só o destrutivo de gerar mais lixo;, detalha.



Juntos, os dois partem da experimentação do material para a concepção da forma, seja ela traduzida em um móvel, uma cenografia ou qualquer outro formato possível. Algo que encontraram no trabalho dos Irmãos Campana. ;Olhar para eles foi perceber que a gente não precisa se moldar. Os irmãos conseguem se divertir e eu tenho a sensação de que falta isso na indústria. Eles não seguem tendências. São chamados por aquilo que fazem, sabem que vão fazer algo extraordinário, que não tem nada repetido, vão subverter;, afirma Thiago. ;O design contemporâneo brasileiro de mobiliário é muito influenciado por eles e não tem quem traduza melhor o que é brasilidade como eles;, complementa Nina.

Assim como os Campana, o Estudio Polpa enxerga o trabalho como obra de arte, em camadas de significado, cheias de histórias. Uma das últimas ações foi em conjunto com uma cooperativa de catadoras de lixo no Varjão. ;Passamos um semestre inteiro com elas. As catadoras selecionavam o material e a gente dava ideia de outros usos, mostrávamos que poderia ser uma matéria-prima para o design;, lembra Nina. É uma forma que os dois encontraram de traduzir os conceitos e os valores que acreditam: um design moderno, esteticamente bem resolvido, que gera uma economia justa, uma cidade sustentável e com colaboração em projetos sociais.


Identidade brasileira

Se os Irmãos Campana têm uma linguagem local e, ao mesmo tempo, global, a designer Flavia Amadeu ressignificou a borracha colorida vinda da Amazônia, em joia premiada na Europa. Identidade brasileira, impacto social e sustentabilidade são questões que estão intimamente ligadas ao trabalho da brasiliense. Ela desenvolve, com produtores e artesãos do coração da floresta, a matéria-prima para as joias a partir da borracha nativa.

;Logo no início da minha trajetória, percebi que esse era o meu caminho, trabalhar com a questão da sustentabilidade, da questão social, do design brasileiro, do artesanato. E eles (os Campana) estavam bem ali, nesse espaço de um design que tem a identidade nacional, que carrega tudo isso, mas, ao mesmo tempo, tem uma qualidade, um acabamento e um refinamento. Eles colocam aquela expressão popular, os materiais, em um outro patamar e isso é uma característica que sempre busquei;, relembra a designer.

Inspirada em aspectos conceituais e intelectuais dos Irmãos Campana, Flavia desenvolveu, nos segmentos do design de joias e da moda, a brasilidade atrelada à sustentabilidade e ao singular. O trabalho da brasiliense percorreu o mundo e, hoje, é vendido no Masp e em importantes lojas de São Paulo e do Rio de Janeiro.


Entrevista / Humberto Campana

Como definir o trabalho dos Irmãos Campana e o Brasil que ele representa no exterior?
Procuro fazer fotografias do Brasil, valorizar o que é cultura popular, a nossa natureza, as paisagens que a gente tem, paisagens de pessoas, de gestos, de texturas, de cores, da mistura de cores e de raças. Essa é a nossa modernidade. Busco traduzir o Brasil moderno, com orgulho das raízes, não querendo ser quem eu não sou. Quando você fala do seu quintal, você comunica global. Esse Brasil que a Lina Bo Bardi via, que Burle Marx via pelas plantas e trazia espécimes da Amazônia para os jardins. É isso que eu e o Fernando tentamos traduzir.

Como se dá a escolha do material do trabalho de vocês?
Tudo nasce sempre dos materiais, são como personagens procura de um autor. Eles que foram nos indicando e dirigindo a função e a estética. Eles que nos escolhem. Em qualquer lugar que vou, eu fico com o olhar atento a tudo e aí vejo um material, compro, levo para o meu estúdio, para a minha sala e fica um flerte. Demora, às vezes, uma semana, um mês, 10 anos e um dia a ficha cai. Ele fica desafiando, buscando um autor.

O que atrai mais?
Gosto de materiais naturais, tenho um respeito pela natureza, porque você não está criando mais lixo ; isso me incomoda muito ; porque hoje a gente precisa resolver todas essas questões, repensar, recuperar tradições que estão desaparecendo e o Brasil é rico nisso, na tradição manual, tudo me interessa. Acho que esse é o nosso museu. A Amazônia é o nosso Louvre, o Pantanal, os Lençóis Maranhenses, Fernando de Noronha. Tudo tem que permanecer como está, intocado, é a nossa história, não pode mudar. Precisamos inverter os hábitos, construir arquitetura com a natureza, porque acho que o futuro é isso, a natureza a favor da cidade, da arquitetura, do homem e não destruir a natureza.

Por que olhar para as tradições populares, para o interior?
Tenho essa alma caipira, nasci no interior. Acho que eu e o Fernando fazemos a tradução entre o rural e o urbano pela vivência no campo. Eu fazia casas em árvores feitas de bambu.

O trabalho de vocês não tem uma linguagem única, ele é multilinguagem. São vários materiais, vários suportes e plataformas. O que definem primeiro, a ideia e depois o suporte que melhor traduz o conceito? Como funciona?
Não sou intelectual, sou de fazer, sou da mão e de observar. Observo a vida, observo os lugares e faço fotografias. O que me interessa no objeto não é o objeto em si, é o processo de colocar alma no objeto, de colocar vida. Não sei se eu sou designer, artista, gosto de ser livre e não ficar numa caixa. Este século é para fazer pontes e não criar limites. Sou inquieto, procuro sair sempre da minha zona de conforto. Não sou uma pessoa mu

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação