Somos todos Cleomar

Somos todos Cleomar

Taís Braga taisbraga.df@dabr.com.br
postado em 27/01/2020 00:00
É de uma crueldade revoltante o episódio ocorrido em Porto Velho (RO), com uma senhora que teve amputadas as duas mãos e as duas pernas e, por três vezes, lhe foi negado o benefício do INSS. O motivo da primeira negativa? Ela não conseguiu assinar os documentos. Nem é preciso saber os outros dois argumentos usados pela burocracia desumana que, além de negar um direito, obriga a ex-sinaleira Cleomar Marques a expor publicamente a sua deficiência, numa situação humilhante pela qual nenhum de nós deveria passar.

A situação torna-se ainda mais perversa quando sabemos que a servidora do órgão público que recebeu o pedido de Cleomar questionou se ela poderia assinar a papelada, quando a resposta estava à sua frente. E sequer tomou qualquer iniciativa para resolver o problema. Com que tipo de servidores estamos lidando no dia a dia do serviço público? Que pessoas conseguem ser tão impiedosas, para não dizer incompetentes, que ignoram a solidariedade humana, a empatia e, principalmente, os deveres da função?

O INSS divulgou, em dezembro passado, que foi feito um pente-fino nos benefícios com indícios de irregularidades ou fraudes em 2019, resultando na suspensão ou no encerramento de 261 mil, até agora. O tipo de fraude mais comum, identificada pelos investigadores, é o recebimento indevido por servidores públicos estaduais e municipais, assim como o pagamento a pessoas falecidas. Ora, ora... O que nos leva mais uma vez ao questionamento: que tipo de servidores estão autorizados a lidar com a nossa assistência?

É evidente que não podemos sequer imaginar que aquela servidora responsável pelo caso da Cleomar seja uma das que contribuem com as irregularidades. Mas é certo que ela engrossa o time dos servidores que atuam para que o serviço público seja tão desacreditado quanto injusto. Ao fim e ao cabo, no caso da ex-sinaleira, produziu um mal tão grande quanto os inúmeros crimes cometidos e identificados pelo órgão.

Infelizmente, Cleomar não foi a única, nem a primeira e não será a última pessoa a passar por isso. Diariamente, ouvimos e assistimos a narrativas semelhantes, em que idosos, acamados, brasileiros extremamente doentes são obrigados a se deslocarem até postos de perícia para comprovarem a necessidade do benefício, enquanto burocratas, como aquela servidora, descartam papéis que representam a vida de milhares de cidadãos, pela falta de um carimbo ou de uma assinatura que claramente não pode ser firmada.

Numa sociedade conhecida mundialmente como acolhedora, alegre e solidária, como é a brasileira, o comportamento de funcionários, como o da porto-velhense, é tão desprezível quanto entristecedor. Nós, que contribuímos com o sistema previdenciário na esperança de um mínimo conforto quando a vida nos exigir a saída do mercado de trabalho, queremos respeito. Queremos o que faltou à Cleomar, que pediu nada mais do que lhe é devido. E um pedido de desculpas do fundo do coração.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação