No dia em que os Estados Unidos ultrapassaram a marca de 200 mil mortos pela covid-19, o presidente Donald Trump escolheu atacar diretamente a China pela pandemia, por “abusos comerciais” e por práticas predatórias do meio ambiente. O pronunciamento do republicano na 75ª Assembleia Geral da ONU — o evento, anual, pode ter sido o último dele, em caso de derrota nas eleições de 3 de novembro — escalou a tensão com Pequim. “As Nações Unidas deveriam responsabilizar a China por suas ações”, declarou o magnata. “Enquanto buscamos um futuro brilhante, devemos responsabilizar a nação que desencadeou essa praga no mundo: a China”, acrescentou.
Minutos antes, o secretário-geral da ONU, António Guterres, havia feito uma advertência e um apelo a Trump e ao presidente chinês, Xi Jinping. “Estamos caminhando em uma direção muito perigosa”, alertou. “Nosso mundo não pode se dar ao luxo de um futuro em que as duas maiores economias dividam o planeta em uma Grande Fratura, cada uma com suas próprias regras comerciais e financeiras e capacidades de internet e inteligência artificial”, disse, ao pedir que as duas maiores potências do planeta façam “todo o possível para evitar uma nova Guerra Fria”.
Xi Jinping, o quarto presidente a discursar, assegurou que seu país “não pretende entrar na Guerra Fria” e instou o mundo a não politizar a luta contra a pandemia da covid-19. O líder chinês defendeu que as nações abracem a visão de “uma comunidade com um futuro compartilhado, na qual todas estejam unidas”, evitando “cair na armadilha de um choque de civilizações”. “Devemos permanecer fiéis ao multilateralismo e salvaguardar o sistema internacional, com a ONU em seu centro”, declarou. “Não temos a intenção de travar uma Guerra Fria ou uma guerra quente contra nenhum país.” Pela primeira vez na história, a Assembleia Geral ocorreu em formato virtual. Os 193 países-membros enviaram um único representante ao plenário da ONU, em Nova York. Os pronunciamentos dos chefes de Estado e de governo foram gravados e transmitidos por telões.
Falácia
Yukon Huang, especialista do Programa Ásia do Carnegie Endowment for International Peace (em Washington), afirmou ao Correio que as acusações de Trump contra a China são “enganosas, na melhor das hipóteses, e amplamente falsas”. “Sua escolha do termo ‘desencadeou essa praga’ sugere transmissão intencional do coronavírus, o que certamente não ocorreu. Quando percebeu que o vírus era similar ao que causou a Síndrome Aguda Respiratória Severa (Sars), a China disponibilizou a composição genética do Sars-CoV-2 para a comunidade global. Cientistas americanos foram os primeiros a acessar esse conhecimento, e as vacinas em desenvolvimento nos EUA baseiam-se nessa informação genética da China”, explicou. “De modo deliberado, Trump subestimou a gravidade da pandemia, o que torna as acusações ridículas.”
Huang vê um grande esforço para separar a economia norte-americana da chinesa, mas prefere não comparar as tensões com as enfrentadas pelos EUA e pela antiga União Soviética (URSS) entre 1947 e 1991. “A Guerra Fria retrata um confronto amplamente político e militar. Uma vez que a URSS não estava profundamente engajada na economia global, ao contrário da China, aquele conflito não tratava de separar as duas economias, mas de lidar com ameaças existenciais ao papel de cada uma nas relações exteriores”, comentou. Colega de Huang, Douglas Paal disse à reportagem que China e EUA estão profundamente integrados a um sistema internacional único — o que nunca foi verdade para americanos e soviéticos. “Estamos entrando em um período multipolar novo e sem precedentes”, admitiu Paal.
Professor de Política do Leste da Ásia pela University of Houston-Downtown, Peter Li chamou o discurso do republicano de “um típico ato ‘trumpiano’ de transferir a culpa por sua incompetência”. “Mais de 200 mil americanos não teriam morrido se Trump tivesse agido como qualquer outro presidente dos EUA. O governo dele fracassou. Você não pode culpar o céu pelo furacão; você se prepara”, ironizou. Ao contrário de Huang e de Paal, Li não descarta uma Guerra Fria entre as duas nações, caso Trump mantenha a atual política. “Caso esse conflito se materialize, causará enorme ruptura, não apenas nas relações bilaterais, mas também na economia mundial. Ao contrário da ex-União Soviética, que tinha pouca integração com a sociedade global e com a economia mundial capitalista, a China está intimamente conectada aos EUA e ao resto do planeta. Não haverá vencedores em uma eventual nova Guerra Fria”, advertiu ao Correio. Segundo ele, o republicano precisa aprender e compreender que os chineses jamais se curvam a pressões e ameaças.
