Acolhidos por "anjos da guarda"

Acolhidos por "anjos da guarda"

No Hran, unidade de referência no combate ao novo coronavírus, pacientes internados e familiares são amparados por uma equipe de psicólogos para ajudar a enfrentar as dificuldades da doença

» Roberta Pinheiro
postado em 03/06/2020 00:00 / atualizado em 16/09/2020 15:32
 (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
(crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press)


Jádina de Jesus da Silva, 39 anos, não encontra palavras para descrever o que sentiu durante os 13 dias em que a mãe, Antônia Maria de Jesus da Silva, 63, ficou internada no Hospital Regional da Asa Norte (Hran). Mãe e filha procuraram a unidade de saúde por outro motivo e acabaram vítimas do novo coronavírus. A maranhense Antônia não resistiu ao combate contra a covid-19 e morreu em 15 de maio. Sem despedidas.
Se, por um lado, faltam palavras para Jádina, por outro, sobram na memória nomes de desconhecidos que preencheram o vazio do isolamento, do distanciamento, do desespero e da tristeza. ;O amor existe em qualquer lugar, até mesmo de quem a gente não conhece ou só viu uma vez;, emociona-se. Além de boletins médicos em termos leigos e repassados com calma e compaixão, os familiares dos pacientes com coronavírus internados no Hran recebem teleatendimento psicossocial de psicólogos da unidade.

;O Dr. Iuri e a Dra. Andreia foram dois anjos em momentos de dor e terror. Não deixaram a gente em nenhum momento. Ligavam, iam lá para falar com a minha mãe e fazer chamada de vídeo. Mesmo que não estivessem no setor dela, davam um jeito. Não deixavam a gente sem notícias. Ligavam para conversar com a gente, falavam que era um momento muito difícil, nos davam força. O amor preencheu, a compreensão pela dor do outro e saber que a gente não estava sozinho;, detalha. Jádina até brinca que não sabe qual comunicação os profissionais tinham entre eles, porque quando não era um, era outro que ajudava. ;Até a vigilante do hospital nos acolheu. Tivemos apoio de pessoas que dão valor ao ser humano.;

Última vez

No começo de maio, Jádina levou a mãe para uma consulta no Hospital Regional de Taguatinga (HRT) para verificar alguns nódulos que Antônia tinha no fígado. ;O médico fez uma tomografia e falou que minha mãe estava com o vírus da covid e que precisava levá-la para o Hran. Não queria que ela fosse para lá de jeito nenhum, porque só tinha pacientes com coronavírus e eu não acreditava nesse diagnóstico. Mas ela estava com falta de ar, respirando pouco;, lembra a filha.

Quando chegaram à unidade de referência para os atendimentos do novo coronavírus, os profissionais explicaram para Jádina que o pulmão da mãe estava muito comprometido e que ela precisaria ficar internada. ;Fiquei lá de sábado até às 14h do domingo. Foi a hora que saí do hospital, me despedi da minha mãe, mas não pude abraçá-la. Falei que ia para casa, que não podia ficar com ela, mas que voltava para buscá-la. Não a vi mais.;

A irmã de Jádina, Cleidiane de Jesus Sá Gonçalves, 31, veio do Maranhão acompanhar os cuidados com a matriarca. Foram 13 dias de prontidão. ;A gente nem dormia, nem acordava, sempre atentas a tudo. Foram momentos muito difíceis, os mais difíceis de nossas vidas, de muita dor e tristeza, não desejo isso para ninguém;, desabafa. Em meio ao turbilhão de emoções somado ao distanciamento físico da mãe, com proibições de qualquer toque, os ;anjos; fizeram a diferença. Fosse com uma palavra, fosse com uma chamada de vídeo que permitisse ver Antônia, as irmãs foram amparadas.

Se pudesse encontrar com cada um que a socorreu nos momentos de aflição, Jádina confessa que choraria e agradeceria. ;Estou sempre orando por eles, pelos familiares deles. Queria fazer uma festa e dizer coisas que eu nem sei falar. É muita gratidão e muito amor. Sinto que são pessoas da minha família.; Pela mãe, uma mulher guerreira e amorosa com os filhos, Jádina assegura que vai seguir em frente, apesar da dor da saudade. ;Eu só queria ter visto minha mãe uma última vez, para dizer que a amava, perguntar se estava me sentindo, me ouvindo. Vivi os dois dias mais tristes da minha vida: o dia no qual a deixei no hospital e o dia no qual a enterrei.;

De acordo com o responsável técnico da psicologia do Hran, o psicólogo Iuri Luz, o atendimento surgiu de maneira natural, principalmente, diante do que estava acontecendo em outros países. ;A ideia é acolher as angústias, ser um mediador da comunicação entre familiar e paciente e, até mesmo, avaliar e intervir se o familiar tiver alguma condição de saúde mental aguda. Mesmo a distância, mas prestar um suporte terapêutico;, explica.

Boletins e acolhimento

;Minha irmã tinha mais notícias minhas do que eu;, brinca Gilson Rodrigues Reis, 31. Com uma pneumonia de tipo raro, o paciente ficou internado por 10 dias no Hran fazendo acompanhamento e aguardando os testes para a covid-19. ;Desde o primeiro dia em que fiquei internado, vinham saber como eu estava, se o exame de coronavírus tinha saído, em que eles poderiam ajudar, que se eu quisesse conversar, poderia ligar espontaneamente;, detalha. O apoio tornou a espera mais tranquila, mas, principalmente, ajudou quem estava longe.

Gilson é o único filho que mora em Brasília. O restante da família é de Luziânia (GO). ;Como a gente não podia ir, eles ligavam de manhã, às vezes, à tarde também para dar informação sobre ele, sobre o resultado dos exames, o nível de oxigênio. Também tiraram nossas dúvidas. Passou muita confiança;, lembra Rosilene Rodrigues Guimarães, 38, irmã de Gilson. Como ele viaja muito a trabalho e tem histórico de problema respiratório e pressão alta, a preocupação e a fiscalização da família é grande. ;Foi a primeira vez que ele ficou internado, ficamos assustados;, comenta Rosilene.

O impacto da intermediação é sentido tanto pelo familiar quanto pelo paciente. Com suspeita de coronavírus, Creusiane de Oliveira Costa, 31, ficou internada por oito dias na unidade de saúde. ;Quando a gente vai para o Hran já pensa que não vai voltar para casa. Dá medo tanto para o paciente quanto para toda a família;, define. Mãe de Jennerfe Oliveira Borges, 10, Creusiane deixou a filha com uma irmã, mas, pelos profissionais do atendimento psicossocial, mantinha contato constante e direto com a criança. Foi a primeira vez que as duas ficaram tanto tempo sem se ver.

;É algo que mexe muito com o psicológico da família ter uma pessoa internada num hospital referência. Então, sempre perguntavam como a gente estava, como éramos tratadas, tentavam nos tranquilizar e me passar confiança de que sairia logo dali;, detalha. Jennerfe complementa: ;Senti muito a falta dela, de dormir abraçada com ela. Quando ela me ligava, me deixava tranquila. Dizia que me amava muito;.

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