Conexão diplomática

Silvio Queiroz
postado em 02/10/2020 21:18

Pelos olhos da Mafalda

Na semana em que o criador da Mafalda deixou o nosso mundo, o globo que inspirava as dores, os temores, os amores e as inquietações da menina imortal oferece para as crianças desafios aparentados daqueles que se insinuaram nas tiras assinadas por Quino. O criador da personagem observava da Argentina as turbulências dos anos 1960: Guerra Fria, Guerra do Vietnã, a efervescência cultural que produziu Beatles e Rolling Stones, o feminismo emergente.
Em particular, a América Latina se embrenhava no ciclo de ditaduras militares e guerrilhas de esquerda, inspiradas em Cuba, no mais das vezes. Entre os temas que permeavam esse confronto, a relação subalterna dos regimes locais com as superpotências, em especial os EUA, e com as antigas metrópoles coloniais. Para elas, Quino reservou as recorrentes discussões filosóficas de Mafalda com o amigo Manolito, filho do espanhol dono da mercearia — uma variação hispano-americana para o nosso “português da vendinha”.
O desenhista genial partiu com sua “cria” aos 56 anos. E a Argentina, assim como o Brasil e os vizinhos, volta a se debruçar sobre alguns dos impasses de meio século atrás. O processo de integração ensaiado nas primeiras décadas dos anos 2000 empacou. As democracias que se seguiram ao ciclo militar dão sinais de esgotamento. Carências sociais como educação e saúde seguem desafiando os governantes.
Os contemporâneos de Mafalda se veem, diante dos filhos e netos, talvez como Quino às voltas com as perguntas e reflexões desconcertantes de seu alter ego infantil.

Pesadelo chinês

No mundo dos quadrinhos, o pai da personagem é um cidadão típico de classe média, dedicado à educação escolar dos filhos, mas absorvido pela rotina de trabalho. No conjunto, acompanha os acontecimentos superficialmente, Por isso, ri quando a pequena se refere a um dos momentos de retórica em que Mao Tsé-tung invocou o peso demográfico da China, no contexto do confronto com as potências ocidentais: se todos os chineses pulassem ao mesmo tempo, a Terra tremeria. Na última cena da tira, o pai de Mafalda aparece na cama, insone.
A China da Revolução Cultural, lançada em 1966, bagunçou o tabuleiro da geopolítica quando EUA e União Soviética pareciam ter exorcizado o fantasma da hecatombe nuclear, despertado pela Crise dos Mísseis com a Cuba de Fidel, em 1962. Mao testava bombas atômicas, alardeava a “guerra popular” no Vietnã, seduzia a juventude rebelde do Ocidente com seu Livro Vermelho.
O primeiro mandato presidencial de Trump, que tenta a reeleição dentro de um mês, bastou para mostrar um novo “pesadelo chinês”. A hoje segunda potência econômica ganha posições no ranking do poderio militar e volta ao imaginário norte-americano como ameaça. No planisfério da Casa Branca, aparece como a “pátria” do coronavírus, que já infectou o presidente, coronacético de primeira hora, e ameaça deixar sequelas em sua campanha eleitoral.

Quem fica por cima?

É na relação da América Latina com o então chamado Primeiro Mundo que se concentra uma porção significativa da “geopolítica mafaldiana”. Ela se apresenta aos leitores com vigor irresistível em uma sequência de tiras em que a menina filosofa sobre as relações entre o norte e o sul do planeta. Conclui que os centros dominantes da economia estão na parte do globo que fica por cima.
A relação de Mafalda com o globo é dos temas mais presentes na obra de Quino. Quando se indaga sobre as desigualdades, ela deduz que a chave para inverter as relações internacionais estaria em colocar o globo de cabeça para baixo.

Iê-iê-iê

Bem antes das revoltas juvenis de 1968, na Europa e nos EUA, com seu conteúdo libertário e inconformista, o falado conflito de gerações dançou pela pena de Quino. Sua menina irrequieta, como tantas crianças e tantos adolescentes da época, prenunciaram a globalização pelas notas da beatlemania.
Foi na batida do iê-iê-iê que Mafalda testou os pais em temas de comportamento que hoje poderiam soar fora de época. Cabelos longos, vestidos curtos, famílias fora dos padrões predominantes: os pais e avós de hoje, que cresceram meditando sobre a rebeldia de uma personagem como a pequena Libertad, respondem a questionamentos igualmente agudos e aprendem a revisitar os próprios conceitos estabelecidos.

 

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