Aposta de Selic a 2,25% ganha força

Aposta de Selic a 2,25% ganha força

Banco Central define, nesta semana, a nova taxa básica de juros, com o intuito de tentar minimizar os estragos econômicos da pandemia. A expectativa é de que o Copom autorize um corte de 0,75 ponto percentual. Analistas avaliam limites para o afrouxamento monetário

Marina Barbosa
postado em 14/06/2020 00:00
O O Brasil deve passar a conviver com a menor taxa de juros da sua história a partir desta semana. É que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) volta a se reunir, terça e quarta-feira, para definir a taxa básica de juros (Selic) da economia brasileira. E a expectativa é de que, para tentar minimizar os estragos econômicos causados pela pandemia do novo coronavírus, o Copom faça um novo corte na Selic, levando a taxa básica de juros dos atuais 3% ao ano para a nova mínima histórica de 2,5% ou até 2,25%.

A Selic já sofreu dois cortes consecutivos desde o início da pandemia, passando de 4,25% para 3,75%, em março, e para os atuais 3%, em maio. Porém, o próprio Banco Central já admitiu que mais uma redução de juros é necessária para que a política monetária consiga fazer frente à crise econômica causada pela covid-19.

Na ata da última reunião do Copom, a autoridade monetária explicou que a pandemia gerou uma ;recessão global com poucos precedentes históricos;, que será especialmente dura para países emergentes como o Brasil. Por isso, avaliou que ;a conjuntura econômica prescreve estímulo monetário extraordinariamente elevado; e avisou que mais um corte de até 0,75 ponto deveria ser feito nesta semana.

O discurso só ganhou força com o passar do tempo, já que os indicadores começaram a mostrar o real tamanho do tombo econômico causado pelo coronavírus. O mercado financeiro, consequentemente, elevou de -4,11% para -6,48% a projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil neste ano. Por isso, na semana passada, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, avisou que o Copom, de fato, pretende baixar a Selic novamente para tentar estimular a recuperação da economia brasileira no pós-pandemia.

Campos Neto afirmou a investidores que o Copom continua percebendo a necessidade de ;uma quantidade extraordinariamente grande de estímulo monetário; e, por isso, considera mais um ajuste monetário para levar a Selic ao patamar adequado para o enfrentamento econômico da covid-19. Ele reconheceu, contudo, que ;existem limites potenciais para o espaço restante para o ajuste; e que a ;variação de seu balanço de riscos aumentou;. Por isso, avisou que esse corte não será maior do que 0,75 ponto e que deve ser o último desse ciclo de redução da Selic, já que o órgão precisará de mais ;informações sobre os efeitos adicionais da pandemia na economia, bem como um declínio da incerteza fiscal; para decidir os seus próximos passos.

O mercado especula, portanto, se esse corte será de 0,75 ponto novamente ou de 0,50 ponto. Porém, a maioria dos analistas acredita que a redução de 0,75 deve ser a aposta do Copom. Afinal, a situação econômica se agravou desde a última reunião do Comitê e até depois dessa última fala de Roberto Campos Neto, e justifica a redução da Selic para a nova mínima histórica de 2,25% ao ano.

Na semana passada, o IBGE revelou que a pandemia da covid-19 provocou dois meses consecutivos de deflação no Brasil, o que não ocorria há 22 anos. A deflação foi de 0,31% em abril e de mais 0,38% em maio. Por isso, a inflação acumulada nos últimos 12 meses caiu de 2,4% para 1,88%, ficando ainda mais longe da meta estipulada pelo Copom, que é de uma inflação de 4% em 2020, com um intervalo de tolerância que vai de 2,5% a 5,5%. E a tendência é de que esse índice caia ainda mais, já que, como reconheceu o BC, o Brasil ainda deve passar mais alguns meses com baixo consumo e baixa pressão de preços.

Por isso, o mercado financeiro já projeta uma inflação de 1,53% ao fim do ano, segundo o último Boletim Focus, e algumas casas dizem que esse índice pode até ficar abaixo de 1%. A XP é uma delas e aposta que o Copom usará todo o limite de 0,75 ponto de corte estipulado para esta reunião, com a Selic a 2,25%, para tentar estimular a economia e levar a inflação para mais perto da meta.

;A retomada vai ser muito gradual. A economia vai andar de lado por um tempo. Então, o cenário é de inflação baixa pela frente;, concorda o diretor da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel Oliveira, que, por isso, também projeta um corte de 0,75 ponto na Selic e diz que essa nova taxa de juros de 2,25% pode perdurar por um bom tempo. ;A situação está muito complicada. A recessão vai vir forte, com uma queda de até 8% do PIB, desemprego algo, demanda reprimida e inflação bem baixa. E o corte de juros pode ajudar a suavizar esse tombo, porque vai deixar a decisão de investir mais barata;, afirmou Oliveira.

;O mercado converge para um corte de 0,75 ponto porque as condições permitem essa movimentação. E reduzir os juros é importante para que, no momento em que o choque da pandemia começar a se dissipar, a retomada seja mais acelerada e isso permita alcançar a meta de inflação;, acrescentou o estrategista-chefe do banco digital modalmais, Felipe Sichel. Segundo ele, esse entendimento ganhou força por conta dos novos indicadores da economia mundial.

Previsão do Fed
O Federal Reserve (Fed), por exemplo, decidiu manter a taxa de juros dos Estados Unidos entre 0% e 0,25% na semana passada e disse que essa taxa pode perdurar ao longo de todo o próximo ano, já que a recuperação mundial também será lenta. Outros bancos centrais também reduziram seus juros para quase zero na pandemia. Por isso, os analistas brasileiros consideram que, mesmo cortando a Selic para 2,25% ao ano, o Brasil ainda poderá oferecer algum prêmio aos investidores. E ressaltam que, apesar de ter tido dias de mau-humor na semana passada, o mercado financeiro está bem menos estressado agora do que em maio, o que deixa o BC mais confortável em mexer na Selic.

O economista-chefe da Órama Investimentos, Alexandre Espírito Santo, chegou a defender um corte de 0,50 ponto, por entender que seria precavido para o BC manter uma carta na manga caso seja preciso ajustar novamente a Selic mais à frente. Mas, agora, é a favor do 0,75 ponto de corte. ;Parece que é um consenso. A dúvida, agora, é se o Copom vai interromper esse ciclo ou se vai deixar a porta aberta para um novo corte;, afirmou Espírito Santo, que, neste caso, prefere uma pausa nos ajustes da Selic até que o efeito econômico da pandemia fique claro, como defendeu Campos Neto.

Parte dos analistas, contudo, acha que o Comitê ainda pode voltar a fazer ajustes na Selic neste ano, mesmo que não indique isso agora. Até porque a covid-19 ainda pode causar mais estragos na economia mundial e não é comum, no histórico do Copom,

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