Rússia lança Sputnik V e derrapa, dizem cientistas

Vacina contra a covid-19 é a primeira registrada no mundo para uso amplo, mas criadores não divulgam os resultados dos testes com animais e humanos. Especialistas recebem anúncio com desconfiança e temem que iniciativa atrapalhe o combate à pandemia

Correio Braziliense
postado em 11/08/2020 22:58
 (foto: AFP)
(foto: AFP)

» Paloma Oliveto

Seis meses depois de a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretar a pandemia da covid-19, a Rússia é o primeiro país a registrar, para uso amplo, uma vacina contra a doença que já matou 737 mil pessoas em todo o planeta. Em meio a uma corrida de diferentes países para lançar um imunizante eficaz, a substância, batizada de Sputnik V, é uma referência ao pioneirismo da ex-União Soviética, que enviou ao espaço um satélite não tripulado em 1957, em plena Guerra Fria.
Apesar da necessidade de se ter uma vacina contra a doença, a comunidade científica teme as consequências de imunizar a população com uma substância que não chegou ainda à fase três de testes — quando é aplicada em um número grande de pessoas. Além disso, a equipe que desenvolveu a Sputnik V não divulgou dados científicos sobre os estudos pré-clínicos, realizados em animais, ou clínicos, em humanos. Uma das principais publicações científicas do mundo, a revista Nature, após consultar estudiosos da área, avalia que a fórmula desperta preocupação quanto à segurança.
A OMS, que já havia se pronunciado, há duas semanas, sobre a necessidade de mais estudos antes do registro de uma vacina, voltou a se posicionar ontem, em uma videoconferência de imprensa. “Estamos em contato estreito com os russos, e as discussões continuam. A pré-qualificação de qualquer vacina passa por procedimentos de segurança rigorosos”, afirmou Tarik Jasarevic, porta-voz da organização.
O presidente Vladimir Putin, que fez o anúncio sobre o registro da vacina, acusou o Ocidente de questionar a imunização desenvolvida pelo Centro de Pesquisas em Epidemiologia e Microbiologia Nikolai Gamaleya, do Ministério da Defesa. O governante, inclusive, disse que uma das filhas já foi vacinada. Embora, segundo a OMS, a Sputnik V esteja ainda na fase 1, quando são realizados testes de segurança em um pequeno número de pacientes, Putin afirmou que hoje será iniciado o estudo de fase 3. Durante a pandemia, é comum que as pesquisas sejam realizadas em fases simultâneas, para acelerar o desenvolvimento. Contudo, nenhuma delas foi registrada para uso amplo em qualquer parte do mundo.
Atualmente, há 26 vacinas listadas pela OMS como candidatas ao combate à covid-19. Dessas, cinco se encontram na fase 3, sendo que duas delas, a da Universidade de Oxford e a do laboratório chinês Sinovac, estão em testes no Brasil. As outras são a do laboratório alemão BioNTech em parceria com a Pfizer, a da companhia de biotecnologia norte-americana Moderna, e a do laboratório chinês Sinopharm. A maioria das outras substâncias está na fase 1. Putin afirmou que, na Rússia, a Sputnik V começará a ser aplicada em médicos e professores ainda neste mês. O restante da população deverá ser imunizado em 1º de janeiro de 2021.
“Sei que (a vacina) é bastante eficaz, que dá uma imunidade duradoura”, afirmou Putin, em uma videoconferência com ministros do governo. “Uma das minhas filhas tomou a vacina. Nesse sentido, ela foi parte do experimento”, destacou o governante. De acordo com ele, após a segunda dose, a filha teve “um pouco de febre e nada mais”. A Rússia garantiu estar pronta para iniciar a produção de 500 milhões de doses anuais em cinco países, incluindo o Brasil (leia mais na página 6).

