ORIENTE MÉDIO

Acordo para eleições palestinas

Adversários históricos, Hamas e Fatah concordam em realizar pleitos legislativos e presidenciais dentro de seis meses. Pacto é firmado no momento em que Washington negocia a retomada de relações de países árabes com Israel

Correio Braziliense
postado em 24/09/2020 23:08

Em meio à aproximação de países árabes com Israel, mediada pelos Estados Unidos, os islamitas do Hamas e seus rivais laicos do Fatah entraram em um acordo, ontem, para a realização de eleições palestinas “dentro de seis meses”. Segundo fontes ouvidas pela agência de notícias France-Presse (AFP), o pacto prevê, mais precisamente, disputas legislativas e presidenciais — as primeiras nos Territórios Palestinos em quase 15 anos.
“Concordamos em realizar primeiro eleições parlamentares; depois, a eleição do presidente da Autoridade Palestina; e, finalmente, do conselho central da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) ao longo dos próximos seis meses”, declarou à AFP Djibril Rajub, alto funcionário do Fatah, de Mahmud Abbas.
Por sua vez Saleh al-Aruri, um dos líderes do Hamas, confirmou a celebração do acordo. O acerto foi obtido após reuniões na Turquia entre o Fatah, que lidera a Autoridade Palestina com base em Ramallah, na Cisjordânia ocupada, e o Hamas, no poder na Faixa de Gaza. “Desta vez, alcançamos um verdadeiro consenso (...) As divisões prejudicaram nossa causa nacional, e estamos trabalhando para acabar com isso”, garantiu Al-Aruri, em entrevista por telefone, de Istambul.
A última eleição presidencial palestina data de 2005. Na época, o sucessor de Yasser Arafat à frente do Fatah, Mahmud Abbas, hoje com 84 anos, venceu com 62% de apoio. Desde então, ele lidera a Autoridade Palestina.
No ano seguinte, o Hamas venceu as eleições legislativas. Os resultados, no entantao, azedaram as relações entre os dois campos a ponto de provocar confrontos armados e a tomada de 2007 da Faixa de Gaza pelo movimento islâmico. Até recentemente, os dois movimentos seguiam em conflito.

Sondagem

De acordo com uma rara sondagem realizada nos últimos meses pelo Centro de Investigação Palestino sobre Política e Pesquisas (PCPSR), o líder do Hamas, Ishmael Haniyeh, estaria à frente do presidente palestino no caso de uma eleição. Abbas, que prometeu em diferentes momentos realizar eleições, ainda não se pronunciou sobre se disputará sua própria sucessão.
A notícia do acordo para convocação de novas eleições foi comemorada por Hanan Ashrawi, uma líder palestina. “É uma boa notícia. Acabar com a divisão contínua no sistema político palestino é uma prioridade urgente e há muito esperada”, afirmou, em um comunicado. Ashrawi também incentivou a comunidade internacional a “garantir que Israel não atrapalhe” o processo eleitoral.
Signatária dos acordos de paz de Oslo com Israel, a OLP reúne muitas facções palestinas, incluindo o Fatah, mas não o Hamas. O acordo de ontem sugere que o grupo islamita poderia se juntar a esse grupo.
O anúncio de novas eleições coincide com o diálogo iniciado pelas duas facções palestinas com o objetivo de unir forças para conter a normalização das relações entre Israel e os países do Golfo, incluindo Emirados Árabes Unidos e Bahrein.
Os palestinos compararam essa aproximação com uma “punhalada nas costas”, enquanto Israel e os Estados Unidos tentam convencer outros países da região a seguirem os mesmos passos. A Turquia e o Irã, dois países muçulmanos não árabes, criticaram os acordos de normalização.
Teerã mantém relações com grupos islâmicos armados em Gaza, mas menos com a Autoridade Palestina. Ancara, por sua vez, diz que “aspira a liderar a defesa da causa palestina”.

 

"As divisões prejudicaram nossa causa nacional, e estamos trabalhando para acabar com isso”

Saleh al-Aruri, um dos líderes do Hamas

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