Robert Daly, diretor do Instituto Kissinger sobre China e EUA do Wilson Center (em Washington), crê que Trump espera distrair os eleitores da resposta desastrosa de sua gestão à pandemia. Ele alerta à reportagem que o risco de nova Guerra Fria é real. “Quando a alienação e a hostilidade mútuas tornam-se princípio organizador para ambas as sociedades, isto é Guerra Fria.”
» Trechos do discurso de Trump
» “Travamos uma batalha feroz contra o inimigo invisível, o vírus da China, que ceifou inúmeras vidas em 188 países.”
» “Enquanto buscamos um futuro brilhante, devemos responsabilizar a nação que desencadeou essa praga no mundo: a China.”
» “Nos primeiros dias do vírus, a China bloqueou as viagens domésticas, enquanto permitia que voos saíssem do país e infectassem o mundo.”
» “O governo chinês e a Organização Mundial da Saúde — que é virtualmente controlada pela China — declararam falsamente que não havia evidência de transmissão de pessoa para pessoa. Mais tarde, eles disseram falsamente que pessoas sem sintoma não espalhariam a doença.”
» “As Nações Unidas deveriam responsabilizar a China por suas ações.”
» “Todos os anos, a China despeja milhões e milhões de toneladas de plástico e lixo nos oceanos, pesca excessivamente em águas de outros países, destrói vastas faixas de corais e emite mais mercúrio tóxico na atmosfera do que qualquer país do mundo. As emissões de carbono da China são quase o dobro das dos EUA e aumentam rapidamente.”
» “Para que as Nações Unidas sejam uma organização eficaz, devem se concentrar nos problemas reais do mundo. Isso inclui terrorismo, opressão das mulheres, trabalho forçado, tráfico de drogas, tráfico humano e sexual, perseguição religiosa e limpeza étnica de minorias religiosas.”
» “A América será sempre líder nos direitos humanos. Meu governo promove a liberdade religiosa, as oportunidades
para as mulheres, a descriminalização da homossexualidade, o combate ao tráfico de pessoas e a proteção de crianças em gestação.”
» “Nós resistimos a décadas de abusos comerciais da China. Revitalizamos a Otan, onde outros países pagam parte mais justa. Estamos ao lado do povo de Cuba, Nicarágua e Venezuela, na justa luta pela liberdade.”
» “Nós nos retiramos do terrível Acordo Nuclear Iraniano e impusemos sanções paralisantes ao principal Estado patrocinador do terrorismo. Nós obliteramos o califado do Estado Islâmico em 100%, matamos seu fundador e líder, Al-Baghdadi; e eliminamos o maior terrorista do mundo, Qasem Soleimani.”
» Vozes de especialistas
Robert Daly, diretor do Instituto Kissinger sobre China e EUA do Wilson Center, em Washington
“Não está claro por quais ‘ações’ o presidente Trump acha que a China deve ser responsabilizada, ou o que significa ser responsabilizado. No geral, os comentários do presidente são mais bem entendidos como um aspecto de sua campanha política doméstica, em vez de uma tentativa de liderança global.”
Peter Li, professor de Política do Leste da Ásia da University of Houston-Downtown
“Os EUA, sob o comando de Trump, perderam o fundamento moral para criticar o fraco desempenho ambiental de outros países. A China trabalha na redução das emissões como parte de seu compromisso com o acordo climático de Paris. O foco de Trump sobre a China é motivado politicamente para servir aos seus propósitos
de reeleição.”
Yukon Huang, analista do Programa Ásia do Carnegie Endowment for International Peace
“O ataque de Trump à China é impulsionado, em grande parte, pela necessidade de se ter um bode expiatório na corrida para as eleições de 3 de novembro. Uma vez que está sendo culpado pelo mau gerenciamento da pandemia — e com razão —, Trump busca desviar-se dessa crítica culpando a China. Existem preocupações legítimas sobre as políticas comerciais e de investimento da China, mas as críticas de Trump são equivocadas.”
Clyde Prestowitz, fundador e presidente do Instituto de Estratégia Econômica, em Washington
“Trump levantou vários temas, além da China, no decorrer da campanha política. Não acho que ele enfatiza a China mais do que outros temas, como a ‘lei e ordem’, o crescimento econômico, etc. Não sei ao certo sobre como devemos responsabilizar a China por sua desonestidade, mas não deveríamos nos esquecer disso no futuro.”
