As apostas da ciência para deter o coronavírus

As apostas da ciência para deter o coronavírus

Pesquisadores dedicam-se a três grupos de abordagens contra o Sars-Cov-2: criação de vacinas, uso de medicamentos já prescritos para outras doenças e desenvolvimento de substâncias a partir de anticorpos de quem se curou da Covid-19

Vilhena Soares
postado em 29/03/2020 00:00
 (foto: Thibault Savary/AFP)
(foto: Thibault Savary/AFP)

Desenvolver medicamentos é uma tarefa difícil. A realização de testes em laboratório com células in vitro, animais, e, só depois, humanos faz com que esse processo seja também bastante demorado. Diante do avanço da Covid-19, porém, o tempo se tornou ainda mais valioso. Na tentativa de encurtá-lo ou usá-lo da melhor forma possível, cientistas têm unido esforços em três frentes principais de investigação: uso de remédios já prescritos para outras doenças, análise de anticorpos presentes no sangue de infectados e criação de vacinas (veja infográfico). Especialistas ressaltam que a urgência exige um trabalho mais rápido, mas destacam que todo o cuidado é necessário para que as abordagens propostas não atrapalhem ainda mais o combate à pandemia.


Um dos projetos em andamento aposta no uso combinado de duas drogas anti-HIV: lopinavir e ritonavir. Esse coquetel foi testado na China, mas com resultados que podem ter sido mitigados porque muitos pacientes ;foram incluídos tardiamente no experimento, até mesmo depois do 10; dia da infecção;, segundo Bruno Lina, professor de virologia no Hospital Civils de Lyon, na França.


Bruno Lina e outros cientistas fazem parte da pesquisa Discovery, que busca drogas para combater o Sars-Cov-2. O projeto, fruto de parceria com outros investigadores europeus, tem resultados positivos no uso das duas drogas contra o novo coronavírus. ;Trata-se da ;reciclagem; de um medicamento contra o HIV para bloquear a reprodução do vírus. Percebemos que, no tubo de ensaio, ela funciona;, conta o pesquisador francês.


O Discovery está, agora, na fase de testes clínicos e pretende contar com 3,2 mil voluntários de vários países do continente ; Alemanha, Bélgica, Espanha, França, Holanda, Luxemburgo e Reino Unido. Além das drogas de combate ao HIV, os cientistas testarão o efeito do remdesivir, um antiviral usado para combater o ebola, e da cloroquina, indicada para o tratamento da malária. O segundo medicamento mostrou-se promissor contra a Covid-19 em outros estudos científicos e tem causado polêmica devido à liberação de uso, pelo governo brasileiro, para pessoas em estado grave.


A primeira etapa de testes clínicos de Discovery teve início, semana passada, na França, onde os quatro medicamentos serão aplicados em 800 pacientes. ;O tratamento começou rapidamente para essas pessoas, uma vez que os prazos parecem ser um fator importante nessa doença;, frisa Florence Ader, infectologista no Hospital Civils de Lyon e uma das líderes da pesquisa.


Segundo a cientista, no momento em que uma substância apresentar ;superioridade no tratamento;, será possível propor o seu uso aos órgãos reguladores. ;O tratamento poderá, então, ser liberado muito rapidamente, levando em conta que estamos em situação de carência terapêutica;, complementa. Mas Florence Ader pede cautela, já que ;ainda não se conhecem os efeitos desses tratamentos;.

Cautela

Natália Pasternak, bióloga e criadora do Instituto Questão de Ciência, em São Paulo, explica por que a busca por medicamentos prescritos para outras enfermidades reduz bastante o tempo gasto no desenvolvimento de um tratamento para a Covid-19. ;Por estarem no mercado, essas moléculas já passaram por um teste de segurança e toxicidade. Isso faz com que consigamos queimar etapas, algo extremamente valioso na situação atual, em que temos urgência;, diz.


Pasternak também ressalta que a economia de tempo é um fator importante no momento, mas que pode gerar danos. Por isso, a importância no cuidado com os resultados dos trabalhos em condução, como no caso da cloroquina. ;O estudo feito com essa droga que mais tomou proporções foi feito por franceses e teve alguns erros. Os pesquisadores ignoraram os pacientes que não responderam bem ao uso do medicamento, inclusive um deles desistiu de continuar devido aos efeitos adversos;, detalha a especialista.


A bióloga destaca que a prudência pode evitar problemas graves. ;Isso é muito importante de ser considerado, pois a maioria dos casos dessa doença se resolve com o tratamento dos sintomas e suporte respiratório. Ao usar uma droga dessas, você pode gerar efeitos adversos e piorar a situação do paciente;, completa.


Alexandre Cunha, infectologista e presidente da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal (DF), também enfatiza que os medicamentos em teste precisam passar pela validação em todas as etapas padrão antes de serem prescritos. ;Esse ;todo mundo está usando; é muito fruto da nossa necessidade, como médicos, de sentir que precisamos fazer algo. Nós, que estamos acostumados a sempre intervir, estamos diante de uma situação em que só observamos, e isso nos causa muito desconforto. Mas, às vezes, ;não fazer nada; já é fazer muito;, opina. ;A nossa necessidade de achar que temos que dar remédio mesmo sem comprovação pode fazer com que pessoas usem, sem poder, cloroquina, imunoglobulina, além de antibióticos e tudo mais;, alerta.


O médico lembra que os estudos com plasma, que tem sido testado nos Estados Unidos, também apresentam riscos. A estratégia consiste em usar anticorpos produzidos por pessoas que foram infectadas pelo Sars-Cov-2 e se recuperaram da doença. ;Na década de 1980, achavam que essa alternativa era segura, mas não se sabia que problemas como a hepatite C e o HIV poderiam ser transmitidos pelo sangue, e muitas complicações ocorreram. Neste caso, também não temos certeza, e podemos nos deparar com outras dificuldades devido a essas dúvidas;, frisa.

Os desafios da imunização

Enquanto muitos cientistas buscam medicamentos para tratar a Covid-19, outra parte de especialistas enfrenta um desafio ainda maior e mais demorado: a criação de vacinas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), no fim do mês passado, mais de 20 vacinas para combater a pandemia estavam em desenvolvimento, em iniciativas de faculdades, centros de pesquisa e empresas farmacêuticas.
Uma das mais avançadas é norte-americana. No último dia 17, cientistas do Instituto Nacional de Saúde (NIH, na sigla em inglês) anunciaram o início da primeira fase de estudos clínicos com uma fórmula protetiva. O trabalho envolve 45 voluntários com idade entre 18 e 55 anos. ;Os cientistas estavam trabalhando em uma investigação de uma vacina contra a Mers (síndrome respiratória do Oriente Médio), o que trouxe uma vantagem no desenvolvimento da vacina contra a Covid-19;, destaca a equipe, em comunicado. A imunização mostrou-se eficiente em animais e precisa passar por outras duas fases de exames clínicos.
Brasileiros também enfrentam esse desafio. Pesquisadores do Instituto do Coração (InCor), em São Paulo, usam a mesma tecnologia dos americanos: uma plataforma tecnológica

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