A afetuosa cozinha da Tê

A afetuosa cozinha da Tê

Depois de trabalhar por 39 anos em uma casa em Brasília, essa cozinheira de mão cheia acabou não só fazendo parte da família como abrindo o próprio bufê. Com a pandemia, precisou se reinventar

Por Sibele Negromonte
postado em 05/07/2020 00:00
 (foto: Fotos: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Fotos: Ed Alves/CB/D.A Press)

Teresinha dos Santos não tem dúvidas: o momento em que se sente mais realizada é quando está na cozinha. ;Cozinhar me desestressa dos problemas e me deixa muito feliz;, resume. Prestes a completar 73 anos, Tê, como é carinhosamente conhecida, mantém-se mais ativa que nunca, principalmente nesta quarentena, quando, assim como muitos, viu-se obrigada a mudar a rotina e a se reinventar.

Mudança nunca foi exatamente um problema para ela. Maranhense, da cidade de Balsas, Tê chegou a Brasília ainda adolescente, em 1963. Veio com os tios e os primos tentar uma vida melhor na recém-inaugurada capital. Logo conseguiu trabalho como empregada doméstica. Com a morte dos tios, passou a morar na casa dos patrões. ;Eles se tornaram minha família. Ajudei a criar os filhos, os netos e até os bisnetos. Como nunca tive filhos, eles são meus também.;

E assim se passaram 39 anos ; período em que Tê aproveitou para também se aperfeiçoar na arte da culinária. ;Sempre fui muito curiosa. Considero a cozinha um laboratório, adoro inventar receitas. Assisto a todos os programas de gastronomia e faço coleção de livros e revistas de receitas.; Mas o inesperado aconteceu: depois de quase quatro décadas, os patrões se separaram. E a fiel ajudante foi taxativa: não tomaria partido, ou seja, não trabalharia para nenhum dos dois. Era chegada a hora de, pela primeira vez, morar sozinha.

Tê recebeu uma proposta para trabalhar dois dias da semana como cozinheira na casa de uma amiga da família. A essa altura, o tempero dela já tinha ganhado fama. E como, agora, tinha tempo de sobra, a maranhense decidiu preparar também quitudes sob encomenda. Aproveitou ainda para fazer vários cursos para ;clarear as ideias; e se aperfeiçoar no que, intuitivamente, já dominava.

Um bufê para chamar de seu

E os pedidos começaram a chegar, principalmente dos amigos e dos amigos dos amigos. Um dos primeiros trabalhos foi um almoço de casamento, que ela lembra com um certo trauma, mas com muito orgulho e como um grande aprendizado. ;Era uma festa para 300 convidados, mas acabou em 500. A família da noiva era de Minas Gerais, e os parentes todos vieram. Preparamos diversos pratos. Tinha leitão assado, bobó de camarão, feijoada... Foi um estresse só, mas deu tudo certo, e a experiência foi maravilhosa;, diverte-se.

Aprovada com louvor na prova de fogo, Tê estava pronta para encarar qualquer desafio. Desde então, fez salgados para festas ; e até casamentos ;, refeições congeladas, almoços na casa do cliente e em clube e ficou famosa pela deliciosa feijoada. Tudo, porém, era divulgado no boca a boca. ;Muitas vezes, ela não sabia colocar preço no seu trabalho, e as pessoas pagavam bem menos do que ela merecia;, explica Rodrigo Moll, neto dos primeiros patrões de Tê e que também a considera avó.

Como o rapaz trabalha no Sebrae, resolveu ajudar a ;avó; a estruturar o bufê. Em 2016, nascia o Cozinha da Tê. Criaram logomarca, tabela de preço, usaram as redes sociais para divulgação, enfim, profissionalizaram o serviço, mas sem deixar de lado o toque artesanal e afetivo ; marcas registradas da cozinha da maranhense. Ela continuava responsável pela produção, e o neto passou a administrar o negócio.

E não faltavam festas. ;Chegamos a fazer eventos para 120 pessoas, mas decidimos limitar a 80 para manter a qualidade;, diz Rodrigo. Principalmente porque a cozinheira prefere trabalhar sozinha, apesar da insistência de todos para contratar ajudantes.

Mas aí veio a quarentena. Tê, que, por conta da idade, faz parte do grupo de risco, logo passou a cumprir o isolamento social. ;A dona da casa em que eu trabalhava é médica, então, assim que começou a pandemia, deixei de ir para o serviço.; Sob a constante vigilância dos ;filhos; e netos;, foi proibida de frequentar até o supermercado. ;Eles fazem as compras e trazem para mim.;

Ativa, ela não estava feliz com a situação. Foi aí que surgiu a ideia de repaginar o bufê e transformá-lo em Cozinha da Tê em Casa. Já que as festas estavam suspensas, ela levaria sua famosa feijoada e outras delícias até a casa do cliente. A Feijuca da Tê é oferecida na versão completa, com torresmo, arroz, farofa e couve refogada; na opção vegana; e também congelada ; nesse caso, sem acompanhamento. As encomendas podem ser feitas até a quinta-feira, e as entregas ocorrem no sábado e domingo.

Além disso, o cardápio conta com empadas e empadões, caponata, pudim de leite e pãozinho de maçã, cuja receita ela compartilha com os leitores da coluna. Tê lembra que uma vizinha, gaúcha, a ensinou a fazer os pães, mas ela acabou mudando totalmente e receita e dando o seu toque especial. ;Hoje, tem gente que me procura só para comer esses pãezinhos;, ri. A cozinheira planeja ainda ampliar o cardápio com algum outro prato quente.

Hoje, Tê está feliz porque, finalmente, voltou a trabalhar. Mas o coração anda vazio, pois não pode mais reunir a família que adotou para os almoços de fim de semana. Ela segue, porém, com a certeza de que logo tudo passará!

Serviço
Cozinha da Tê em Casa
Instagram: @cozinhadate
WhatsApp: (61) 3383-4057


Pãozinho de maçã

Para a massa
Ingredientes
  • 300g de manteiga
  • 1/3 de xícara de farinha de trigo
  • 4 xícaras de farinha de trigo
  • 2 colheres de sopa de fermento biológico para pão
  • 1/2 xícara de água morna
  • 3/4 xícara de leite escaldado
  • 1/4 de xícara de açúcar
  • 1 colher de chá de sal
  • 1 ovo batido
  • 2 gemas para pincelar
  • 1 colher de sopa de leite (para misturar na gema)

Modo de preparar
  • Com as mãos, misture a manteiga com 1/3 de xícara de farinha de trigo, formando uma bolinha. Forre com papel-alumínio e leve à geladeira por 10 minutos.
  • Amoleça o fermento em água morna e reserve.
  • Em fogo baixo, aqueça o leite com o sal e o açúcar até dissolver. Não deixe ferver. Deixe esfriar e adicione o fermento dissolvido. Misture.
  • Em uma tigela grande, coloque quatro xícaras de farinha de trigo e abra um espaço no meio. Adicione nele o ovo batido e a mistura do leite. Misture os ingredientes com a mão, amassando até ficar homogêneo.
  • Polvilhe uma bancada com farinha de trigo. Com um rolo, abra a massa na forma de um retângulo com cerca de 3cm de altura e coloque a manteiga que estava reservada na geladeir

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