SAÚDE

Covid-19: Obesidade e diabetes favorecem as formas mais severas da doença

Cientistas americanos identificam por que diabéticos e obesos sofrem formas mais severas da doença. Bactérias que comumente vazam da microbiota desses pacientes, ao interagir com o Sars-CoV-2, podem causar uma reação inflamatória exagerada

Paloma Oliveto
postado em 17/09/2020 06:00 / atualizado em 17/09/2020 06:40
 (crédito: 
Lucas Jackson/Reuters
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(crédito: Lucas Jackson/Reuters )

De todas as comorbidades que agravam o estado de pessoas com covid-19, a obesidade e o diabetes 2 têm sido associados aos piores prognósticos. Nos Estados Unidos, por exemplo, um estudo com 2.741 hospitalizados revelou que o excesso de peso é um dos principais fatores que levam à internação e às formas severas da doença. Outro trabalho norte-americano, com 5,7 mil pacientes graves, reportou que muitos ou tinham obesidade (41%) ou diabetes (33%).

Estudos como esses estimularam profissionais do Centro Médico UT Southwestern, no Texas (EUA), a pesquisar mais aprofundadamente a relação desses distúrbios metabólicos com a severidade da covid-19. Em um artigo publicado na revista eLife, eles propõem que o quadro agravado se dá devido à interação do vírus com bactérias e produtos bacterianos que vazam do intestino, uma condição que, de acordo com os pesquisadores, é comum tanto em pacientes com obesidade quanto com diabetes 2.

Das muitas pesquisas estudadas por Philipp E. Scherer, Manasi Shah e Ilja L. Kruglikov, algumas indicam que o tecido adiposo demonstra uma alta expressão do receptor ACE2, ao qual a proteína spike do coronavírus se une para entrar no núcleo celular do hospedeiro. Isso faz das células adiposas um reservatório para o Sars-CoV-2, aumentando a carga viral da pessoa infectada.

O ACE2 encontra-se na superfície de muitas células do corpo humano e está envolvido na regulação dos volumes de fluidos, pressão sanguínea e função dos vasos sanguíneos. Os autores sustentam que uma infecção aguda viral desregula a função do receptor, incluindo um sistema chamado renina-angiostensina, uma perturbação que afeta diversos órgãos.

Os médicos do UT explicam que, desregulados, os ACE2 também podem cair na corrente sanguínea e chegar aos pulmões, onde aumentam substancialmente a concentração do Sars-CoV-2 nos tecidos desse órgão. Além disso, a elevação da expressão dos receptores em indivíduos obesos estimularia um desequilíbrio nos sinais químicos que induzem inflamação, fibrose e vazamento de vasos sanguíneos, todas essas condições com o potencial de causar um quadro de covid-19 mais grave.

No entanto, Scherer e os demais autores observam que outras condições associadas à obesidade contribuem com ainda mais força para o aumento da gravidade da doença. Um deles é um estado inflamatório geral mais elevado, que tende a acompanhar a obesidade, o que faz com que muitos tecidos — incluindo os pulmonares — respondam pior à infecção. Outro é o intestino gotejante, condição que também está normalmente presente em indivíduos obesos: nesse caso, o revestimento das células intestinais desenvolve lacunas, permitindo que pequenas quantidades do conteúdo do órgão vazem para a circulação.

“Entre esses conteúdos que vazam estão as bactérias intestinais e suas toxinas, incluindo o lipopolissacarídeo (LPS), uma proteína produzida por bactérias gram-negativas, como a Escherichia coli intestinal, que causa uma resposta inflamatória severa”, diz Scherer. Estudos demonstraram que indivíduos obesos apresentam níveis elevados desses micro-organismos e de LPS no tecido pulmonar — mesmo na ausência de infecção.

