ORIENTE MÉDIO

Por trás de acordos históricos, Trump pretende isolar ainda mais o Irã no Oriente Médio

Trump negocia acordos históricos entre Israel, Emirados Árabes Unidos e Bahrein, e prevê que cinco nações seguirão exemplo. Manobra visa isolar Teerã e recebe críticas dos palestinos. Mahmud Abbas alerta que paz depende do fim da ocupação

Rodrigo Craveiro
postado em 16/09/2020 06:00
 (crédito: ORIENTEMEDIO)
(crédito: ORIENTEMEDIO)

Por trás do nome simbólico e da retórica de paz no Oriente Médio, está um plano para ampliar o isolacionismo do Irã na região. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mediou a assinatura dos chamados Acordos de Abraão, o principal pacto de paz assinado em 42 anos. Ao receber, na Casa Branca, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e os ministros das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos, Abdullah bin Zayed bin Sultan Al Nahyan, e do Bahrein, Abdullatif bin Rashid Al Zayani, Trump buscou capitalizar politicamente o evento e apresentar-se como o pacificador, a 49 dias das eleições. O republicano disse que os quatro estavam ali para “mudar o curso da história”. “Após décadas de divisão e de conflitos, marcamos o amanhecer de um novo Oriente Médio”, declarou.

“Graças à coragem dos líderes presentes, damos um grande passo rumo a um futuro no qual pessoas de todas as fés e origens possam viver, juntas, em paz e prosperidade”, acrescentou. Apenas Egito (em 1979) e Jordânia (em 1994) tinham normalizado relações diplomáticas com Israel.
Além de Emirados Árabes e Bahrein — inimigos do Irã —, Trump garante que “mais cinco ou seis países” em breve assinarão acordos com o Estado judeu. “Temos pelo menos cinco ou seis países que vão se juntar a nós muito em breve, já estamos conversando com eles”, afirmou, sem citar nomes.


Netanyahu enviou uma mensagem aos demais países árabes do Oriente Médio, ao sinalizar a intenção de ampliar a frente contra o Irã. “A todos os amigos de Israel no Oriente Médio, aqueles que estão conosco hoje e aqueles que unir-se-ão a nós amanhã, eu digo, ‘As-salamu alaykum’ (‘Que a paz esteja sobre vós’, em árabe). ‘Shalom’ (‘Paz’, em hebraico)”, disse o premiê, que não economizou na dose de otimismo. “As bênçãos da paz que fazemos hoje serão enormes. (Isso) Pode acanar com o conflito árabe-israelense de uma vez por todas.”


Segundo o site de notícias Bloomberg, Lolwah Al-Khater, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Catar, descartou que Doha siga os exemplos de Bahrein e dos Emirados Árabes Unidos — com quem mantém uma relação conflituosa. “Não achamos que a normalização foi o cerne deste conflito, e, portanto, não pode ser a resposta”, disse Lolwah. “O cerne do conflito são as drásticas condições às quais os palestinos vivem, sem um país e sob ocupação militar.”
Sem segurança

Logo após a assinatura dos Acordos de Abraão, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, advertiu que “não haverá paz, segurança ou estabilidade para ninguém na região sem o fim da ocupação e (sem) respeito pelos plenos direitos do povo palestino”. Ibrahim Alzeben, embaixador palestino no Brasil, disse ao Correio que o Oriente Médio enfrenta “perigo sério” de confronto militar. “Os povos irmãos do Golfo Pérsico e seus recursos, tudo o que foi construído em oito décadas, com grandes esforços e sacrifícios, estarão em grave risco”, admitiu. “Os EUA pretendem isolar o Irã, deter a influência a Turquia, da Rússia e da China. Além disso, orientar a Europa a aceitar suas ambições geopolíticas. A campanha eleitoral de Trump é desastrosa para nós e para muitas outras regiões do mundo”, desabafou o diplomata. Segundo Alzeben, o presidente norte-americano usa “todos os elementos” na ambição de controlar o Golfo Pérsico. “Não tem limites para empregar todos os recursos dos países da região em seu conflito contra o Irã. Por isso, os povos árabes pagam um alto preço.”


Para o palestino Bishara Bahbah, professor da Universidade de Belém (Cisjordânia) e da Universidade de Al-Quds, não há dúvidas de que EUA, Israel, Bahrein e Emirados Árabes Unidos preocupam-se com as pretensões do Irã no Golfo, bem como por sua influência em aliados, como Iêmen, Iraque, Síria, Líbano e Gaza. “Até 1969, Teerã reivindicava o Bahrein como parte do território iraniano. É indiscutível que, agora, haverá maior coordenação em relação ao Irã. Além disso, existe o medo genuíno de que o Irã tente desenvolver capacidades nucleares. Os acordos assinados hoje (ontem), em Washington, prejudicarão significativamente as ambições iranianas”, explicou ao Correio.


Bahbah reconhece que o mundo árabe está consternado com a atual liderança palestina. “Ela carece de visão, de estratégia e de plano de ação. A Autoridade Palestina tornou-se uma subcontratada, ajudando Israel a manter a segurança na Cisjordânia. Ela se recusa a realizar eleições livres desde o fim de seu mandato, uma década atrás. O governo do Hamas, na Faixa de Gaza, é brutal e despótico”, observou. Ele disse duvidar que outras nações árabes assinem acordos com Israel, pelo menos até que haja progresso na frente palestina.

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“Esta é uma corrida para salvar a imagem e a posição de Trump e de Netanyahu, que enfrentam sérias dificuldades internas. O Bahrein e os Emirados Árabes Unidos não estão em guerra com Israel e situam-se a mais de 2 mil quilômetros de distância. A medida, além de isolar a Palestina, pressiona a região para aceitar a visão de Trump sobre o Oriente Médio. Trump pretende impor sua hegemonia em âmbito mundial.”

Ibrahim Alzeben, embaixador da Palestina no Brasil

Ataques de mísseis a partir de Gaza


Enquanto a palavra “paz” era pronunciada aos quatro ventos em Washington, o clima nos territórios palestinos era de revolta e de tensão. Dois foguetes foram disparados da Faixa de Gaza, pouco depois da assinatura dos acordos em Washington. Segundo o Exército israelense, um dos projéteis foi interceptado pelo sistema de defesa do país. O segundo caiu na cidade de Ashdod, situada entre Gaza e a cidade israelense de Tel Aviv, deixando alguns feridos levemente. Até o fechamento desta edição, nenhum movimento armado palestino tinha reivindicado a autoria dos disparos. Também ontem, houve manifestações em várias cidades palestinas em rejeição à normalização das relações, mas nenhuma delas reuniu mais de algumas centenas de pessoas, conforme observado por repórteres da agência France-Presse.

 

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