Dos 12 aos 54

Dos 12 aos 54

postado em 05/07/2020 00:00
 (foto: Arquivo Pessoal
)
(foto: Arquivo Pessoal )
A vida útil de uma rede social costuma ; ou costumava ter ; uma certa lógica. Primeiro, a plataforma faz sucesso entre os jovens; depois de um período, a novidade passa. Os mais velhos, que tendem a demorar um pouco mais para se acostumar a novas funcionalidade e tecnologias, começam a criar seus perfis e se tornar mais ativos. Os mais jovens, então, continuam o ciclo e migram para a próxima novidade.

Ou seja, as faixas etárias costumam se dividir e ser mais ou menos presentes, a depender da rede. No TikTok, o fenômeno não se aplica. No app, todos estão ativos ao mesmo tempo e interagindo entre faixas etárias. Nestas páginas, por exemplo, temos tiktokers brasiliense de 12, 17, 30, 35 e 54 anos. A mais nova, a estudante Catarina Ribeiro Imbroisi, começou a fazer vídeos com a mãe, a empresária Luciana Ribeiro, 46 anos.

Em dezembro do ano passado, as duas faziam danças e desafios juntas. A ideia era uma diversão entre mãe e filha, mas logo a timidez de Luciana se fez presente e os vídeos individuais de Catarina se tornaram mais comuns. ;Ela ficava com vergonha de fazer as dancinhas e as dublagens. A gente ri muito quando eu danço, e ela tenta copiar;, conta a estudante.

Além das danças e dublagens, os mais de 5 mil seguidores de Catarina acompanham vídeos da rotina da jovem e de desafios, que se tornaram muito mais frequentes com o tempo livre extra que surgiu com o isolamento.

Luciana, que tem um perfil para acompanhar as publicações da filha, afirma que está sempre de olho nos comentários e no perfil dos seguidores. ;Já pedi para apagar um vídeo que tinha linguagem que não condizia com a idade. Além de monitorar, estou sempre orientando para não conversar com estranhos, por exemplo.;

Catarina se diverte no TikTok, interage com as amigas e segue diversos tipos de perfis, como o de idosos que produzem conteúdo com os netos. ;É muito legal, porque muitos idosos estão solitários no isolamento e sentem falta de carinhos. Nos comentários, as pessoas elogiam, incentivam e eles agradecem, interagem.; Para a estudante, a rede permite que as pessoas aprendam coisas novas, distraiam-se e até mesmo descubram talentos escondidos, além de interagir com os amigos afastados.

Em busca de oportunidade

Maria Eduarda Mol Mohamed, 17 anos, entrou no Tik Tok antes mesmo que a rede tivesse esse nome, há cerca de dois anos, e permaneceu no app depois das mudanças, que considerou positivas no quesito engajamento. A estudante cria vídeos chamados de ;POVs;, abreviação para a expressão em inglês point of view ; ponto de vista, em livre tradução ; e aposta na atuação e criação de pequenas histórias e narrativas.

Fã de comédias e POVs, Maria Eduarda acredita que o TikTok caiu nas graças do público por permitir que qualquer usuário com conteúdo de qualidade cresça e conquiste visibilidade. Com o sonho de ser atriz e investindo nas redes sociais profissionalmente, ela chega a passar cinco horas produzindo um vídeo, e acredita que o app valorize seu trabalho e traz oportunidades.

Durante o isolamento, afirma que suas visualizações aumentaram mais ainda e até o pai, que nunca tinha usado, passa o dia rindo dos vídeos de comédia no perfil recém-criado.

Quebrando preconceitos

Menos de 30 dias foi o tempo necessário para a assistente social, atleta de parabadminton e administradora Aline de Oliveira Cabral, 35, alcançar um número sólido de mais de 40 mil seguidores. Cadeirante, Aline usa seu perfil para fazer os desafios e danças e mostrar sua rotina, desmistificando estigmas sobre pessoas com deficiência e quebrando preconceitos. ;Essa visibilidade ajuda até mesmo pessoas que têm vergonha das próprias deficiências. Elas percebem que podem ser lindas, sexys, engraçadas.;

Com uma rotina atribulada, resolveu entrar no TikTok com o tempo livre do isolamento e para fazer parte do que as amigas tanto falavam e comentavam. ;Não tinha expectativa de ficar postando muito, mas peguei gosto e hoje posto de tudo: minha rotina, danças e meu trabalho.;

Um de seus vídeos com maior repercussão foi em que fez uma dança sensual. Ela ressalta que muitas pessoas têm dúvidas quanto à vida sexual de pessoas com deficiência e o quanto é importante desconstruir a ideia de invalidez que muita gente ainda preserva.

Para a atleta, o isolamento social ressaltou que não temos controle da vida e, por isso, precisamos aproveitar e valorizar cada momento. No TikTok, ela gosta de ver vídeos que a façam sorrir e se desligar da negatividade.

Fã dos filtros, que a livram de ter que usar maquiagem sempre que grava, avalia que as redes sociais têm ligado as pessoas ao mundo e permitido que se sintam menos solitárias. ;Vejo muitos idosos e acho válido, pois o divertimento deles era sair de casa, estar com os netos e amigos, e, graças à internet, podem se distrair e se sentir amados.;


Divertimento em família

Para a família da assessora Ruzielde Aparecida de Souza, 54 anos, o TikTok é uma fonte de diversão, mas vai muito além da distração. O aplicativo funciona, também, como forma de terapia alternativa durante o isolamento social. Na rede social há três anos, Roze, como é conhecida, tem feito diversos vídeos com a filha, a atriz Maju Souza, 20 anos, e o marido, o aposentado João Henrique Rucinski, 58, que sofreu um AVC e começou a recuperar os movimentos de um ano para cá.

Ela conta que as dublagens, os desafios e as danças ajudam João a trabalhar a área motora e cognitiva, além de os deixarem extremamente feliz. ;Alguns vídeos ele mesmo pede para fazer, pois o ajudam a se sentir mais seguro de si e confiante. Fica muito feliz com os comentários de incentivo, de apoio, e isso ajuda muito na superação. Tornou-se um app que me faz acreditar em um mundo melhor;, conta Roze.

Em junho, a família fez um desafio para trabalhar a coordenação motora fina e cognitiva. A cada erro cometido por Roze e Maju, João podia maquiá-las como quisesse. A terapia e a diversão foram garantidas. Além do processo terapêutico para João, o Tik Tok é onde Roze busca e ensina receitas diferentes e como se sente mais livre, mesmo estando dentro de casa. Poder mostrar para as pessoas o que sente, pensa e gosta faz com que a assessora se sinta menos solitária.

Vídeos mais sérios, de reflexão e lições de vida também são alguns dos conteúdos curtidos por Roze, além de imagens de grandes ondas e praias distantes. Para ela, a diversidade de material e de usuários permite uma interação benéfica entre idosos e jovens, p

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