Tortura, medo e resistência tomam conta das ruas de Minsk, na Bielorússia

Três pessoas morrem e mais de 7 mil são detidas durante repressão a protestos pacíficos contra a reeleição de Lukashenko, no poder há 26 anos. Fábricas realizam greve, e União Europeia impõe sanções. Ex-presa política relata horror ao Correio

Rodrigo Craveiro
postado em 15/08/2020 07:00
 (foto: AFP / Sergei GAPON)
(foto: AFP / Sergei GAPON)

Os policiais que guardavam o prédio do Parlamento baixaram os escudos, enquanto as mulheres correram para abraçá-los e beijá-los. Algumas delas depositaram flores brancas aos pés de agentes equipados para o combate, no centro de Minsk, capital da Bielorrússia. Horas antes, mais de mil cidadãos detidos em quatro dias de convulsão social saíram da prisão, carregando histórias de tortura e abusos. As manifestações contra a eleição do autocrata Alexander Lukashenko, no poder desde 1994, ganharam a adesão dos operários.

Centenas de funcionários de fábricas de tratores e automóveis iniciaram uma greve para denunciar a repressão cometida pelas forças do governo. Os trabalhadores cruzaram os braços nos pátios das indústrias MTZ (tratores) e MAZ (veículos). Em uma medida para pressionar Lukashenko a abandonar a violência e a atender às demandas das ruas, os chanceleres da União Europeia (UE) adotaram sanções contra Minsk. “A UE iniciará um processo de sanções contra os responsáveis pela violência, pelas prisões e pela fraude nas eleições”, afirmou a ministra das Relações Exteriores da Suécia, Ann Linde.

“É uma oportunidade para que os bielorrussos reconquistem a liberdade”, admitiu ao Correio Valery Kalinovsky, jornalista baseado em Minsk que se disse “chocado” com as denúncias de abusos aos direitos humanos. “As violações são tão duras como jamais nosso país viu. Centenas de ativistas foram espancados. Muitos detidos estão trancafiados em celas minúsculas, às vezes com 40 ou 50 pessoas, as chamadas ‘câmaras de tortura’”, afirmou. Segundo Kalinovsky, a solução para a crise política passa por novas eleições, monitoradas por observadores internacionais.

Kryscina Vitushka, 42, diretora de marketing de um escritório de advocacia em Minsk, e o marido, Andrek, foram presos às 22h (16h em Brasília) de segunda-feira, perto de uma delegacia. “Fomos até lá para saber sobre nosso filho, Miron, 16, que tinha sido sequestrado por homens armados. Além de nós, eles detiveram 15 pessoas que também buscavam suas crianças roubadas”, relatou ao Correio. O casal foi espancado e forçado a entrar em um caminhão usado pela polícia para transportar criminosos. “Na prisão, não nos explicaram o motivo da detenção, nem os crimes dos quais fomos acusados. Por três dias, não recebemos comida. Tenho diabetes tipo 1 e fiquei sem o remédio que tomo diariamente para permanecer viva.”

Ela disse que ambos foram colocados em celas de 10 metros quadrados com 55 pessoas. “Os policiais nos despiram na frente dos outros e espancaram os homens violentamente. Eles nunca apagavam as luzes da cela e forçavam a privação de sono. Não podíamos beber água. Nossos parentes não foram informados sobre onde estávamos.”

Membro da diretoria do Centro de Direitos Humanos Viasna (em Minsk), Valiantsin Stefanovic contou ao Correio que a policia tem atacado, “de forma brutal”, manifestações pacíficas. “Estão usando armas contra civis, como balas de borracha, gás lacriomogêneo e bombas de efeito moral. Mais de 7 mil pessoas foram detidas em quatro dias de protestos”, disse. Desde quarta-feira, as mulheres participam dos protestos em Minsk e no interior. “Elas se vestiram de branco”, comentou.

“Fui atingido com muita força na cabeça (...), minhas costas ficaram cheias de hematomas depois de apanhar com cassetete (...), queimaram minhas mãos com cigarro”, disse à agência France-Presse Maxim Dovjenko, 25 anos. A ONG Anistia Internacional denunciou que várias mulheres foram obrigadas a ficar de quatro, completamente nuas, para serem espancadas com cassetetes, na prisão.

Opositora convoca protestos

Svetlana Tikhanovskaya, líder da oposição e candidata a presidente derrotada por Alexander Lukashenko nas eleições de 9 de agosto, falou pela primeira vez a partir do exílio, na Lituânia. Por meio de um vídeo on-line, ela convocou um fim de semana com manifestações “pacíficas” em toda a Bielorrússia. “Peço a todos os prefeitos que organizem manifestações pacíficas em todas as cidades em 15 e 16 de agosto”, declarou a novata política de 37 anos. Svetlana considerou a situação “crítica” e exortou o governo a parar com a repressão e a adotar o diálogo. “Os bielorrussos nunca mais vão querer viver sob (este)
poder”, insistiu.

» Vozes de Minsk

Valiantsin Stefanovic, membro da diretoria do Centro de Diretos Humanos Viasna
“Estamos coletando testemunhos sobre tortura. Ouvi histórias brutais sobre como torturaram os manifestantes. Houve relatos de violência sexual. O Estado não quer investigar esses crimes. Muitas pessoas estão hospitalizadas.”

Valery Kalinovsky, jornalista da Rádio Free Europe
“Muitas fábricas entraram em greve. Os trabalhadores exigem mudanças políticas, eleições livres e a renúncia de Lukashenko. Eles organizaram comitês de paralisação e manifestações
em Minsk. Foram à sede do governo, mas ninguém falou com eles. Os protestos se espalharam por toda a Bielorrússia e tomaram
as cidades pequenas.”

Kryscina Vitushka, 42, diretora de marketing de um escritório de advocacia, ex-presa política, vítima de tortura
“Dezenas de fábricas aderiram à greve, exigindo eleições livres, além da libertação de presos políticos. A cada noite, as pessoas têm marchado contra a violência e em prol da democracia. Pessoas de todas as profissões, níveis de renda, fés... Os bielorrusssos se ajudam. Voluntários dão comida e usam os carros para levar ativistas soltos até suas casas.”

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