ALEMANHA

Parceria com russos em debate

Chanceler Angela Merkel sofre pressões internas para rever política de cooperação após a confirmação de que Alexei Navalny, crítico ao Kremlin, foi envenenado na Sibéria. Moscou pede ao Ocidente que evite julgamentos precipitados

Correio Braziliense
Correio Braziliense
postado em 03/09/2020 21:57


A comprovação por especialistas alemães de que o opositor russo Alexei Navalny foi envenenado na Sibéria pode ter reflexos na política de parceria entre Berlim e Moscou.A chanceler Angela Merkel, que anteontem aumentou o tom em relação ao presidente Vladimir Putin, está sendo fortemente pressionada, inclusive entre correligionários, a rever as relações com a Rússia. Além da situação de Navalny, que está sendo tratado no país, pesam o assassinato de um georgiano em Berlim e um episódio de ataque cibernético ao Parlamento alemão.
“A Rússia conduz uma política desumana e desdenhosa”, opinou, em uma rede social, Norbert Röttgen, presidente do Comitê de Relações Exteriores do Bundestag e candidato a suceder Merkel como chefe da União Democrática Cristã (CDU). “Precisamos de uma resposta europeia forte”, acrescentou.
Röttgen conclamou a União Europeia a abandonar o polêmico projeto do gasoduto NordStream2, que deve abastecer a Europa e especialmente a Alemanha com gás russo. O projeto multibilionário, no qual o ex-chanceler Gerhard Schröder está altamente envolvido, foi paralisado devido a ameaças de sanções americanas. Na segunda-feira, dois dias antes da confirmação do envenenamento de Navalny, o chefe da diplomacia alemã, Heiko Maas, observou “nuvens escuras” pairando sobre a relação entre os dois países.
Para o jornal Süddeutsche Zeitung, o caso Navalny, que se sentiu mal num voo entre a Sibéria e Moscou, deve marcar uma fissura na política externa europeia. Os líderes alemães e russos há muito mantêm uma relação ambivalente, marcada pela desconfiança, especialmente por parte de uma chanceler que cresceu atrás da Cortina de Ferro, mas também por um bom conhecimento mútuo.
Angela Merkel e Vladimir Putin são veteranos da cena internacional, com um domínio perfeito da língua do outro — o líder russo viveu na RDA comunista quando oficiou na KGB. Porém, a lista de disputas tem crescido nos últimos anos.

Diálogo

Ontem, o Kremlin destacou não haver razão para acusar o Estado russo de envenenar Navalny e pediu aos países ocidentais que evitem “julgamentos precipitados”. O porta-voz Dmitri Peskov enfatizou que Moscou está aberto ao diálogo com a Alemanha.
Segundo o Exército alemão, os exames realizados no opositor russo, forneceram “prova inequívoca” do uso de um agente químico nervoso do tipo Novichok. Desenvolvido pelos soviéticos na década de 1970 como uma arma química, a substância é capaz de penetrar nos poros da pele, ou no trato respiratório.
Trata-se do mesmo elemento usado contra o ex-agente duplo russo Serguei Skripal e sua filha Yulia em 2018, na Inglaterra. As autoridades britânicas responsabilizaram o Estado russo, deflagrando uma crise diplomática entre os dois países.
Dmitri Peskov insistiu, ontem, no fato de que “nenhuma substância tóxica” foi detectada pelos médicos russos, quando Alexei Navalny foi internado em um hospital siberiano no fim de agosto. “De modo geral, não acho que envenenar essa pessoa possa beneficiar alguém”, afirmou.
A divulgação do laudo do Exército da Alemanha teve impacto imediato na economia russa. Em meio a temores de novas sanções contra Moscou, o rublo despencou na quarta-feira à noite até seu nível mais baixo desde o pico da pandemia de coronavírus. A Bolsa de Valores também caiu, com o índice RTS, denominado em dólar, perdendo mais de 3% no fechamento de quarta.
“As relações da Rússia com o Ocidente foram novamente envenenadas pelo Novichok”, escreveu o jornal russo Kommersant, considerando óbvio que a União Europeia e os Estados Unidos estudarão a introdução de novas sanções contra Moscou.

