EUA

Entenda as denúncias contra Trump com a divulgação do imposto de renda dele

Presidente culpa ''fake news'' por divulgação do seu imposto de renda pelo jornal The New York Times. Dados apontam que magnata republicano pagou apenas US$ 750 em 2017, sonegou taxas e acumula centenas de milhões de dólares em dívidas

Rodrigo Craveiro
postado em 29/09/2020 06:00 / atualizado em 29/09/2020 06:37
 (crédito: AFP / Eric BARADAT)
(crédito: AFP / Eric BARADAT)

A apenas 35 dias das eleições, Donald Trump terá uma prova de fogo hoje à noite. O republicano ficará frente a frente com o democrata Joe Biden, no primeiro debate presidencial, em Cleveland (Ohio). Antes mesmo do evento, o presidente dos Estados Unidos adotou uma postura defensiva — a única alternativa depois que o The New York Times trouxe denúncias explosivas sobre os impostos do magnata. Uma investigação feita pelos jornalistas mostrou que Trump sonegou impostos durante 11 anos e, em 2017, quando se elegeu, pagou apenas US$ 750. O Times também divulgou que os negócios administrados pelo magnata acumulam grandes dívidas, o que mina sua imagem como empresário bem-sucedido. Por meio do Twitter, o republicano seguiu uma estratégia-padrão e culpou as fake news. “A mídia das fake news, assim como na eleição de 2016, está trazendo à tona meus impostos e todos os tipos de outras bobagens com informações obtidas ilegalmente e apenas com más intenções. Eu paguei muitos milhões de dólares em impostos, mas tinha direito, como todo mundo, a depreciação e a créditos fiscais”, escreveu.

“Também, se vocês olharem para os ativos extraordinários que possuo, os quais as fake news não têm, estou extremamente mal alavancado — tenho muito poucas dívidas, em comparação com o valor de meus ativos”, acrescentou Trump. “Muitas dessas informações foram arquivadas, mas eu tenho dito que posso divulgar declarações financeiras, desde o momento em que anuncei que disputaria a Presidência, mostrando todas as minhas propriedades, ativos e dívidas. É uma declaração muito impressionante.”

Os ataques dos democratas se intensificaram ontem. Em comunicado, Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes, disse que “é um sinal do desdém de Trump pelas famílias trabalhadoras da América o fato de ele ter passado anos abusando do código tributário, ao aprovar um esquema fiscal do Partido Republicano para os ricos, o qual concede 83% dos benefícios ao 1% dos mais ricos”. A expectativa é de que o debate de hoje seja permeado pelas denúncias. Trump e Biden travarão o duelo a partir das 21h (22h em Brasília) e discorrerão sobre seis temas: antecedentes dos dois candidatos, Suprema Corte, pandemia da covid-19, economia, temas raciais e violência, e integridade das eleições. O segundo debate ocorrerá em 15 de outubro.

Especialistas consultados pelo Correio admitiram a gravidade das denúncias publicadas pelo jornal The New York Times e seus efeitos na reta final da campanha republicana. De acordo com Allan Lichtman, historiador político da American University (em Washington), o relatório sobre os impostos de Trump indica que o presidente “é um dos piores empresários do mundo ou um trapaceiro fiscal”. “Se essas deduções fiscais forem legítimas, isso demonstra que Trump tem levado muitos de seus negócios ao chão. Se não forem legítimas, elas provam que o republicano sonegou impostos”, avaliou.

Lichtman acredita que o escândalo, de qualquer forma, é um grande golpe para Trump. “As denúncias também mostram que Trump é uma grave ameaça à segurança nacional, por causa das dezenas de milhões de dólares que ele recebe de países como as Filipinas e a Turquia. Na verdade, ele pagou mais impostos a governos estrangeiros que aos EUA. A dívida de US$ 421 milhões também representa uma ameaça, pois vencerá durante um eventual segundo mandato, o que aponta para um grande conflito de interesses.”

Ataque

Ainda segundo Lichtman, os democratas já estão explorando o escândalo. “Além de terem enfatizado que Trump é um perigo à segurança nacional, zombaram pelo fato de ele pagar menos impostos que garçonetes, policiais e professores. Mesmo os imigrantes não documentados, os quais Trump sempre ataca, pagam mais impostos”, acrescentou.

Cientista político da Universidade de Yale, em New Haven (Connecticut), Bruce Ackerman sublinhou que a média dos americanos costuma pagar os seus impostos religiosamente. Os sonegadores, segundo ele, são detectados pelo fisco e punidos com penas muito severas. “As evasões extraordinárias do presidente representam não apenas uma vergonha para o seu cargo. São um choque para os eleitores, independentemente do partido político, que acreditam no Estado de direito”, advertiu. “Não à toa, Trump recusou-se a seguir o exemplo dos antecessores e manteve as declarações de renda em segredo. A verdade não poderia vir em pior hora para ele.”

Richard Lempert, professor de direito e sociologia da Universidade de Michigan, afirmou que as revelações do NY Times podem complicar os esforços de Trump para conquistar os votos dos indecisos. “Isso porque eles passarão a questionar a afirmação do próprio presidente de que ele é um fabuloso homem de negócios, preparado para administrar a economia. Suas declarações de imposto de renda sugerem que Trump é um péssimo empresário, que faz investimentos insensatos. O presidente tem mais de US$ 400 milhões em dívidas, muitas das quais vencem dentro de alguns anos”, disse.

