Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 10/05/2020 00:00
A pandemia de rinocerontite

A peça O rinoceronte, de Ionesco, escrita em 1960, remontada sob a direção de Hugo Rodas, no ano passado, não poderia ser mais atual. Para quem não conhece, ela narra a situação de progressivo pesadelo de uma cidade assolada pela metamorfose dos humanos em rinocerontes. A peça discute o efeito manada, a tendência ao fenômeno maria vai com as outras, a indiferença, a alienação, a cultura do ódio, a massificação, a manipulação e os falsos mitos.

O absurdo passa a reger a vida das pessoas. Esse surto de rinocerontite é uma doença mais perigosa do que o coronavírus, pois provoca a transmutação dos seres humanos em paquidermes selvagens. Com a internet, a rinocerontite tornou-se ainda mais contagiosa.

E o mais trágico é que alguns tomam gosto em ser maria vai com as outras. A fala final do protagonista Bérenger é solitária, mas tem uma carga poética explosiva de heroísmo trágico. Só ele resiste: ;Eu me defenderei contra todo mundo! Sou o último homem, hei de sê-lo, até o fim! Não me rendo!”

Conhecia o texto de Ionesco e assisti a várias montagens da peça. Mas, dessa vez, o impacto foi maior ao ver a montagem dirigida por Hugo Rodas, com a Agrupação Teatral Amacaca. E isso talvez pela proximidade com a rinocerontite que assola o país. Por isso, resolvi reler O teatro do absurdo, de Martin Esslin (Ed. Zahar). Lá, encontrei um precioso depoimento de Ionesco sobre O rinoceronte.

Ele diz que, ao escrever O rinoceronte, voltou às suas obsessões pessoais: ;Lembrei-me de que, no curso de minha vida, tenho ficado muito impressionado pelo que podemos chamar de correntes de opinião, sua rápida evolução, seu poder de contágio, que é o mesmo de uma epidemia de verdade. Repentinamente, as pessoas se deixam invadir por uma nova religião, uma nova doutrina, um novo fanatismo... Em tais momentos testemunhamos uma verdadeira mutação mental;.

Ionesco observa que, quando as pessoas não compartilham mais as nossas opiniões, quando não conseguimos mais nos fazer compreender por elas, temos a impressão de que estamos vendo monstros ; rinocerontes, por exemplo: ;Ficam com essa mesma mistura de candura e ferocidade, e se tornam capazes de nos matar com a consciência tranquila. E a história demonstrou que, no último quarto de século, as pessoas assim transformadas não só parecem rinocerontes, mas realmente transformam-se em rinocerontes;. E, quando Ionesco escreveu essas palavras, ainda não havia redes sociais. Só a arte pode nos salvar da rinocerontite.

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