Terapias

Quando esses pacientes são infectados pelo Sars-CoV-2, a equipe do UT supõe que o vírus empurra um sistema já vulnerável ao limite. As interações entre os danos causados pelo vírus, as bactérias e as toxinas que migraram para os pulmões devido ao intestino gotejante e um estado inflamatório elevado podem levar a uma infecção mais grave do que na ausência desses fatores. “É tudo uma questão de o sistema já estar preparado”, diz Scherer. “Quando o vírus entra nesse sistema, os pulmões já estão em risco. Mais danos e mais inflamação podem levar esses pacientes ao limite e causar uma tempestade perfeita. Nossa teoria é apoiada por experimentos que mostram que a combinação de infecção bacteriana e viral pode levar a uma tempestade de citocinas, uma reação inflamatória extrema, que é uma marca registrada da covid-19, diz.

O endocrinologista observa que a dexametasona, um esteroide que já se mostrou promissor em ensaios clínicos, pode ser especialmente útil em pacientes obesos. Esse tratamento reduz a inflamação sistemicamente. “Uma abordagem mais direcionada pode ser usar agonistas PPARg, uma classe de drogas que têm vários efeitos, incluindo redução da inflamação, da expressão de ACE2, do açúcar no sangue e dos níveis de LPS na circulação, além de prevenir que as células de gordura no pulmão se convertam em células fibróticas, que podem prejudicar a respiração”, destaca Manasi Shah, coautora do estudo e especialista em microbioma. Ao contrário da dexametasona, os agonistas do PPARg não prejudicam a imunidade e têm menos efeitos colaterais.

Durga Singer, endocrinologista e pesquisadora da Universidade de Michigan, nos EUA, destaca que os efeitos da obesidade no sistema imunológico podem, inclusive, ter impactos sobre a resposta de pacientes muito acima do peso aos tratamentos e às vacinas. “A pandemia da covid-19 nos tornou cientes das complexas interações da obesidade com doenças infecciosas e das lacunas em nossa compreensão de como as condições crônicas de saúde afetam nossas respostas imunológicas à infecção aguda”, diz Singer, que não participou do estudo da UT. Recentemente, ela publicou um artigo no qual sustenta que um dos motivos pelos quais o excesso de peso é um prognóstico ruim para a doença é o fato de a obesidade reduzir a capacidade do organismo de lutar contra vírus. 

Testes clínicos com soro de cavalo

Um ensaio clínico de um soro equino hiperimune para o combate à covid-19 está sendo realizado em pacientes de 18 centros médicos na Argentina. No Brasil, o Instituto Vital Brazil, a Universidade Federal do Rio de Janeiro e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) estão se preparando para iniciar os testes com plasma equino em pacientes infectados pelo Sars-CoV-2.

A fase de avaliação clínica argentina conta com a participação voluntária de 242 pacientes e tem o término previsto para outubro, segundo a agência France-Presse (AFP). O país registra mais de 577 mil casos de infecção pelo coronavírus, com quase 12 mil mortes, uma taxa de mortalidade que não está entre as maiores para a região.

O teste é baseada em anticorpos policlonais equinos, obtidos pela injeção de uma proteína recombinante do Sars-CoV-2 nesses animais. A proteína é inofensiva para eles, mas faz com que gerem grande quantidade de anticorpos neutralizantes. O projeto está sendo executado pela empresa de biotecnologia Inmunova, em cooperação com a Universidade Estadual de San Martín, entre outras organizações.

Imunização passiva

Iniciado em julho por pesquisadores argentinos, até agora, 53% do estudo clínico foi concluído. O soro foi desenvolvido para a imunização passiva, o que significa que o paciente recebe anticorpos contra o agente infeccioso para bloqueá-lo e evitar que se espalhe pelo corpo. A fase 2/3 do estudo avalia a segurança e a eficácia do soro em pacientes adultos com doença moderada a grave, dentro de 10 dias do início dos sintomas e precisando de hospitalização.

Após a extração do plasma (de cavalos), processo semelhante ao usado quando é extraído de pessoas, os anticorpos são purificados e processados por meio de um processo biotecnológico. Testes de laboratório in vitro mostraram a capacidade de neutralizar o vírus, com uma potência cerca de 50 vezes maior que a média do plasma convalescente. Na semana passada, a Costa Rica começou a testar um tratamento semelhante em humanos, do qual se espera obter os primeiros resultados em algumas semanas, de acordo com as autoridades.

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