Para Lempert, muitos cidadãos vão sentir-se ofendidos com o fato de Trump ter pago apenas US$ 750 em impostos entre 2016 e 2017, bem menos do que quase todos os americanos empregados. “Curiosamente, o que mais pode prejudicar o republicano é o fato de que, ao longo dos anos, ele deduziu cerca de US$ 71 mil com cabeleireiro. Isso coloca sobre o contribuinte uma parte do custo da preparação de sua imagem.” O estudioso de Michigan prevê que os democratas usarão o escândalo em discursos e em anúncios de campanha. “É provável que a oposição feche algumas das lacunas que permitem aos ricos fazerem certas deduções, além de examinar o valor real e o custo de doações de caridade.”

A calculadora dos impostos de Trump

O candidato do Partido Democrata à Casa Branca, Joe Biden, adotou a criatividade e a ironia para sensibilizar a opinião pública sobre a gravidade das denúncias feitas pelo jornal The New York Times. A chamada “Calculadora dos impostos de Trump” traz a seguinte pergunta ao cidadão norte-americano: “Você paga mais ou menos em impostos federais que nosso presidente ‘bilionário’? Use esta calculadora para descobrir”. A calculadora traz uma estimativa de quanto a média da população pagou em impostos em 2017: US$ 11.165,39. “Você pagou US$ 10.415,39 a mais em impostos que Donald Trump, um ‘bilionário’”, acrescenta o texto.

O cidadão pode preencher o campo da calculadora com o valor desembolsado em impostos, três anos atrás, para comparar os dados com as cifras pagas pelo republicano.

» Revelações comprometedoras

» 1. Trump não pagou impostos federais em 11 dos 18 anos examinados pela investigação
do New York Times. Em 2017, depois de se tornar presidente, pagou apenas US$ 750;

» 2. Ele reduziu sua conta de impostos com medidas questionáveis, incluindo uma restituição de US$ 72,9 milhões, objeto de auditoria pelo Serviço da Receita Federal;

» 3. Muitos de seus negócios exclusivos, incluindo campos de golfe, relataram perdas grandes de dinheiro. Tais perdas o ajudaram a reduzir os impostos;

» 4. A pressão financeira aumenta à medida que centenas de milhões de dólares em empréstimos que ele próprio garantiu estão vencendo;

» 5. Mesmo ao declarar perdas, Trump conseguiu desfrutar de um estilo de vida luxuoso. As deduções fiscais de “despesas pessoais” incluíram residências, aeronaves e US$ 70 mil em cabeleireiro;

» 6. Ivanka Trump, filha do magnata, recebeu “honorários de consultoria” quando trabalhava para a Organização Trump. Isso ajudou a reduzir os gastos com impostos da família;

» 7. Como presidente, Trump recebeu mais dinheiro de fontes estrangeiras e de grupos de interesse dos EUA que antes. Os registros não revelam conexão com a Rússia.

» Tuitadas

“A mídia das fake news, assim como na eleição de 2016, está trazendo à tona meus impostos e todos os tipos de outras bobagens com informações obtidas ilegalmente e apenas com más intenções. Eu paguei muitos milhões de dólares em impostos, mas tinha direita, como todo mundo, a depreciação e créditos fiscais” Donald Trump, presidente dos Estados Unidos.

» Pontos de vista

» Por Alex Cobham

Frustração dos eleitores
“O imposto não é uma questão da esquerda. Todos valorizam alguns dos serviços do Estado pelos quais pagam — sejam eles a saúde, a lei e a ordem, a pavimentação de estradas ou o uso nas Forças Armadas. A maioria dos simpatizantes de Trump terá pago muitas vezes mais em impostos que o próprio presidente pagou. Descobrir que seu presidente chegou tão longe para não ter de contribuir pode apenas afastar as pessoas.” Diretor executivo da Tax Justice Network (“Rede de Justiça em Impostos”), organização internacional independente dedicada a combater o abuso fiscal, sediada em Londres.

» Por Allan Lichtman

Impacto nos indecisos
“A investigação do New York Times provavelmente não afetará o núcleo mais duro da base republicana. Mas, Trump não poderá vencer as eleições somente com esta base. No entanto, as denúncias semearão dúvidas entre os eleitores indecisos, os quais ele deve persuadir a ter o voto, a fim de vencer. As revelações comprometem as chances de Trump de alcançá-los e colocam-no na defensiva, onde ele se sente muito desconfortável.” Historiador político da American University (em Washington) e criador de um sistema de previsão sobre vencedor das eleições, o qual jamais fracassou desde 1984.

» Por Bruce Ackerman

Um golpe devastador
“A reportagem do Times é um golpe devastador para as perspectivas do presidente Trump. Embora especialistas investiguem todas as complexidades reveladas no relatório, o fato é que ele se mostra convincente para todos os eleitores do país. O presidente pagou somente US$ 750 em impostos durante o primeiro ano de governo — um terço dos US$ 2,2 mil pagos pelo americano de renda média, que ganha US$ 60 mil ao ano.” Professor da Faculdade Sterling de Direito e de Ciência Política da Universidade de Yale, em New Haven (Connecticut).

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