Corticosteroide reduz mortes por covid-19

Conjunto de pequisas científicas, incluindo um trabalho brasileiro, demonstra que a administração do remédio diminui o tempo de internação e de uso de respirador artificial em pacientes com quadros graves da doença. OMS recomenda o tratamento

Paloma Oliveto
postado em 02/09/2020 23:05

 

No maior estudo já realizado sobre o efeito de corticosteroides em pacientes com covid-19, pesquisadores do mundo todo, incluindo o Brasil, confirmaram que essa classe de medicamento reduz o tempo de internação e de ventilação, além de diminuir o número de óbitos. Com os resultados, publicados em quatro artigos na revista da Associação Médica Norte-Americana, a Jama, a Organização Mundial da Saúde (OMS), que coordenou os trabalhos, atualizou as diretrizes sobre o tratamento da doença.
Corticosteroides são remédios anti-inflamatórios e moduladores do sistema imunológico, por isso, atacam a covid-19 em duas frentes. Reduzem as inflamações causadas pela reação exagerada de anticorpos e de células de defesa, ao mesmo tempo em que trabalham para normalizar essa resposta. Esses efeitos estão associados à gravidade da doença, levando à síndrome do desconforto respiratório, e são causados pela chamada “tempestade de citocinas”, uma produção além do normal de substâncias de combate ao patógeno invasor que acaba causando danos a vários órgãos, incluindo os pulmões.
Em março, pesquisadores britânicos lançaram um estudo, chamado Recovery, com objetivo de avaliar diversas drogas já existentes que poderiam ser um tratamento em potencial para a covid-19. Entre elas, a dexametasona, um corticosteroide de baixo custo, usado por pacientes de doenças autoimunes, quando a reação do sistema imunológico a um patógeno ou a um alérgeno provoca doenças como asma e artrite reumatoide. Os primeiros resultados robustos foram publicados em meados de junho, acompanhados de uma boa reação da comunidade médica.
“A dexametasona foi a primeira droga que demonstrou melhorar a sobrevida de pacientes com covid-19. O benefício de sobrevida foi claro e grande nos pacientes que estavam doentes o suficiente para necessitar de tratamento com oxigênio”, observa Peter Horby, professor de doenças infecciosas da Universidade de Oxford e um dos líderes do estudo, que foi feito com mais de 6 mil pessoas na Inglaterra. A publicação dos dados estimulou centros clínicos de todo o mundo a adotarem essa droga no tratamento de pacientes graves e fez com que a OMS pedisse um aumento na produção global do remédio.
Por isso, o resultado das quatro meta-análises divulgadas agora era esperado com grande expectativa pela comunidade científica. Além da dexametasona, os testes avaliaram a eficácia de outro tipo de corticosteroide, a hidrocortisona e a metilprednisolona, que são menos potentes do que a primeira, mas igualmente benéficas no tratamento da covid-19, segundo os artigos publicados na Jama.

Coalizão nacional

Um dos artigos é assinado por uma equipe brasileira e inclui dados de um protocolo de pesquisas realizado no país, a Coalizão Brasil Covid, formada por vários hospitais e que avalia a eficácia de medicamentos no tratamento da covid-19. O primeiro estudo do grupo foi feito com a hidroxicloroquina e concluiu que a droga não traz benefícios nesse caso.
No artigo divulgado ontem, a equipe relata os resultados da Coalizão III, iniciada em abril e finalizada em julho. Os testes foram feitos com 299 pacientes com síndrome respiratória aguda grave, que precisaram de ventilação mecânica, hospitalizados em 41 unidades de terapia intensiva (UTIs). Desses, 151 receberam a dexametasona, e o restante, apenas o tratamento padrão.
Os pacientes do primeiro grupo ficaram mais tempo fora do ventilador (6,6 dias), comparados aos demais (quatro dias). Além disso, não foram observados efeitos colaterais naqueles que usaram o medicamento. Não houve diferenças estatísticas quanto à mortalidade, mas o artigo destaca que um período menor na ventilação mecânica reduz significativamente complicações que podem levar a óbito, como infecção hospitalar.
“Estamos vivendo um momento único na ciência brasileira, ajudando a trazer informações científicas que podem demonstrar a eficácia de tratamentos no combate à covid-19, como os corticoides, e trabalhando diretamente no impacto da pandemia aqui e no mundo a partir das novas diretrizes da OMS”, diz Luciano Cesar Pontes Azevedo, superintendente de Ensino do Hospital Sírio-Libanês e autor correspondente do estudo.
“O estudo Coalizão III demonstra o benefício da utilização de corticoide em pacientes com formas graves da doença, permitindo que eles ficassem menos tempo no respirador artificial”, comenta Álvaro Avezum, diretor do Centro Internacional de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e também autor do artigo. “As meta-análises da OMS utilizando dados de vários estudos, incluindo o Coalizão III, demonstram que a utilização de corticoide reduz a mortalidade nesses pacientes. Esses resultados, publicados em importante periódico científico, reforçam a importância de estudos randomizados robustos nesse cenário”, completa.
Em 12 países

Liderada pela Universidade de Bristol, na Inglaterra, a meta-análise que avaliou o impacto dos três corticosteroides na mortalidade traz resultados de sete estudos, com 1.703 pacientes graves, em 12 países, sendo que 350 doentes eram do Brasil. Os pacientes foram acompanhados por 28 dias depois do início do tratamento. Comparados ao grupo que recebeu o tratamento padrão, sem esses medicamentos, o risco de morte foi 20% menor (60% de sobreviventes, contra 68%). Em um dos artigos revisados, a queda chegou a 29%.
De acordo com o artigo, o benefício foi igual, independentemente de qual das três drogas foi usada, da idade, do sexo e do tempo de internação dos pacientes. “Nossa revisão (de estudos) é uma boa notícia no esforço para tratar a covid-19”, avalia, em nota, Jonathan Sterne, epidemiologista da Universidade de Bristol e primeiro autor do artigo. “Esteroides são medicamentos baratos e prontamente disponíveis, e nossa análise confirmou que eles são eficazes na redução de mortes entre as pessoas mais gravemente afetadas pela covid-19”, comenta.

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