LÍBANO

Cenário de guerra

Presidente decreta estado de emergência em Beirute e promete investigação transparente. Centro da capital foi arrasado pelas explosões em armazém de nitrato de amônio. Governo ordena prisões domiciliares. Mais de 300 mil ficaram desabrigados

Correio Braziliense
postado em 05/08/2020 22:30 / atualizado em 06/08/2020 20:24
 (foto: AFP)
(foto: AFP)

» RODRIGO CRAVEIRO

O libanês Hussein Nasrallah, 31 anos, gerente de uma companhia de seguro, se impressionou ao visitar o que era o porto de Beirute até as 18h07 (hora local) de terça-feira. “Uma catástrofe. Em um raio de 10km, todos os vidros dos prédios se estilhaçaram e fachadas ficaram destruídas”, contou ao Correio. O cenário na região central da capital do Líbano, uma cidade de 2,4 milhões de habitantes, é comparado ao de pós-guerra. As duas explosões em um armazém onde havia 2.750t de nitrato de amônio — composto químico usado em fertilizantes e explosivos — e a onda de choque produziram uma cratera de 120m de profundidade e deixaram mais de 300 mil desabrigados.
Até o fechamento desta edição, as autoridades contabilizavam 135 mortos e 5 mil feridos. Pelo menos 100 pessoas estavam desaparecidas. O governo decretou estado de emergência em Beirute durante duas semanas e ordenou a prisão domiciliar dos responsáveis pelo armazenamento do nitrato de amônio, capaz de acelerar a combustão de produtos em chamas. “A situação é apocalíptica; Beirute jamais viveu isto”, desabafou o governador, Marwan Abboud.
“Nenhuma palavra pode descrever o horror que golpeou Beirute na noite passada”, declarou o presidente libanês, Michel Aoun, ao abrir uma reunião do gabinete de emergência. A comunidade internacional se mobilizou para fornecer ajuda ao país (leia na página 21). O ministro da Informação do Líbano, Manal Abdelsamad, anunciou que o Exército ficou encarregado de fiscalizar o cumprimento das ordens de prisão domiciliar. As autoridades não divulgaram a identidade dos responsáveis pelo produto estocado no porto em condições inapropriadas desde 2014. No entanto, diretores da alfândega de libanesa chegaram a alertar sobre o risco representado pelo nitrato de amônio (leia acima). Aoun prometeu um inquérito transparente sobre a tragédia. “Estamos determinados a investigar e a revelar o que ocorreu o mais rápido possível, a fim de impor a punição aos responsáveis”, avisou, em discurso transmitido em cadeia nacional de televisão.
O premiê libanês, Hassan Diab, considerou “inadmissível” e “inaceitável” que as 2.750t de nitrato de amônio estivessem guardadas no porto, sem medidas preventivas. Ele advertiu que os responsáveis “prestarão contas” e aconselhou que as autoridades não podem permanecer em silêncio sobre o tema.

“Cidade-fantasma”

Gerente de marketing de um kartódromo em Beirute, Elie Said Rizk, 23, mora a 5km do porto. “É uma cidade destruída. Levará muito tempo para conseguirmos reconstruir Beirute. A zona central foi devastada, onde havia prédios e lojas de grife, como Rolex e Kenzo. O prédio do Parlamento também ficou destruído”, relatou ao Correio, por telefone. Segundo ele, não há eletricidade nem fornecimento de água em parte da capital. “Temos contado com a ajuda de voluntários para distribuírem água e para garantirem o funcionamento do Hospital Universitário St. George, por meio de geradores. Beirute é como se fosse uma cidade-fantasma”, comparou. Os hospitais estão saturados e, até ontem, ainda eram procurados por moradores feridos (leia Depoimento).
Elie estava em casa, na companhia da mãe e da irmã, e filmou o momento da segunda explosão. “Houve um estrondo menor, com muita fumaça. A coluna de fumaça aumentou e passamos a escutar o barulho de fogos de artifício. Então, sentimos um terremoto que durou entre 2 e 3 minutos. Uns cinco minutos depois ocorreu a grande explosão. Fomos impactados pela onda de choque poderosa, que se parecia com um cogumelo”, disse. A percepção inicial dele era de que se tratava de um ataque com mísseis. “Foi uma experiência assustadora.”
Por sua vez, o jornalista independente Habib Battah — fundador do site BeirutReport.com — disse ter visto, ontem, muitas pessoas tentando remover o vidro que estourou das janelas. “As ruas estão repletas de destroços. Carros foram esmagados pelos prédios. Muitas construções antigas, localizadas na região portuária, vieram abaixo. As pessoas perderam tudo o que tinham e se preguntam quem vai pagar por isso, pois o nosso governo está falido”, afirmou à reportagem. “As pessoas precisarão de ajuda para reconstruir suas vidas. Espero que haja algum tipo de justiça. Este problema é sistêmico em meu país. Não temos infraestrutura para armazenar esse material nem regulações rígidas ou inspeções. Ainda que alguns indivíduos sejam punidos, o sistema permanecerá.”

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