Passarela on-line

Passarela on-line

A tecnologia, nos últimos anos, esteve integrada à produção dos grandes desfiles de moda. Com a pandemia, as novas coleções passam a ser apresentadas de forma virtual, num novo formato de desfile

Por Manuela Ferraz*
postado em 14/06/2020 00:00
 (foto: Fotos: Arquivo Pessoal
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(foto: Fotos: Arquivo Pessoal )
A moda sempre teve como uma de suas características a capacidade de se reinventar e transformar, mas, em um cenário de pandemia e isolamento social, essas palavras parecem ganhar ainda mais importância. Diversas marcas têm buscado se adaptar e criar soluções virtuais para viabilizar projetos e eventos.

Uma das grandes novidades são os desfiles a distância ou com um suporte tecnológico capaz de realizar apresentações em 3D, que desfilam as roupas sem estarem no corpo de ninguém, como fez a marca Hanifa ao desfilar sua recente coleção Pink Label Congo.

Para Kim Trieweiler, pesquisador de futurismo na Aerolito, as tecnologias já vinham ganhando mais espaço no mercado de moda e, nesse sentido, a pandemia pode ter acelerado a novidade. ;Já faz algum tempo que as marcas estão mudando os formatos dos desfiles, muitas vezes optando em ficar fora de algumas edições das semanas de moda para promover eventos exclusivos para as pessoas compradoras. Outras, atuando em formato ready-to-wear, o que, em si, já é uma mudança grande em relação ao desfile enquanto recurso para uma marca de moda;.

No curso Futuro da moda, a Aerolito compartilha sua lente transversal para enxergar como a tecnologia está transformando a moda e o que guarda esse futuro. Kim adianta algumas visões: ;Enxergo o futuro da moda sendo caracterizado por diversas quebras de paradigmas históricos, mas que ainda são vigentes. O mercado da moda tradicionalmente funcionou de uma forma bem sistemática, com datas específicas para lançamentos e etapas que precisavam ser respeitadas para um novo produto chegar às pessoas consumidoras. Analisando o mercado como um todo e observando as diferentes iniciativas que estão mudando as regras do jogo, me parece que, eventualmente, não teremos mais tantas regras assim nesse jogo;.

Iniciativas como a da Hanifa surpreendem, mas não fazem parte da visão de futuro da moda de grandes marcas, e sim do presente. ;Recentemente a Tommy Hilfiger anunciou junto com a Stitch uma forma de digitalizar toda a coleção ainda na etapa de criação, o que facilitaria alterações nas peças e poderia suprir a necessidade de amostras. Agora, imagina se a empresa já tem a nossa coleção inteira digitalizada em função da criação, não fica mais fácil de usarmos para um desfile nesse formato?;, explica Trieweiler.

Kim esclarece que podemos olhar o futuro da moda através da lente do e ao invés do ou e que os desfiles presenciais e com modelos ainda terão seu espaço. ;Da mesma forma como a aplicação da tecnologia tem o seu espaço, o trabalho das pessoas que atuam como modelos também. Em um momento em que a representatividade em suas múltiplas manifestações não para de ganhar importância ; ainda bem ; invisibilizar isso me parece algo que as marcas que estão conectadas de verdade com o futuro não vão fazer;, afirma.

Desfile no Instagram

Já conhecido no cenário brasiliense por suas edições presenciais, o Desfile Beleza Negra inovou ao realizar uma apresentação 100% virtual após o evento que estava marcado para 21 de março, dia internacional de luta pela eliminação da discriminação racial, ter sido cancelado por causa da pandemia do novo coronavírus.

O objetivo do evento on-line, segundo a idealizadora Dai Schmidt, foi reforçar a presença do negro no mercado da moda e incentivar modelos e pessoas a prepararem seus próprios looks, além de conscientizar sobre os diferentes padrões de beleza, moda, comportamento e ser uma ação de luta pelo fim do racismo. ;Quando eu percebi que os modelos e estilistas estavam tristes, surgiu a estratégia do desfile on-line. Foi superlegal a ideia, além de muito importante por toda visibilidade que temos;, explica Dai.

O evento ocorreu no dia 1; de maio, no formato de live no Instagram @desfilebelezanegra e contou com a participação de modelos, estilistas e outros profissionais negros. ;Como todos são negros e abraçam a causa, superapoiaram a ideia;, avalia a idealizadora.

A seleção dos modelos foi feita a partir de um convite por parte de Dai e a animação foi imediata. ;Coloquei uma imagem chamando para o evento no grupo dos modelos e logo começaram a buscar mais informações para participar. A autoestima foi lá em cima. No fim, todos os modelos arrasaram nos looks, foram bem aplaudidos e receberam muitos elogios;.

Modelo, mãe solo e ativista do Movimento Negro, Lohany Kayná, 22, conta que essa foi sua primeira participação no DBN e que, desde então, eles têm dado suporte para sua carreira. ;Foi ofertado workshop de passarela, mas não aconteceu devido à pandemia que nos pegou de surpresa. Mas foi interessante como o DBN se reinventou e aproximou mais os modelos. Sempre perguntam como estamos e propõem atividades que nos dão autonomia enquanto modelos e pessoas, como o desfile e a roda de conversa on-line com a Amanda Balbino;, explica ela.

Dentro do desfile on-line, os modelos tiveram autonomia para montar o próprio look, maquiagem e cabelo e, segundo Lohany, essa é a grande diferença de um desfile tradicional. ;Pude mostrar o meu estilo pessoal na minha própria passarela. A gravação foi feita pela minha mãe, na nossa garagem. Pretas, pretos e pretes carregados de beleza e simpatia em uma passarela de fácil acesso porque bastava entrar no Instagram;.

Para ela, a edição do DBN tem uma importância especial para os participantes. ;Mostra a diversidade das múltiplas belezas negras, rompe com os estereótipos e com o padrão estético vigente. Muitos dos nossos que nos veem acabam se identificando com a gente. Cabelo crespo, nariz largo, quadril largo nunca foi bem-aceito e estamos aqui para mostrar que nossos traços são belos e perfeitos. Vai ter trança, dread, turbante e pente garfo na passarela, sim;, conclui Kayná.

Gildo Mota de Santiago, 21, modelo e fotógrafo, cruzou as passarelas do Desfile Beleza Negra pela primeira vez e compartilha das visões de Lohany. ;O DBN abrange muito mais do que um desfile, ele fala sobre uma história e sobre a importância de dar voz a um povo que é tratado como inferior pela sua cor de pele. O ato de desfilar em si é o resultado de todo esse processo que é trilhado por um longo período. Eu sou muito feliz pela oportunidade que tive e espero que todo o projeto tenha a grande proporção de reconhecimento que ele merece; afirma.

Ele, que sempre gostou de moda e arte no geral, havia investido duas vezes em agências de modelo de Brasília, mas não teve retorno. A oportunidade de desfilar pelo DBN trouxe o sentimento de empoderamento e realização pessoal. ;Só de ter participado de um desfile on-line e me ver partilhando de um mesmo sentimento com pessoas qu

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