A transformação do vestir

A transformação do vestir

Qual será o futuro da moda? Muito se fala sobre o novo normal, embora pouco se saiba como será. No mundo fashion, as mudanças começam a ser sentidas

Manuela Ferraz*
postado em 24/05/2020 00:00
 (foto: Cinthia Carvalho/Divulgação)
(foto: Cinthia Carvalho/Divulgação)


As mudanças de comportamento que a pandemia do novo coronavírus e o isolamento social trouxeram à realidade é pauta em todos os setores. As transformações das relações que desenvolvemos com o outro, com nosso lar, com os objetos e com o mundo parecem deixar marcas e causar alterações permanentes no novo cenário. Quando falamos em moda, isso não seria diferente.

Um dos grandes impactos que o mercado sofreu é apontado pela advogada, professora e coordenadora da pós-graduação em direito da moda, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Renata Soares: ;Segundo dados do Infomoney do final de março, a indústria têxtil teve uma queda de 91%. Isso se deve ao fechamento do comércio de serviços não essenciais e à crise econômica causada pelo desemprego e pela paralisação da atividade de produção;.

Diante dessa nova realidade e dos sentimentos de insegurança que atingem a muitos, os clientes mudaram a forma de consumir. As compras passaram a ser feitas, majoritariamente, pelas plataformas on-line e a busca por produtos de maior necessidade, como alimentos e medicamentos, também aumentou na internet. ;Houve, então, a consolidação gradual do comércio eletrônico para esse setor e no setor da moda;, explica a professora.

Nota-se, também, uma tendência de procura por itens para usar em casa, que atendam às novas necessidades do home office, e pelas máscaras de tecidos, que passaram a ser confeccionadas ; e que têm sido a principal fonte de renda de muitos produtores locais nesse momento.

Segundo Renata, a forma de produzir moda mudou e ainda deve passar por transformações profundas após a pandemia. Ela destaca como necessária a valorização do mercado interno, ou seja: ;produzir suprimentos para a cadeia de moda no próprio país, ou, pelo menos, a preocupação com a produção em blocos econômicos ; América Latina, Europa, Estados Unidos e China;.

Somado a isso, o entendimento de que as roupas devem cumprir um propósito maior no armário parece traçar um novo caminho na indústria. ;Concordo com Giorgio Armani, que recentemente propôs, em carta escrita à Women;s Wear Daily, a diminuição do ritmo como a única saída para a indústria da moda. Para ele, não cabe ao segmento do luxo seguir os caminhos do fast fashion, com o intuito de vender sempre mais, e, sim, voltar-se à produção de moda atemporal;, esclarece ela.

Será, cada vez mais, exigido dos influenciadores um comportamento condizente com a nova realidade e pautado na ética, transparência, solidariedade, preocupação com a saúde pública e bem-estar coletivo.

O estímulo à inovação e desenvolvimento de tecnologias anti-bactericida para as peças e uso da impressão 3D, que já permite a produção de máscaras de proteção, são apostas de Renata, assim como a redução no número de coleções do ano, preocupação crescente com a sustentabilidade e a possibilidade de showrooms virtuais para evitar um grande número de viagens internacionais.

Sobre a reabertura do comércio, a advogada compartilha fenômenos curiosos que ocorreram em outros países. ;Na cidade de Guangzhou, na China, houve um aumento das vendas no mercado de luxo em lojas de rua no primeiro dia de reabertura. Trata-se de um fenômeno do mundo pós-coronavírus chamado de revenge spending, ou, consumir por vingança. Talvez, o desejo criou um efeito oposto do esperado ; a procura por consumir. No entanto, com o voltar da vida ao normal, o consumo excessivo deve regredir e as pessoas devem comprar de forma mais consciente e condizente com a nova realidade de dificuldades de emprego, econômica, e preocupação com a saúde pública;.

* Estagiária sob supervisão de Taís Braga



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