Mães coragem da arte

Mães coragem da arte

Conheça história de profissionais que transformaram o fazer artístico a partir da maternidade

» Adriana Izel » Geovana Melo* » Lucas Batista* » Lisa Veit*
postado em 10/05/2020 00:00
 (foto: Diego Bresani/Divulgação)
(foto: Diego Bresani/Divulgação)
Toda mulher que se tornou mãe costuma destacar o impacto que a chegada da maternidade tem. Não são só os momentos de afeto com a cria. Nem apenas as noites maldormidas, as trocas de fraldas e os brinquedos pelo chão da casa. A chegada de um filho muda tudo, inclusive no âmbito profissional. No Dia das Mães, o Correio conversou com diferentes mulheres artistas para entender a influência da maternidade em meio à luta do fazer artístico. Um viva a essas e a toda as outras mães!



Eliana Carneiro

1 - A maternidade mudou completamente a trajetória da atriz e dançarina Eliana Carneiro. Foi a percepção de que a filha Naira, hoje com 31 anos, na infância queria fazer parte de espetáculo em que a mãe estava trabalhando que a fez criar a Cia Os Buriti e migrar o trabalho artístico para um lado educacional e infantil. ;Esse encantamento foi realmente norteando nosso trabalho, nossa troca. Justamente por ser minha filha ,eu tinha um cuidado e um carinho especiais de não moldá-la a partir do que sou. A intenção não era ser uma outra Elianinha, mas que ela fosse fortalecida na sua individualidade;, conta. Há 25 anos, mãe e filha estão juntas nos palcos e nas montagens da companhia, unindo a familiaridade sanguínea e a aproximação artística.

Quando nasceu o segundo filho de Eliana, Guian, hoje com 20 anos, a atriz, novamente, viu o fazer artístico se transformar. Da mesma forma que Naira, o pequeno se aproximou das artes cênicas, mas com o viés para palhaçaria. Foi a partir daí que Eliana estudou o gênero e o incluiu nos trabalhos da cia. ;Quando o Guian nasceu, foi o mesmo processo. Por causa dele, comecei a trabalhar a palhaçaria. Foram processos de muito crescimento e de diversão;, lembra.

Para ela, a maternidade foi fundamental na trajetória artística galgada ao lado dos filhos. ;Como diretora do grupo, fui me adaptando ao que eles queriam, e eles foram me inspirando a fazer coisas diferentes. A gente aprofunda nossa relação enquanto artistas e familiares, transferindo esse afeto que nos norteia e nos une nos trabalhos;, define Eliana. ;A nossa história é bem-sucedida, porque a gente tem uma relação muito respeitosa, em que conseguimos criar muito bem juntos;, emenda Naira Carneiro.



Martinha do Coco

2 - Mãe de quatro filhos, Martinha incluiu a família nas rodas de samba de coco, maracatu e cirandas. A filha mais velha, Érika Leonardo, foi dançarina da banda de Martinha. A segunda, Jéssica Leonardo, participou de rodas, mas preferiu seguir carreira administrativa. O caçula Michael Leonardo passou pela roda tocando caixa na percussão. Heitor Leonardo, terceiro filho da artista, é o único remanescente na banda, em que é o pandeirista. ;Esse é grande charme da cultura popular, a criança pode ter acabado de nascer, que já damos um chocalho para ela participar das rodas;, diz.

Guerreira, Martinha do Coco fez de tudo um pouco: trabalhou como faxineira, copeira, babá, mas, sobretudo, sempre foi artista. Moradora do Distrito Federal desde 1979, Martinha conheceu realmente a cultura da capital trabalhando como gari. ;Eu trabalhava em uma equipe que rodava todas as regiões administrativas, então foi assim que conheci Brasília, em meio a limpezas, nos intervalos do trabalho, junto aos estudos e filhos para cuidar. Brinco que Martinha do Coco descobriu a cultura do DF varrendo.;

Na cultura popular, Martinha encontrou abrigo. As rodas de maracatu do Paranoá, cidade onde vive há mais de 30 anos, estimularam a artista, que lançou trabalhos autorais sempre tendo como inspiração as origens em Pernambuco e os ensinamentos da mãe, Josefa Leonardo. ;O que minha mãe me passou em todos esses anos, o que ela me ensinou quando viemos para Brasília, sempre me inspirou e mostro isso nas minhas músicas;, conta a artista.



Clarice Gonçalves

3 - A artista plástica brasiliense Clarice Gonçalves atua no mundo das artes com o feminino sempre presente nos trabalhos. Mãe de Hector, 6 anos, ela incorpora a questão artística visual à família. ;Estive presente com minha mãe dando suporte quando ela trouxe minha irmãzinha ao mundo, por vezes me sentia pai, ;irmãe;, responsável por este serzinho. Por ler sobre o feminino por meio de diversas fontes e vieses, parte de mim se achava bem preparada para a maternidade. Mas o gestar, parir, lactar me trouxeram para a realidade de que somos animais, mamíferos, me dei conta dessa corporeidade instintiva e visceral que tenho integrado cada vez mais até hoje e que cada vez mais é traduzida para a minha pintura;, explica.

Mesmo antes da gravidez, a maternidade estava presente nas obras de Clarice. Durante a formação acadêmica, ela investia na temática para as produções e para pesquisas. ;Venho de três gerações de mães solteiras, isso me impulsionou a tentar entender de todas as formas possíveis a complexidade de se nascer com um útero nessa sociedade;, conta a artista.

Com isso, a pintora percebe que há uma cobrança equivocada acerca do ser mãe e é necessário desconstruir esta visão romantizada e idealizada da maternidade. ;Se acredita que a mãe tem que dar conta de tudo, e por algum tempo, até nós, mães, acreditamos e perpetuamos isso, até que eventualmente entramos em colapso;, pontua. ;Hector é fonte constante de aprendizado, crescimento e transformação para mim. A cada dia, quero ser uma pessoa melhor para ele e para a sociedade;, declara Clarice.



Lucélia Freire

4 - A atriz, diretora e proprietária da No Ato Produções, Lucélia Freire divide o tempo disponível entre apresentações teatrais, o trabalho como professora no curso de iniciação teatral e a responsabilidade de cuidar do filho, Davi. O menino de 6 anos é fonte de inspiração para a atriz. ;A maternidade me inspira em vários trabalhos. Meu filho foi diagnosticado com autismo leve. Antes de ser mãe, eu trabalhava com ensino especial, mas depois do diagnóstico do Davi, a vontade de voltar para sala no ensino especial foi muito maior. A maternidade me inspirou no trabalho artístico, como na peça Copo de leite, que fala bastante da minha maternidade, e ela me inspira o tempo inteiro quanto mulher e quanto fortaleza, que acho que cada mãe é uma fortaleza;, revela Lucélia. ;Davi me ensina todo dia, sempre. Ele é uma universidade ambulante;, completa.

Depois da gravidez de Davi, Lucélia teve uma nova percepção sobre a própria mãe. ;Entendi muitos lugares da minha mãe que antes não entendia, esses lugares do qual ela se privou p

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