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Parceria com russos em debate

Chanceler Angela Merkel sofre pressões internas para rever política de cooperação após a confirmação de que Alexei Navalny, crítico ao Kremlin, foi envenenado na Sibéria. Moscou pede ao Ocidente que evite julgamentos precipitados

Correio Braziliense
Correio Braziliense
postado em 03/09/2020 21:57


A comprovação por especialistas alemães de que o opositor russo Alexei Navalny foi envenenado na Sibéria pode ter reflexos na política de parceria entre Berlim e Moscou.A chanceler Angela Merkel, que anteontem aumentou o tom em relação ao presidente Vladimir Putin, está sendo fortemente pressionada, inclusive entre correligionários, a rever as relações com a Rússia. Além da situação de Navalny, que está sendo tratado no país, pesam o assassinato de um georgiano em Berlim e um episódio de ataque cibernético ao Parlamento alemão.
“A Rússia conduz uma política desumana e desdenhosa”, opinou, em uma rede social, Norbert Röttgen, presidente do Comitê de Relações Exteriores do Bundestag e candidato a suceder Merkel como chefe da União Democrática Cristã (CDU). “Precisamos de uma resposta europeia forte”, acrescentou.
Röttgen conclamou a União Europeia a abandonar o polêmico projeto do gasoduto NordStream2, que deve abastecer a Europa e especialmente a Alemanha com gás russo. O projeto multibilionário, no qual o ex-chanceler Gerhard Schröder está altamente envolvido, foi paralisado devido a ameaças de sanções americanas. Na segunda-feira, dois dias antes da confirmação do envenenamento de Navalny, o chefe da diplomacia alemã, Heiko Maas, observou “nuvens escuras” pairando sobre a relação entre os dois países.
Para o jornal Süddeutsche Zeitung, o caso Navalny, que se sentiu mal num voo entre a Sibéria e Moscou, deve marcar uma fissura na política externa europeia. Os líderes alemães e russos há muito mantêm uma relação ambivalente, marcada pela desconfiança, especialmente por parte de uma chanceler que cresceu atrás da Cortina de Ferro, mas também por um bom conhecimento mútuo.
Angela Merkel e Vladimir Putin são veteranos da cena internacional, com um domínio perfeito da língua do outro — o líder russo viveu na RDA comunista quando oficiou na KGB. Porém, a lista de disputas tem crescido nos últimos anos.

Diálogo

Ontem, o Kremlin destacou não haver razão para acusar o Estado russo de envenenar Navalny e pediu aos países ocidentais que evitem “julgamentos precipitados”. O porta-voz Dmitri Peskov enfatizou que Moscou está aberto ao diálogo com a Alemanha.
Segundo o Exército alemão, os exames realizados no opositor russo, forneceram “prova inequívoca” do uso de um agente químico nervoso do tipo Novichok. Desenvolvido pelos soviéticos na década de 1970 como uma arma química, a substância é capaz de penetrar nos poros da pele, ou no trato respiratório.
Trata-se do mesmo elemento usado contra o ex-agente duplo russo Serguei Skripal e sua filha Yulia em 2018, na Inglaterra. As autoridades britânicas responsabilizaram o Estado russo, deflagrando uma crise diplomática entre os dois países.
Dmitri Peskov insistiu, ontem, no fato de que “nenhuma substância tóxica” foi detectada pelos médicos russos, quando Alexei Navalny foi internado em um hospital siberiano no fim de agosto. “De modo geral, não acho que envenenar essa pessoa possa beneficiar alguém”, afirmou.
A divulgação do laudo do Exército da Alemanha teve impacto imediato na economia russa. Em meio a temores de novas sanções contra Moscou, o rublo despencou na quarta-feira à noite até seu nível mais baixo desde o pico da pandemia de coronavírus. A Bolsa de Valores também caiu, com o índice RTS, denominado em dólar, perdendo mais de 3% no fechamento de quarta.
“As relações da Rússia com o Ocidente foram novamente envenenadas pelo Novichok”, escreveu o jornal russo Kommersant, considerando óbvio que a União Europeia e os Estados Unidos estudarão a introdução de novas sanções contra Moscou.

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