Para opositores, a Polícia Federal deve explicações

Para opositores, a Polícia Federal deve explicações

Jorge Vasconcellos
postado em 27/05/2020 00:00


As suspeitas de que a deputada Carla Zambelli (PSL-SP) foi informada previamente da operação de busca e apreensão da Polícia Federal, em endereços relacionados ao governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), realizada ontem, agitaram o Congresso.

Um dos mais veementes foi o líder do PSB na Câmara, Alessandro Molon (RJ). Para ele, a ação confirma que o presidente Jair Bolsonaro passou a interferir politicamente na instituição.

;Sinal de que as interferências de Bolsonaro já são realidade. As investigações da Polícia Federal têm que acontecer, doa a quem doer. O que não é admissível é o vazamento das operações para quem quer que seja, bolsonaristas ou não;, cobrou.
O deputado Márcio Jerry (PCdoB-MA), vice-líder do partido na Câmara, disse que Carla se tornou ;porta-voz informal; das operações da PF. Ele afirmou que tanto a parlamentar quanto a corporação devem explicações. ;O Brasil conheceu ontem e teve confirmação hoje de uma nova ;função;: a de porta-voz informal de operação da PF. Deputada e Polícia Federal devem explicações sobre tamanha capacidade de ;adivinhação;;, provocou Jerry.

Representante do PSol, o deputado Marcelo Freixo (RJ) anunciou que pedirá providências, na Câmara, sobre o possível vazamento de informações da PF para Carla. ;Agora vamos incluir no processo o vazamento de informações privilegiadas da operação da PF no Rio de Janeiro. A parlamentar antecipou ontem que haveria ações contra os governadores. Como sabia disso?;, questionou.

Para o líder da oposição na Câmara, André Figueiredo (PDT-CE), a deputada confirmou a instrumentalização dos órgãos de controle e investigação do país. ;As ingerências na PF começam a ficar claras;, declarou.

Em várias entrevistas ao longo do dia, deputados bolsonaristas como Carlos Jordy (PSL-RJ) e Major Vitor Hugo (PSL-GO), líder do governo na Câmara, saíram em defesa da colega de bancada, afirmando que as informações que ela deu na entrevista à rádio de Porto Alegre já eram sabidas há dias. Negaram ainda que a PF sofra a ingerência política que levou Sergio Moro a se demitir do Ministério da Justiça ;; apesar dos apelos da própria deputada para que desistisse da ideia.

Acusações
A Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef) afirmou, em nota, que ;é conhecido e notório o vínculo; da deputada com a Associação de Delegados, ;desde quando era líder do movimento Nas Ruas;. Lembrou que o laço entre a parlamentar e os delegados ;se demonstra pela participação de Zambelli em eventos, vídeos e homenagens;. ;A Fenapef defende a apuração, com responsabilidade e profundidade, sobre a possibilidade de que esse vínculo possa ter sido utilizado para a obtenção de alguma informação privilegiada;, acentuou.

Em resposta à Fenapf, a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) repudiou a nota emitida classificando-a de ;irresponsável;. ;No momento em que a Polícia Federal é colocada involuntariamente no centro do debate político, nada mais danoso para o órgão do que a utilização desse ambiente para se criar instabilidades por rixas classistas que nada colaboram com a defesa da instituição;, rebateu.

A Associação afirmou que não tem acesso a informações referentes a qualquer investigação em andamento e disse que vai tomar medidas judiciais cabíveis contra os dirigentes da Federação para que ;provem as insinuações que fizeram ou respondam pelas leviandades;.

Reações
;A Fenapef defende a apuração, com responsabilidade e profundidade, sobre a possibilidade de que esse vínculo possa ter sido utilizado para a obtenção de alguma informação privilegiada;
Trecho da nota da Federação Nacional dos Policias Federais

;A ADPF atua na defesa da Polícia Federal e sempre condenou, de forma intransigente, qualquer tipo de vazamento de informações sigilosas, por quem quer que seja. Os responsáveis por revelação de qualquer segredo profissional, devem ser processados e demitidos, sem prejuízo das sanções cíveis e penais cabíveis;
Trecho na nota da Associação dos Delegados da Polícia Federal

;A Polícia Federal é um órgão de Estado. Suas ações são autorizadas e controladas pelo Poder Judiciário, com participação do Ministério Público Federal. Canalhice sem tamanho tentar atribuir qualquer viés político nas ações de hoje no RJ, desmerecendo a ação dessas instituições;
Major Vitor Hugo, líder do governo na Câmara, no Twitter

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