Líbano

Invasão a ministérios

Centenas de manifestantes depredam a sede da chancelaria e das pastas de Energia e Comércio. Um policial é morto durante confrontos em Beirute. Três políticos renunciam para "construir um novo país"

Rodrigo Craveiro
postado em 08/08/2020 21:23
 (foto: AFP)
(foto: AFP)

Aos gritos de “F..., Michel Aoun (presidente do país)” e “Terrorista, terrorista, Hezbollah é terrorista”, manifestantes ocuparam e depredaram prédios do governo, como os ministérios das Relações Exteriores, do Comércio e da Energia. O quartel-general da Associação de Bancos também foi vandalizado. Depois das explosões de terça-feira, que mataram pelo menos 158 pessoas, feriram 6 mil e deixaram 300 mil desabrigados, a revolta em Beirute atingiu, ontem, o ponto mais crítico. Os ativistas chegaram a instalar “forcas” na Praça dos Mártires e a usar fotos em tamanho real para simular as execuções de Aoun; do xeque Hassan Nasrallah, secretário-geral do movimento xiita Hezbollah; e de Nabih Berry, presidente do Parlamento. O primeiro-ministro libanês, Hassan Diab, anunciou que irá propor eleições parlamentares antecipadas — segundo ele, a medida pode “permitir a saída da crise estrutural”. “Peço a todos os partidos políticos que cheguem a um acordo sobre a próxima etapa. (…) Estou disposto a seguir assumindo minhas responsabilidades durante dois meses, até que entrem em acordo”, declarou.

Horas depois de 200 manifestantes tomarem à força a sede da chancelaria libanesa e proclamarem o local “sede central da revolução”, as forças de segurança conseguiram retomar o controle do prédio, em uma ação que contou com balas de borracha, cassetetes e gás lacrimogêneo. Por meio do Twitter, a polícia afirmou que um agente morreu durante os confrontos, depois de um ataque ao Hotel LeGray, enquanto ajudava civis presos no prédio. Pelo menos 32 manifestantes ficaram feridos e deram entrada em hospitais.

“As pessoas estão revoltadas, exigem a renúncia de todas as autoridades, incluindo o presidente. Elas querem a instalação de um governo transitório independente e a antecipação das eleições”, disse ao Correio Serge, um dos ativistas que preferiu não ter o sobrenome revelado. “As eleições propostas por Diab podem ser o começo da mudança. Uma votação significaria novos líderes, um novo governo e um novo presidente.”

Chadi, outro manifestante, compara a situação no Líbano a quase uma zona de guerra e culpa os governantes pelas explosões de terça-feira. “Casas foram destruídas. As autoridades recusam-se a receber ajuda externa e ainda permanecem coladas a seus assentos. O Hezbollah, uma organização terrorista, submete o governo e controla o porto (agora destruído), o aeroporto e as fronteiras. É o principal partido responsável pelo caos e pelos políticos corruptos. Somos um povo livre, vamos levantar Beirute das cinzas”, comentou. “Queremos que o governo e o Parlamento renunciem e que o Hezbollah se desarme.” Segundo a agência France-Presse, Samy Gemayel, líder do partido Kataeb, e dois deputados da mesma legenda entregaram os cargos, sob a justificativa de que chegou a hora de construir “um novo Líbano”.

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