Avanço contra o AVC

Avanço contra o AVC

Estudo brasileiro inédito mostra que cirurgia de retirada de coágulo responsável pelo derrame é vantajosa para pacientes e para o sistema público de saúde. A taxa de mortalidade cai 16% e a chance de não haver sequelas aumenta 3,4 vezes, entre outros benefícios

Carmen Souza
postado em 20/06/2020 00:00 / atualizado em 18/09/2020 16:56
 (crédito: Arquivo pessoal)
(crédito: Arquivo pessoal)


O tempo de ação para evitar consequências graves de um acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico é curto. Em questão de horas, o entupimento do vaso que leva sangue ao cérebro pode matar ou causar sequelas graves. Também por isso, escolher o melhor tratamento para a complicação pode fazer a diferença tanto para o paciente quanto para o sistema de saúde, demonstram pesquisadores brasileiros em um estudo divulgado neste mês, na revista The New England Journal of Medicine. Segundo a equipe, submeter vítimas de derrame a uma terapia que combina o tradicional uso de medicamento com uma cirurgia de retirada do coágulo resulta em uma série de vantagens, como redução do risco de morte, menor tempo de internação e melhor desfecho clínico.

Para chegar à conclusão, os pesquisadores avaliaram pacientes atendidos em oito hospitais públicos ; um deles o Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF) ; após sofrerem AVC isquêmico agudo, quando o acesso a uma grande artéria do cérebro é comprometido. Em parte dos pacientes, foi administrado o remédio para a dissolução química do entupimento. Outro grupo recebeu a medicação e foi submetido à trombectomia, uma espécie de cateterismo que consegue ;pescar; coágulos. Ao comparar a evolução de quase 300 voluntários, a equipe constatou que a terapia combinada ; medicamento e cirurgia ; reduziu a mortalidade em 16%, aumentou em 3,4 vezes a chance de não haver sequelas e em 2,6 vezes a chance de os pacientes ficarem independentes, entre outros benefícios.

A neurologista Letícia Rebello, que participou da etapa no HBDF, conta que os resultados obtidos foram tão significativos que o grupo encerrou a pesquisa com um número menor de pacientes do que o previsto. ;Já tínhamos um forte poder estatístico mostrando a superioridade da terapia combinada;, diz. ;Geralmente, acompanhamos esses pacientes por um ano, sendo que a primeira análise ocorre em três meses. Já nessa avaliação, conseguimos observar a melhora em termos de recuperação funcional, de independência nas atividades do dia a dia. As pessoas que fizeram a trombectomia voltaram a ter movimento, a falar;, detalha a médica, que contou com a parceria dos neurocirurgiões Eduardo Waihrich e Bruno Parente no Hospital de Base.

Letícia Rebello ressalta que o tratamento combinado é indicado para o AVC isquêmico mais grave, que corresponde a 30% a 40% dos casos. Nessa situação, considerada uma emergência médica, grandes áreas cerebrais estão ameaçadas pelo fato de não receberem mais sangue. Por isso, é recomendado que a assistência especializada ocorra até quatro horas e meia depois do surgimento dos primeiros sintomas. Hoje, no Sistema Único de Saúde (SUS), o protocolo é que os pacientes recebam apenas o tratamento com medicação, um trombolítico.

A partir de 2015, pesquisas em países de alta renda ; Estados Unidos, Reino Unido e Holanda, por exemplo ; passaram a demonstrar a efetividade da trombectomia contra o AVC isquêmico agudo. A cirurgia é conduzida nesses locais e também em hospitais particulares no Brasil. Quando provocado sobre a adoção do procedimento no SUS, o Ministério da Saúde argumentou que faltavam evidências sobre os efeitos da cirurgia na população brasileira e no sistema público de saúde.

O estudo Resilient foi criado para responder a essa demanda, sob coordenação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Os dados publicados na The New England Journal of Medicine são os primeiros a demonstrar a eficácia da terapia combinada em um país em desenvolvimento. ;Foram tão contundentes que os publicamos na maior revista científica médica do mundo;, ressalta Octávio Marques Pontes-Neto, integrante do estudo e vice-coordenador do Departamento Científico de Doenças Cerebrovasculares, Neurologia Intervencionista e Terapia Intensiva em Neurologia da Academia Brasileira de Neurologia (ABN).

Reação internacional
Segundo o neurologista, os resultados do Resilient, que contou com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), estão sendo encaminhados ao Ministério da Saúde. Procurado pelo Correio, o órgão não se manifestou sobre o tema e possíveis mudanças no protocolo do SUS. Outros países, porém, já têm reagido positivamente ao trabalho inédito.

;Estamos sendo cumprimentados por colegas do mundo inteiro porque, apesar dos efeitos da trombectomia já terem sido demonstrados em países desenvolvidos, a maior parte dos casos de AVC no mundo, cerca de 80%, ocorre nos países em desenvolvimento e, em muitos desses lugares, pessoas ainda estavam cética quanto aos efeitos do procedimento. Nosso estudo mostra que a trombectomia mecânica deve ser implantada de forma mais abrangente;, diz Octávio Marques Pontes-Neto, também coordenador da Rede Nacional de Pesquisa em AVC.

Para os autores do Resilient, o impacto no Brasil é ;imensurável;. O país registra anualmente cerca de 400 mil casos de AVC, sendo 80% deles isquêmicos. Dessa forma, de 96 mil a 128 mil poderiam ser tratados com a combinação de terapias. ;Vale lembrar que o AVC é a primeira causa de morte e de incapacidade no país. São mais de 100 mil óbitos por ano em razão dele. Realmente, é um problema de saúde pública, é uma epidemia, e no Distrito Federal não é diferente. Trazer a trombectomia para o SUS é adotar uma modalidade de tratamento que trará ganhos imensuráveis;, enfatiza Letícia Rebello.

A neurologista destaca ainda que os benefícios não se restringem aos pacientes. O estudo também sinaliza vantagens para o sistema de saúde. Por exemplo, o tempo médio de internação cai de um mês para cinco dias. ;É um procedimento mais caro quando você analisa em uma perspectiva micro. Mas esse tipo de AVC é muito grave, pode deixar sequelas. E esse paciente reinternam mais, tem mais gastos com complicações. Se a gente avaliar em um nível ainda maior, pensando na população economicamente ativa, é mais gasto com aposentadoria precoce, com auxílio-doença. Quer dizer, o impacto desse tipo de tratamento é muito grande. Mostramos em termos de custo e efetividade que vale a pena incorporar essa tecnologia;, frisa.



"O AVC é a primeira causa de morte e de incapacidade no país. São mais de 100 mil óbitos por ano (;) Trazer a trombectomia para o SUS é adotar uma modalidade de tratamento que trará ganhos imensuráveis;
Letícia Rebello, neurologista e integrante do estudo




 

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