ESTADOS UNIDOS

Milícias de extrema-direita alimentam-se de slogan de Trump e intensificam violência

Integrantes alimentam-se do slogan ''lei e ordem'' adotado por Donald Trump, incorporam a retórica dos republicanos e confrontam o movimento Black Lives Matter (''Vidas negras importam'')

Rodrigo Craveiro
postado em 06/09/2020 07:00
 (foto: Logan Cyrus/AFP)
(foto: Logan Cyrus/AFP)

Eles estão amparados pela Segunda Emenda da Constituição, texto que considera inalienável o direito à posse de armas. Também usam a internet para uma quase devoção a fuzis, além de se engajarem na apologia à violência e no discurso político radical. Os chamados “vigilantes” e as “milícias” voltaram às manchetes nos Estados Unidos. Em 26 de agosto, três dias depois de Jacob Blake ser baleado sete vezes nas costas pela polícia, protestos antirracismo explodiram em Kenosha (Wisconsin). Grupos armados chegaram do estado vizinho de Illinois e entraram em confronto com os ativistas do movimento Black Lives Matter (BLM, “Vidas negras importam”). Kyle Rittenhouse, 17 anos, disparou um AR-15 contra os manifestantes, matando dois deles e ferindo um terceiro. Ele fazia parte da milícia Guarda de Kenosha. No dia 29, um confronto entre o grupo de extrema-direita Patriot Prayer e os ativistas do BLM terminou com a morte de Aaron J. Danielson, 39, que usava um boné com a insígnia da milícia. Formadas por civis e veteranos, as facções armadas apossaram-se do slogan “lei e ordem” difundido por Donald Trump e passaram a ameaçar os negros.

Na última quinta-feira, dois membros da Milícia da Segunda Emenda 417 foram presos ao tentarem viajar do Missouri para Kenosha transportando armas. De acordo com a organização não governamental Southern Poverty Law Center, somente neste ano, as milícias foram flagradas 55 vezes em protestos organizados pelo BLM. A mesma ONG identificou 191 milícias ativas contrárias ao governo em operação nos Estados Unidos, no ano passado. Desde a ascensão de Trump ao poder, especialistas registraram um fenômeno curioso: muitos desses grupos passaram a apoiar o presidente, principalmente em relação à temática racial.

Treinamento

Cofundadora do Projeto Global contra Ódio e Extremismo, Heidi Beirich explicou ao Correio que Kyle Rittenhouse e outros extremistas de direita costumam estar fortemente armados. “Geralmente, eles se envolvem em exercícios de treinamento militar e têm um tradicional ódio pelo governo federal. Isso mudou com a chegada de Trump à Casa Branca; as milícias adoram o republicano”, comentou. Ela lembra que os integrantes de milíciais envolveram-se em graves atos de violência no passado. “Timothy McVeigh, que explodiu um prédio federal em 1995, era fã de milícias e era supremacista branco. Membros do Boogaloo Bois, outra milícia nova, participaram do assassinato de dois policiais, na Califórnia, e foram presos por tentarem detonar uma bomba em um protesto do BLM, em Las Vegas.”

Beirich disse acreditar que os milicianos são abastecidos pela retórica de Trump. “O presidente encorajou as manifestações contra o distanciamento social, entre abril e maio. Também recusou-se a condenar Kyle Rittenhouse. Além disso, os constantes apelos pela lei e pela ordem e as críticas aos protestos encorajam as milícias”, observou. A estudiosa adverte que uma ala do Partido Republicano tem apoiado a retórica de Trump e se negado a condenar a violência da extrema-direita.

Robert Futrell — professor de sociologia da Universidade de Nevada (Las Vegas) — lembra que os vigilantes (milicianos que buscam fazer justiça por conta própria) são oriundos de redes de grupos patriotas, de milícias e de organizações de supremacistas brancos. “Ao participarem de protestos contra o racismo, eles afirmam que seu papel é fazer cumprir a ordem e a lei, quando percebem que as forças policiais são incapazes de mantê-las. De muitas maneiras, eles exploram essas cenas de protestos para encenar indignação moral contra aqueles que definem como bandidos, desordeiros ou saqueadores. Isso é algo problemático pelo fato de a recente onda da mobilização de milícias ter abraçado ideias racistas, queixas anti-imigrantes ilegais e atitudes antiesquerda”, afirmou à reportagem.