Danos “irreparáveis”

A vacina — que, supostamente, fornecerá imunidade por dois anos, apesar da falta de estudos científicos que comprovem essa afirmação — é fabricada com uma técnica em que um adenovírus inativo é usado para transportar sequências genéticas ao organismo. Ao reconhecer importantes estruturas do Sars-CoV-2, o sistema imunológico desenvolve anticorpos contra ele. A grande preocupação dos cientistas é que a Sputnik V começou a ser testada quanto à segurança há apenas dois meses. Nenhum dado sobre tolerância e eficácia foi dividido com a comunidade científica — ao contrário dos outros desenvolvedores de vacinas contra covid-19, que vêm publicando sistematicamente os resultados de cada fase de estudo.
“Essa é uma decisão imprudente e tola”, afirma François Balloux, geneticista da Universidade College de Londres. “A vacinação em massa com uma substância ainda em teste é antiética. Qualquer problema com a campanha de vacinação russa seria desastroso tanto por seus efeitos negativos na saúde, mas também porque atrasaria ainda mais a aceitação de vacinas pela população”, destaca. Em entrevista à agência France-Presse (AFP), Danny Altmann, infectologista da mesma instituição, afirmou que “os danos colaterais de qualquer vacina que não seja segura e eficaz podem ampliar os problemas atuais de maneira irreparável”.
O infectologista e diretor científico da Sociedade de Infectologia do DF, David Urbaez, considerou temerário o anúncio do registro da vacina russa para imunização em massa. “Pularam todas as etapas. Não fizeram a fase 2, não chegaram à 3. E na 3, ainda são necessários vários parâmetros: se uma pessoa imunizada não transmite a doença, se não pega, se há redução no número de internações e de mortes. Vários parâmetros clínicos e epidemiológicos antes que possa ser registrado pelos órgãos reguladores”, destaca. “É um absurdo dizerem que vai funcionar e que vai funcionar em massa”, critica.
Urbaez afirma que a população será cobaia. Ele lembra que, mesmo substâncias desenvolvidas dentro do rigor científico, podem ter efeitos colaterais graves — caso recente da vacina contra dengue, que passou por todas as etapas, mas que teve a indicação alterada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ao hiperestimular o sistema imunológico em quem nunca teve contato com a doença. Assim como o colega britânico, o infectologista teme que, no caso de se mostrar perigosa, a substância russa dê munição ao discurso do movimento antivacina, já amplificado em boa parte do mundo.

Exames criados na USP podem melhorar a testagem

 (foto: Bertrand Guay/AFP)
crédito: Bertrand Guay/AFP

Dois testes para a covid-19 desenvolvidos pelo Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) podem reduzir o tempo de resultado e o custo dos exames, aumentando o potencial de testagem no país. Os métodos diagnósticos já tiveram a eficácia comprovada e estão prontos para uso, segundo os cientistas responsáveis.
Testes rápidos e confiáveis podem ajudar a frear a pandemia provocada pelo Sars-CoV-2, pois quanto mais rápida a detecção da doença, mais cedo uma pessoa infectada é isolada, reduzindo o potencial de contágio. De acordo com o ICB-USP, os exames poderão ser realizados em cidades de pequeno e médio porte — que, muitas vezes, não têm acesso ao PCR, considerado o padrão ouro para a identificação do vírus.
Além do PCR, realizado por meio da análise das secreções das vias respiratórias, os pesquisadores do ICB-USP desenvolveram um teste sorológico, baseado do método ELISA, que detecta se a pessoa já teve contato com o Sars-CoV-2. Os estudos foram conduzidos pelo virologista Edison Luiz Durigon, coordenador do Laboratório de Virologia Clínica e Molecular do instituto.

Reagentes nacionais

Os pesquisadores destacam que o PCR do ICB poderá ser feito com um equipamento facilmente encontrado em universidades, hospitais e laboratórios. Como os reagentes utilizados são produzidos no Brasil, o custo do teste fica bastante reduzido (R$ 15, contra R$ 80). O ELISA, que detecta, no sangue, os anticorpos IgA, IgM e IgG para descobrir se o paciente está ou já esteve infectado pelo coronavírus — inclusive em casos assintomáticos — também ficará significativamente mais barato: R$ 20, comparado aos R$ 500 cobrados em laboratórios particulares.
Segundo os pesquisadores da USP, um laboratório equipado para o PCR do ICB pode fazer cerca de 100 testes por dia, e 500, no caso do ELISA. “O PCR convencional é uma tecnologia implantada há mais de 20 anos. Hospitais e universidades do mundo todo já têm acesso a ela. A produção das proteínas para o ELISA também não é cara e pode ser realizada em qualquer país. Os dois métodos que desenvolvemos podem ser usados facilmente em países da África, da América do Sul ou do Caribe”, afirmou, por meio de nota, o diretor do ICB, Luís Carlos de Souza Ferreira. (PO)

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