Conexão diplomática

por Silvio Queiroz silvioqueiroz.df@gmail.com

Correio Braziliense
Correio Braziliense
postado em 11/09/2020 22:52


Inquietações em tempos de pandemia

Três vizinhos de porta viveram uma semana de tensões sociais e políticas, com manifestações de rua e crises palacianas, depois de um período relativamente longo em que a disparada do coronavírus dominou o noticiário internacional praticamente sem concorrência. Argentina, Colômbia e Peru enfrentaram a irrupção de turbulências com dinâmicas próprias, mas em todas elas a pandemia esteve à vista — no mínimo, como pano de fundo.

A relativa letargia foi perturbada em um cenário regional substancialmente diferente do que se apresentava em 2019, quando a balança do poder na América do Sul oscilou pesadamente para a direita. Venezuela e Bolívia, os últimos moicanos da safra de governos da esquerda nacionalista que deram o tom nas primeiras décadas do século, viveram crises agudas. Evo Morales teve a reeleição anulada. Nicolás Maduro, o herdeiro de Hugo Chávez, segue no palácio, mas sem reconhecimento da maioria dos vizinhos, a começar pelo Brasil.

O fator que se realça nesse 2020 insólito e único é a ausência de mecanismos de integração regional capazes de amortecer uma crise de maior vulto. No primeiro ano de mandato de Jair Bolsonaro, o Brasil foi decisivo para desarticular, na prática, a Unasul, cria da trinca Chávez-Lula-Néstor Kirchner. A ação de grupo foi crucial para contornar impasses na Bolívia e no Equador, além da própria Venezuela.

De braços com os colegas da Colômbia, Ivan Duque, e do Chile, Sebastián Piñera, ambos de direita, Bolsonaro costurou a formação do ProSul. Segundo a linha-mestra da política externa traçada a quatro mãos com o chanceler Ernesto Araújo, o novo bloco exclui os governos bolivarianos. Chegou a ensaiar, sem sucesso, a substituição de Maduro pelo oposicionista Juan Guaidó, autoproclamado presidente interino.

Com o ímpeto inicial esmaecido, o ProSul se vê, agora, colocado a escanteio pela pandemia.

Cerco domiciliar

O peronista Alberto Fernández emergiu em 2019 como principal contraponto ao eixo direitista encabeçado pelo Planalto. Destacou-se dos vizinhos pelo rigor com que implantou a quarentena para deter a covid, com resultados substancialmente melhores. Mas, na quinta-feira, se viu forçado a ceder diante do movimento de policiais que reclamavam reajuste salarial (foto). Cercado na residência oficial, Fernández autorizou o aumento e a contratação de mais efetivos.

Contornou o perigo imediato, mas corre o risco de se ver diante de reivindicações semelhantes de outras categorias profissionais. O peso econômico da crise sanitária fala com sotaque singular a um governo que recolocou a esquerda na Casa Rosada justamente como resposta à política de austeridade seguida pelo antecessor, Mauricio Macri — que foi publicamente apoiado por Bolsonaro na tentativa frustrada de se reeleger.

Bogotá em convulsão

A política de combate ao coronavírus está na origem direta da explosão de violência que irrompeu na quarta-feira na capital da Colômbia. Em dias nos quais as redes sociais tornaram-se par constante do cidadão, o vídeo que mostrou um advogado sendo agredido por policiais serviu como estopim. Javier Ordóñez, 46 anos, estava bebendo na rua com amigos, na madrugada, em desacato às normas de isolamento social adotadas no país. Na abordagem, os agentes o atingiram repetidamente com armas de choque (tasers), ignorando os apelos para que parassem. O civil morreu e, ao longo do dia, moradores revoltados ergueram barricadas e confrontaram a tropa de choque nos subúrbios de Bogotá, com saldo de cinco mortos.

O episódio não colocou imediatamente em xeque o presidente direitista, mas soou como alerta para o risco das tensões acumuladas pelo confinamento. Embora tenha basicamente desmontado o conflito de meio século com as guerrilhas esquerdistas, a Colômbia segue às voltas com o crime organizado e o narcotráfico. E está longe de saldar a conta de uma desigualdade social histórica e profunda.

Próxima vítima

No Peru, a crise política desenha-se como uma espécie de remontagem para um roteiro que não sai de cartaz praticamente desde a virada do século. O protagonista, agora, é o presidente Martín Vizcarra, que assumiu em 2018 no lugar de Pedro Pablo Kuczynski, levado ao impeachment por corrupção. Desde a renúncia e o exílio de Alberto Fujimori, em 2000, todos os presidentes peruanos foram investigados por escândalos de enriquecimento ilícito, suborno, tráfico de influência e outras irregularidades cometidas no cargo. Um deles, Alan García, já como ex, suicidou-se quando a polícia bateu à porta com um mandado de prisão. Alejandro Toledo refugiou-se nos EUA. Ollanta Humala, militar chavista que no poder fez conversão à direita, chegou a ser preso preventivamente, com a mulher. PPK, como é conhecido o último mandatário eleito, tornou-se alvo da versão local da Lava-Jato: recebeu da empreiteira brasileira Odebrecht contribuições ilegais para a campanha.

Vizcarra, sob críticas pela dimensão da pandemia no país, aparece em gravações nas quais instrui duas assessoras a mentir ao Congresso sobre as relações do palácio com um cantor de fama parca, contratado como apresentador de eventos oficiais. O artista teria recebido pagamentos indevidos, em plena emergência sanitária, e o presidente está na berlinda por tentar obstruir as investigações.

 

 

 

 

 

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