Alguns aceitaram a ideia de uma guerra civil para livrar os EUA de seus principais problemas, os quais definem como negros, imigrantes ilegais e movimentos antifascismo. “Eles temem que essas categorias minem Trump e seus esforços de ‘tornar a América grande novamente’”, disse Futrell.

Segundo ele, durante o governo de Barack Obama, as milícias temiam que o Executivo interferisse na vida do cidadão, por meio da medicina socializada, do controle de armas e do limite à liberdade de expressão. “Agora, veem o presidente com um aliado e concentram sua raiva na esquerda e em comunidades vulneráveis”, disse. Em mensagens no Twitter, Trump tem apregoado a proximidade de uma guerra civil e demonstrado aval à extrema-direita. Para Futrell, são sinais profundamente impactantes para as milícias, com efeito de encorajamento de suas ações.

Casa Branca ordena fim de treinamento antirracismo

 (foto: David Longstreath/AFP)
crédito: David Longstreath/AFP

Na manhã de ontem, Donald Trump disparou mais de 20 tuítes e retuítes sobre o racismo. Um deles chama a teoria crítica da raça de “a maior ameaça à civilização ocidental”. “Não mais!”, escreveu. Horas depois, ordenou que agências governamentais encerrem as sessões de treinamento antirracismo para funcionários federais, sob a alegação de que constituem uma “propaganda divisiva e não americana”. Em memorando, o Gabinete de Administração e Orçamento da Casa Branca citou relatos de que “funcionários do Poder Executivo foram obrigados a participar de treinamentos nos quais são informados de que ‘virtualmente todos os brancos contribuem para o racismo’ ou onde são obrigados a dizer que ‘se beneficiam do racismo’”. E acrescentou: “De acordo com a imprensa, em alguns casos, esses treinamentos afirmam que há racismo embutido na crença de que a América é a terra das oportunidades ou na crença de que a pessoa mais qualificada deve conseguir um emprego”.

Pressão pela demissão de repórter

O presidente Donald Trump pediu à emissora Fox News que demita sua repórter que cobre temas de segurança nacional, depois de ela confirmar afirmações do republicano depreciando os veteranos de guerra dos EUA. Trump publicou, na sexta-feira à noite, uma mensagem de repúdio no Twitter, afirmando que “Jennifer Griffin deveria ser demitida por este tipo de matéria. Ela nunca nos ligou para pedir que comentássemos”. Griffin informou que dois ex-funcionários do governo revelaram que o presidente “não queria levar adiante uma cerimônia para homenagear os mortos de guerra americanos” no cemitério de Aisne-Marne, nos arredores de Paris. O líder é objeto de críticas desde que a revista The Atlantic publicou que ele teria chamado de “perdedores” e “burros” os soldados americanos mortos na Primeira Guerra Mundial, durante uma visita à França, em 2018.

PONTOS DE VISTA

Por Heidi Beirich

Mais violência a caminho

“Estamos em um momento muito tenso, com atos de violência da extrema-direita. Tivemos ataques em massa, como em El Paso, no Texas (em 3 de agosto de 2019, o atirador Patrick Crusius matou 23 pessoas em um Walmart e divulgou um manifesto racista), e em Pittsburgh (em 27 de outubro de 2018, Robert Bowers invadiu uma sinagoga e executou 11). Eu espero mais. O movimento da milícia não era necessariamente racista. Nos últimos anos, ele tem se tornado mais antimuçulmano e anti-imigrante, inspirado por Donald Trump. As milícias estão se tornando racistas.”

Cofundadora do Projeto Global contra Ódio e Extremismo


Por Robert Futrell

Ameaça e intimidação

“Temos de levar as milícias a sério. Não importa o número de membros, elas estão armadas e prontas para a ação. Sua presença amplifica tensões, e seus integrantes sabem disso. Elas afirmam que existem para proteger as propriedades e manter a ordem. Com frequência, instigam a violência. As milícias representam ameaça a cidadãos que veem como um problema a ser enfrentado, por meio da intimidação. Timothy McVeigh, que conduziu o mais destrutivo ato terrorista doméstico dos EUA, em 1996, foi inspirado pelas milícias e pela supremacia branca.”

Professor de sociologia da Universidade de Nevada

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