Praças entram na política

Praças entram na política

Categoria que representa 82% da tropa lança movimento para eleger candidatos este ano. Grupo reclama da lei que regulamenta benefícios e promoções. Ministério da Defesa não reconhece associações e considera a mobilização eleitoreira

JORGE VASCONCELLOS
postado em 27/01/2020 00:00
 (foto: Fotos: Arquivo Pessoal
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(foto: Fotos: Arquivo Pessoal )

Um movimento político de militares reservistas e reformados tem causado desconforto ao Ministério da Defesa. Intitulado Praça Vota em Praça ; eu apoio, ele é vinculado às associações que tentaram, sem sucesso, alterar o Projeto de Lei (PL) 1.645/2019, que reestruturou as carreiras nas Forças Armadas e foi sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro em dezembro, convertendo-se na Lei 13.954. O objetivo da mobilização é lançar, em todo o país, candidatos identificados com os interesses da base da hierarquia militar. O primeiro teste será nas eleições municipais deste ano.

Os líderes do movimento, embora tenham participado ativamente da campanha presidencial de Bolsonaro, agora reclamam do tratamento dispensado pelo governo aos cabos, sargentos e suboficiais. Por essa razão, decidiram recrutar pré-candidatos para a defesa dos interesses desse segmento, que representa 82% da tropa. Trata-se de 631 mil pessoas, para um contingente de 770 mil ativos, inativos e pensionistas.

;A aprovação da Lei 13.954 está conseguindo fazer algo com a tropa das Forças Armadas que nem os governos de esquerda conseguiram ao longo dos anos: conseguiu dividir a tropa entre oficiais e graduados, ativos e inativos; ou seja, conseguiu dividir aqueles que formatam a instituição de maior credibilidade junto ao povo brasileiro;, afirma o vereador de Guaratinguetá (SP) Fabrício Dias Júnior (MDB), um dos idealizadores do movimento Praça Vota em Praça. Suboficial reformado, mais conhecido como Fabrício da Aeronáutica, o militar foi um atuante cabo eleitoral de Bolsonaro durante a campanha presidencial. Nas redes sociais, ele ainda exibe uma foto ao lado do atual chefe do governo.

Procurado pelo Correio para comentar o assunto, o Ministério da Defesa demonstrou insatisfação com a articulação política dos reformados e reservistas. ;Ressaltamos que as autointituladas ;Associações de Praças;, como essa associação ;Praça vota em Praça;, não representam os militares. Aliás, a Lei n; 6880/1980 (Estatuto dos Militares) proíbe o uso, por organização civil, de designações que sugiram vinculação às Forças Armadas, exceto no caso de clubes e outras entidades com fins de assistência social;, afirmou, em nota, a pasta militar.

O órgão também frisou que ;o referido grupo, inclusive, tentou atrapalhar a tramitação do PL 1.645 por possuir interesses eleitorais;. Além disso, afirmou que, ;como únicos representantes legais das Forças Armadas e defensores dos interesses de seus oficiais e praças, o Ministério da Defesa e os Comandos da Marinha, Exército e Aeronáutica trabalharam para a aprovação do PL 1.645, até sua conversão na Lei n; 13.954;.

Segundo ainda o Ministério da Defesa, ;o objetivo sempre foi contribuir para o esforço fiscal nacional e para uma reestruturação justa e necessária;. O Projeto de Lei em questão, de autoria do Executivo, além de reestruturar as carreiras militares, reformou o sistema de aposentadorias nas Forças Armadas.

Na Câmara e no Senado, as entidades ligadas aos militares inativos acompanharam de perto a tramitação da proposta e organizaram protestos para pressionar os parlamentares por mudanças. O argumento era de que havia um favorecimento aos oficiais ; ocupantes dos postos que vão de aspirante a general. ;Infelizmente, pelo menos por enquanto, o presidente Bolsonaro está deixando a desejar em relação às expectativas que nutrimos pelo seu governo;, lamenta Fabrício Dias Júnior (MDB).

Uma das críticas das entidades é que a lei sancionada pelo presidente não trouxe compensações financeiras aos militares atingidos, em 2001, pela Medida Provisória 2215, que extinguiu alguns direitos da tropa. Entre eles estão o adicional por tempo de serviço, a pensão para filhas solteiras e a possibilidade de ir para a reserva ocupando um posto acima na hierarquia. Outro alvo de reclamações é o dispositivo da nova lei que prevê a contribuição previdenciária dos pensionistas. ;Na verdade, o PL 1.645 acabou por aumentar a distância de vencimentos entre aqueles que foram para a inatividade entre 2001 e 2019 e aqueles que irão para a inatividade a partir de 2020;, observou o vereador.



Cursos de formação

Mas a principal crítica está relacionada ao Adicional de Habilitação, que havia sido reestruturado, anteriormente, em 2001. Incorporado ao soldo, ele tem o objetivo de beneficiar os militares com mais cursos na carreira. As associações reclamam que, durante muitos anos, apenas os oficiais tiveram acesso aos cursos que preveem as maiores gratificações. No Exército, essa exclusividade durou até 2013, quando o comando da Força decidiu elevar o status do Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais (CHQAO), reservado aos praças. Com a medida, ele foi equiparado aos chamados Altos Estudos. O mais cobiçado, o de nível I, com base na nova lei, terá o percentual incidente no soldo aumentado gradativamente, até 2023, dos atuais 30% para 73%. Na Marinha e na Aeronáutica, apenas em setembro do ano passado, os respectivos comandos permitiram o acesso dos membros da base da hierarquia aos cursos de Altos Estudos. Consultado pelo Correio, o Ministério da Defesa confirmou essas informações. Segundo a pasta, como os Altos Estudos são voltados a militares envolvidos em atividades como coordenação, gestão e planejamento, apenas os oficiais foram matriculados ao longo de todos esses anos. Segundo o órgão, em razão do avanço tecnológico e de outras transformações, mais recentemente passou a ser necessária também a participação dos praças nesses cursos.

Outro idealizador do Praça Vota em Praça, o suboficial da reserva da Aeronáutica, Márcio Garcia, explica que o movimento político surgiu após a constatação da necessidade da criação de um cadastro, em nível nacional, de todos os militares que ocupam ou que desejam ocupar cargos políticos. ;Essa necessidade foi identificada durante as discussões do PL 1.645 dentro do Congresso Nacional, quando vimos que não temos nenhuma representatividade naquele local, fato que comprometeu o alcance dos nossos objetivos;, disse o militar.

;Poderíamos ter modificado o PL 1.645 no Congresso de forma que não atrapalhasse os trâmites e os prazos para promulgação. Com a experiência e vivência dos nossos praças, na maioria oriundos de famílias simples, teríamos muito a contribuir com a sociedade civil, bem como com a estrutura política nacional;, acrescentou.

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