Ensinar a escrever

Ensinar a escrever

Oficinas literárias com Marcelino Freire e Luiz Antônio Assis Brasil oferecem caminhos para desenvolver técnicas para produzir ficção

Nahima Maciel
postado em 18/03/2020 00:00
 (foto: Joana França/Divulgação)
(foto: Joana França/Divulgação)


Marcelino Freire gosta de dizer que faz suas oficinas de criação literária para encontrar parceiros de bar. É uma brincadeira para relaxar e para mostrar que a produção literária não é um mistério. Às vezes, garante Marcelino, levar para o bar o sujeito acometido de bloqueio criativo funciona. Ajuda até a espantar clichês porque, relaxado, o suposto autor deixa aflorar a própria voz e larga de mão um padrão de escrita imposto pelo mercado. E assim, Marcelino vai levando pela mão os aspirantes a escritor com a oficina Soltando a língua, realizada desde 2003 e que, agora, chega ao Distrito Federal.

Autor de oito livros, entre eles Nossos ossos, premiado com o Machado de Assis, e Contos negreiros, vencedor do Jabuti em 2006, Marcelino encara as oficinas como um espaço de criação, mas também de aprendizado. ;Geralmente, em todos os lugares que vou formo mais leitores que escritores, porque tem muita gente que quer escrever e não quer ler, muita gente que quer publicar, mas não quer escrever;, explica o escritor. A primeira providência do professor é realizar um sorteio com papeizinhos preenchidos com nomes de escritores brasileiros e latino-americanos.

Os participantes têm a missão inicial de pesquisar sobre esses autores para ampliar o universo, porque uma das constatações de Marcelino é que, muitas vezes, o sujeito quer ser escritor ou poeta mas não lê literatura nem poesia. ;Escrever não é só colocar a palavra no papel, mas saber dos seus parceiros e parceiras, pessoas que se lascaram muito pra fazer o que eles estão querendo fazer. Então, logo de cara tem essa ideia de leitura e de encontrar nossas famílias literárias;, avisa o autor.

Entre os problemas comuns com os quais tem que lidar, o professor cita o bloqueio criativo. ;Existe um culto ao bloqueio, à ideia de ;estou sem inspiração, e tal;. Aí, vou dizer como faz para o seu personagem tomar cerveja com você, como dar um banho no seu personagem;, conta. ;Tem muita coisa a fazer para que o personagem continue vivendo. Faço uma grande conversa, não tou ditando regra pra ninguém. Até posso cagar regra, mas dou a descarga. É uma grande conversa a partir dos dilemas.;

Entre os que participam, Marcelino identifica uma turma variada. Pela Soltando a língua passaram nomes como Sheyla Smanioto, vencedora do Prêmio Sesc de Literatura com Desesterro, e Aline Bei, ganhadora do Prêmio São Paulo de Literatura com O peso do pássaro morto, mas também amantes da literatura que acreditam poder enriquecer a compreensão das narrativas ao assistir às aulas. ;Tem ouvinte que vai porque é um ótimo leitor. Ninguém é obrigado a entregar resultado, a oficina não é custo-benefício. Vai lá para o que quiser. Tem cantores e compositores que fazem minha oficina, que só escrevem letra de música e que querem ampliar seu repertório. Tem a pessoa que vai lá fazer tricô. É só chegar. No mínimo, a gente encontra amigos e amigas porque a vida está muito difícil e, se a gente não se juntar, não dá;, diz Marcelino.


Pioneirismo

O nome do escritor e professor Luiz Antonio Assis Brasil há muito ocupa lugar de destaque quando se trata de aulas de escrita criativa. Ele introduziu a disciplina no programa de pós-graduação em Letras da PUC de Porto Alegre em 1985 e, por suas aulas, passaram alguns dos mais importantes nomes da literatura contemporânea, gente como Carol Bensimon e Daniel Galera. Agora, Assis Brasil embarca em um projeto on-line de oficinas coordenado pelo escritor e professor Jéferson Assunção e em parceria com a TAG Livros.

Na Quadro Amarelo ; Plataforma de Escrita Criativa, o aluno terá acesso a 40 horas de aulas divididas em níveis básico, intermediário e avançado. Assis Brasil participa deste último como professor e integra a equipe da plataforma como supervisor. ;Nesses 35 anos, o Assis Brasil gerou todo esse ambiente de escrita criativa em Porto Alegre e o que fizemos foi colocar isso na rede de maneira organizada. A ideia é que tenhamos outras temporadas e cada temporada com dois autores, professores e escritores, aumentando a diversidade. O projeto é isso: uma plataforma de escrita criativa em que o estudante pode montar seu próprio curso;, explica Jéferson.

Cada temporada terá professores convidados com autores conhecidos do meio literário, mas Jéferson ainda não revela os nomes. Intitulado Escrita para pessoas criativas, o primeiro curso vai tratar do fundamento da escrita criativa, da origem da narrativa, dos vários tipos de estruturas e do personagem de ficção, este último uma especialidade de Assis Brasil.;A personagem é tudo num romance;, avisa Assis. ;Nem tanto no conto contemporâneo, em que mais importa o fato do que a personagem.Mas quanto ao romance, é a personagem que o ;provoca; e, num segundo plano, dá um sentido a ele.;

Em entrevista, o professor, que também é autor de 21 livros, entre eles Escrever ficção, e ganhador do Prêmio Portugal Telecom com o romance A margem imóvel do rio (2004), conta sobre como idealizou as aulas e sobre os desafios envolvidos na prática de ensinar autores a escrever.




Soltando a Língua ; Oficina de Escrita Literária
Com Marcelino Freire, dias 26, 27 e 28 de março e 2, 3 e 4 de abril, quinta e sexta, das 19h30 às 22h30, e sábado, das 9h30 às 12h30, no Comoequetalá (CLN 407 Bloco B loja 17). Vagas limitadas. Investimento: R$ 1.300,00 (até 15/03), e R$ 1.450,00 (até 25/03, quando encerram as inscrições). Informações e inscrições: 61 9.8127.8667 ou carvalhedoproducoes@gmail.com / Para assinar a Quadro Amarelo, acesse www.quadroamarelo.com.br. Contatos: contato@quadroamarelo.com.br


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