Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

Humberto Rezende humbertorezende.df@dabr.com.br
postado em 30/05/2020 00:00
Notícias de 2025

Viajei no tempo, cara leitora, caro leitor. É sério. A AEB, que é a Agência Espacial Brasileira, convidou o Correio para enviar um jornalista em uma cápsula do tempo e testar a novíssima tecnologia, mantida sob segredo até agora. O jornal me escolheu e eu me senti superprestigiado. Quando descobri que havia 98% de chances de eu morrer, passei a ver de outra forma, mas achei que o risco valia a pena.

Disse ;sim; e assinei o contrato. "Me mandem para 9 de outubro de 1984", determinei. Voltaria para a final do campeonato de futebol de salão da 5; série, quando tive de substituir nosso goleiro, que havia quebrado o braço na véspera. Meu plano era impedir que eu mesmo tomasse aquele frango por baixo das pernas logo no primeiro minuto de jogo, um vexame do qual nunca me recuperei. "Você não leu o contrato, leu?", me perguntou um senhor sisudo que representava a AEB. "Por enquanto, só conseguimos mandar as pessoas para exatamente cinco anos no futuro e trazê-la de volta 15 minutos depois", explicou.

Fiquei decepcionado. Pensei em desistir, mas, movido por algum espírito aventureiro que desconhecia em mim mesmo, segui em frente. Domingo passado, estava eu dentro da cápsula, de madrugada, numa viela escura do Setor Comercial Sul. Apertei o botão que os cientistas me orientaram a apertar, fiquei momentaneamente cego devido a um clarão que se formou, e continuei na mesma viela. Estava igualzinha, o que me fez concluir que o experimento tinha fracassado. Mas, então, percebi que os cientistas tinham desaparecido.

Ainda chamei por eles. "Ah, tá bom pessoal. Vocês estão aí escondidos, né?". Como ninguém respondeu, comecei a acreditar que poderia estar mesmo em 2025. Quebrei o protocolo e saí da cápsula, corri até uma banca de jornal perto da W3, arrombei a porta com uma força que desconhecia em mim mesmo (peço desculpas ao dono da banca porque irei roubá-lo no futuro), peguei um exemplar do Correio ("Morte do impresso é o caramba", pensei) e retornei à cápsula pouco antes de ela voltar ao presente.

Pelo contrato assinado, não posso divulgar nenhuma notícia sobre economia e política, o que não faz tão mal assim, porque não entendo de economia e vocês não acreditariam se eu dissesse quem serão nossos governador e presidente. Posso apenas dar uma ou duas informações que confirmem o sucesso da missão, o que farei agora.

Estão preparados? Em 2025, as máscaras viraram uma peça de roupa comum. Não, isso não significa que a ciência não descobriu uma vacina contra a covid-19. Descobriu, sim! Mas, graças a novas tecnologias de disparo de mensagens, o movimento antivacina convenceu metade da população a não se vacinar. E são essas pessoas que andam de máscara. Não porque elas achem que precisam, já que, para elas, a covid-19 foi uma grande invenção. Elas usam máscara só para deixar claro que não se vacinaram. Já as pessoas que em 2020 usavam máscara, e se vacinaram, saem nas ruas sem o acessório. Elas, porém, são constantemente ameaçadas e chamadas de comunistas.





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