Seguro-desemprego bate recorde em junho

Seguro-desemprego bate recorde em junho

Mesmo com recuo de 32% em novos pedidos, desembolsos com o benefício somam R$ 3,5 bilhões. Para analistas, números vão continuar elevados, pois retomada da economia será lenta, e a taxa de desocupação deve crescer

Marina Barbosa
postado em 10/07/2020 00:00

Mais de 2,5 milhões de brasileiros já recorreram ao seguro-desemprego na pandemia do novo coronavírus. A procura pelo benefício disparou logo no início da quarentena e alcançou o ápice em abril e maio. Em junho, houve desaceleração. Mesmo assim, o governo teve o maior desembolso mensal da história do benefício: R$ 3,5 bilhões.
De acordo com o Ministério da Economia, 635 mil trabalhadores solicitaram o seguro-desemprego no mês passado. O número foi 32% menor que o de maio, quando houve 960 mil solicitações. Mas ainda ficou 28,4% acima do registrado em junho de 2019.
Por isso, segundo especialistas, a crise causada pelo novo coronavírus segue deteriorando o mercado de trabalho brasileiro, mesmo que de forma menos intensa. Foi na pandemia, por sinal, que 65% de todos os pedidos de seguro-desemprego deste ano foram registrados. Ao todo, foram 3,95 milhões de solicitações no primeiro semestre, 14% a mais que no mesmo período do ano passado.


;A pressão inicial foi imensa, com muitas demissões. Então, era esperado uma acomodação agora que o ajuste maior já foi feito. Mas isso não significa que o cenário é positivo. A quantidade de solicitações ainda é enorme e o mercado segue se acomodando ao abalo da pandemia;, comentou o economista e professor da FEA-USP, Wilson Amorim.


;Mesmo desacelerando, os números vão continuar altos nos próximos meses. Ainda há muita incerteza sobre a economia e a retomada vai ser lenta. Então, muitas empresas podem não ter uma retomada total das suas atividades e voltar a fazer demissões;, acrescentou a economista da Coface para a América Latina, Patrícia Krause.
Ela lembrou também que, por conta desse cenário, nem todos os desempregados vão ser reintegrados ao mercado nos próximos meses. ;A taxa de desemprego vai continuar pressionada. Projeções indicam ela vai saltar dos atuais 12,9% para quase 16% neste ano;, disse.

Custo
A inclusão repentina de 2,5 milhões de trabalhadores na fila do desemprego elevou em 28% o custo do seguro. De acordo com os dados do governo, 2,69 milhões de trabalhadores receberam o benefício no mês passado, com uma parcela média de R$ 1.321,08. Por isso, o desembolso subiu para R$ 3,55 bilhões em junho, bem mais que os R$ 2,77 bilhões registrados no mês anterior. E é o maior valor da série histórica. O recorde anterior havia sido registrado em agosto de 2016: R$ 3,37 bilhões.
Economistas acreditam que o custo deve continuar alto, já que o número de pedidos de seguro-desemprego continua acima dos patamares usuais. Além disso, há estudos no governo sobre a possibilidade de prorrogar o benefício, que hoje é pago por três a cinco meses, por mais dois meses no período de calamidade pública causado pela pandemia.


O secretário de trabalho do Ministério da Economia, Bruno Bianco, já assegurou em outras situações que há recursos suficientes para o benefício no Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). O FAT destinou R$ 40 bilhões para o orçamento do seguro-desemprego neste ano. No primeiro semestre, foram usados R$ 16,8 bilhões. ;Os recursos são suficientes. Mesmo que faltasse dinheiro, o governo poderia emitir um crédito extraordinário para isso;, afirmou o economista e professor da UnB Newton Marques.


A Secretaria de Trabalho avaliou que a procura pelo seguro-desemprego seria muito maior caso o governo não tivesse permitido a realização de acordos de redução salarial ou suspensão do contrato de trabalho na pandemia por meio da Medida Provisória n; 936. De acordo com o órgão, a MP preservou 12,2 milhões de empregos em junho.

;Não existe sumir dinheiro;

A Caixa Econômica Federal (CEF) disse ontem que não é a responsável pelo ;sumiço de dinheiro" do auxílio emergencial, relatado nos últimos dias por clientes do Nubank e do PicPay. ;Não existe sumir dinheiro de conta, principalmente em uma instituição financeira de 159 anos que é a Caixa Econômica;, afirmou o vice-presidente de tecnologia do banco, Claudio Salituro.
;A Caixa não é a responsável pela custódia do dinheiro na conta de qualquer outra instituição financeira;, disse Salituro. ;Quando o dinheiro sai da Caixa e vai para alguma instituição financeira, entrou na conta do cliente, o custodiante é a empresa que recebeu o crédito;, disse.
Nubank e PicPay haviam creditado a falha a um problema de tecnologia da Caixa. As empresas disseram que o dinheiro havia sido debitado das contas dos clientes porque a Caixa havia sinalizado um depósito em duplicidade que precisava ser corrigido.
;Alguns clientes fizeram uso do mesmo código de barra e pagaram o mesmo valor. Então, a empresa foi verificar se aqueles boletos estavam em duplicidade ou não;, explicou Salituro. E emendou: ;a retirada do dinheiro ou não é facultada à Caixa;.

TCU
Ainda ontem, o Tribunal de Contas da União (TCU) rejeitou pedido do Ministério Público de Contas para que fosse suspenso o repasse do auxílio emergencial de R$ 600 até que o governo federal comprovasse a viabilidade financeira para o pagamento de novas parcelas.


O MP argumentou que a prorrogação do auxílio por mais dois meses, anunciada no mês passado, exigiria análise sobre o estágio da pandemia de covid-19 nas várias regiões do país, ;considerando a volta ao funcionamento de vários setores econômicos não essenciais;.


Dantas, porém, ressaltou que o auxílio ;é um gasto eminentemente social implementado em caráter de urgência;. Portanto, ;diante da notória necessidade de prorrogação do benefício;, pode haver ;menor rigor nas exigências para sua operacionalização;. ;Do contrário, corre-se o risco de prejudicar a própria efetividade do programa, comprometendo a sobrevivência de milhares de famílias.; (MB e Sarah Teófilo)

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