Novos conflitos e olhares

Novos conflitos e olhares

Segunda temporada da série nacional Coisa mais linda amplia arco de debate, dando mais visibilidade às demais personagens

Por Adriana Izel
postado em 14/06/2020 00:00

Lançada no ano passado na Netflix, a série nacional Coisa mais linda está de volta. A partir de 19 de junho, a produção ganha novos episódios na segunda temporada. Dessa vez, a trama está mais complexa, ampliando o olhar para além da protagonista Maria Luiza, vivida por Maria Casadevall, personagem que, na primeira temporada, assumiu o comando de uma casa de shows, batida de Coisa mais linda ; daí o nome do seriado ;, após ter sido abandonada pelo marido no Rio de Janeiro.

Ainda na primeira temporada, Malu estava rodeada de três amigas: a cantora Lígia (Fernanda Vasconcellos), a jornalista Thereza (Mel Lisboa) e a ex-empregada doméstica e sócia Adélia (Pathy Dejesus), que já roubavam a cena na produção e discutiam temas femininos, como emancipação, empoderamento e violência. Porém, mesmo que cada uma tivesse conflitos próprios, a série ainda tinha uma característica de estar centrada em Maria Luiza e também num caráter mais de apresentação, natural de uma primeira temporada.

A partir de agora, a narrativa tem mais complexidade. A segunda temporada começa a partir dos desdobramentos do trágico acontecimento do final da primeira, quando Lígia e Malu são atingidas por tiros disparados por Augusto Soares (Gustavo Vaz) durante o réveillon de 1960. Malu fica hospitalizada, vê o ex-marido retornar e assumir o lugar dela no Coisa mais linda e usará a força alimentada pelo trauma para se recolocar no mercado. Thereza precisa lidar com as mudanças no casamento com Nelson (Alexandre Cioletti) após a descoberta de que ele é pai de Conceição (Sarah Vitória). Já Adélia se prepara para o casamento com o Capitão (Ícaro Silva) e toda a nova dinâmica familiar que inclui a irmã Ivone (Larissa Nunes) querendo investir na carreira de cantora e o retorno de uma figura do passado.

;Para Adélia eu achei: ;Uau, foi maravilhoso;. Porque muito se falou que, na primeira temporada, a Adélia em relação as outras personagens tinha menos ambientação. A gente sabia muito pouco de onde ela vinha, quais pessoas conviviam com ela. Na segunda temporada, isso é escancarado de uma forma muito linda, com novos personagens, dramas só dela. Ela deixa de ser uma personagem que fica orbitando em torno da Malu para ter uma história própria;, avalia Pathy Dejesus em entrevista ao Correio.

Mel Lisboa também pontua a evolução de Thereza na segunda temporada. ;Acho que na primeira temporada há uma apresentação das personagens. Na linha geral de quem são essas quatro mulheres e as questões distintas dos universos delas, que abordam questões importantes e diferentes. Na segunda temporada, isso se aprofunda. No caso da Thereza, por ela entrar em contato com essa fragilidade. Ela é uma personagem feminina desconstruída, mas humana e passível de vulnerabilidade;, avalia a atriz.

A música ainda tem espaço em Coisa mais linda, mas agora de uma forma mais secundária. O que importa mesmo agora são as histórias das personagens. ;Nessa segunda temporada fomos agraciados com a chegada de novos personagens, um núcleo negro forte e efetivo. Ninguém está figurando, todo mundo tem papel e bem importante;, classifica Pathy.

Temática feminista

Apesar de se passar na década de 1960, Coisa mais linda se destacou desde a primeira temporada pela abordagem de temas atuais envolvendo o universo feminino. Na sequência, a característica se mantém e novos debates que dialogam com a atualidade também aparecem. ;Acho que a série tem um potencial enorme em relação a essas questões, porque as aborda de forma delicada, porém contundente que faz o espectador ter uma reflexão. Abraça tanto pessoas que já têm consciência dessas causas ; machismo, racismo e feminicídio ; quanto aquelas que ainda não. É um entretenimento, mas que te faz pensar nos dias de hoje;, reflete Mel Lisboa.

;Coisa mais linda não tem como objetivo levantar bandeiras, isso acontece de forma orgânica. Isso é que é o mais lindo da nossa série. A gente se comprometeu a fazer um entretenimento consciente. Se você for levar a ferro e fogo, muitas coisas e conquistas, talvez, não coubessem naquela época. Mas acho muito interessante essa forma de mostrar, porque traz menos resistência das pessoas. Colocamos muita gente para questionar e fazer um paralelo com o mundo atual;, completa Pathy Dejesus.

Repercussão no Brasil

Coisa mais linda foi uma das primeiras séries brasileiras originais da Netflix a ter boa repercussão com o público nacional. ;O feedback me surpreendeu, superou as minhas expectativas. O que, de certa forma, tem uma responsabilidade para a segunda temporada. A expectativa foi criada. Mas acho que nosso trabalho é entregar, e foi feito com muita dedicação;, afirma Pathy Dejesus

A intérprete de Adélia destaca, ainda, a importância do lançamento da série em meio ao isolamento social. ;As pessoas estão tendo que recorrer às artes para desopilar um pouco. Tomara, então, que Coisa mais linda sirva de entretenimento num momento como esse;, completa.

Mel Lisboa aproveita para dizer que tanto a boa repercussão da série, quanto o maior tempo do público dedicado aos produtos nacionais na quarentena possam servir de exemplo para a valorização do audiovisual brasileiro. ;É um público muito acostumado a consumir novelas e que, agora, está começando a migrar para outros conteúdos audiovisuais e de cultura produzidos no Brasil. As séries e os filmes estão indo muito bem nacionalmente e internacionalmente. Coisa mais linda é uma porta que se abre para que esses preconceitos com o conteúdo brasileiro caiam;, comenta.

Leia amanhã a crítica dos quatro primeiros episódios de Coisa mais linda em http:/blogs.correiobraziliense.com.br/proximocapitulo/.


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