Itália

Líder da extrema-direita italiana enfrenta primeiro julgamento

Se Matteo Salvini, um dos políticos mais populares do país, for condenado a mais de dois anos de prisão, ele não poderia ocupar um cargo público durante seis anos

Agência France-Presse
postado em 03/10/2020 10:48
 (crédito: Alberto Pizzoli/AFP)
(crédito: Alberto Pizzoli/AFP)


O líder da extrema-direita italiana, Matteo Salvini, compareceu neste sábado pela primeira vez a um tribunal de Catania, Sicília, acusado de impedir o desembarque de migrantes resgatados no mar, um julgamento que pode afetar sua carreira e que ele deseja transformar em um evento a seu favor.

Mas o juiz do caso adiou a audiência preliminar para 20 de novembro. Salvini não fez declarações à imprensa ao chegar ao tribunal.

O ex-ministro do Interior foi acusado de "abuso de poder e sequestro de pessoas" por ter ordenado em julho de 2019, quando estava no governo, o bloqueio de 116 migrantes a bordo do navio da Guarda Costeira italiana "Gregoretti".

Se o líder da oposição, um dos políticos mais populares do país, for condenado a mais de dois anos de prisão, ele não poderia ocupar um cargo público durante seis anos, o que o deixaria fora das eleições previstas para 2023.

O juiz da audiência preliminar Nunzio Sarpietro deveria decidir se o caso é forte o suficiente para o julgamento prosseguir, mas a imprensa italiana já havia antecipado que o magistrado poderia não tomar uma decisão neste sábado.

Ao adiar a questão para novembro, Sarpietro anunciou que deseja ouvir o primeiro-ministro Giuseppe Conte, assim como a atual ministra do Interior, Luciana Lamorgese, e o chanceler Luigi Di Maio.

"Escolhi o melhor terno para a audiência", ironizou Salvini ao desembarcar na quinta-feira na Sicília para três dias de encontros e manifestações organizadas sob o lema "Os italianos escolhem a liberdade".

Seu partido, Liga, encomendou camisas e ofereceu voos com passagens mais baratas a Catania para o chamado "festival da liberdade", que terá a participação de Giorgia Meloni, líder do partido Irmãos da Itália.

Todos os deputados, senadores e europarlamentares de direita foram convocados para um evento a seu favor.

A polícia mobilizou 500 agentes para impedir confrontos entre os simpatizantes de Salvini e militantes de esquerda.

Salvini anunciou que pretendia se declarar diante dos juízes "culpado de ter defendido a Itália e os italianos".

Uma espécie de desafio à justiça, que o processa por ter ordenado que os 116 migrantes permanecessem na embarcação durante quase uma semana em cumprimento a sua política de "portos fechados", que impedia a entrada dos barcos humanitários nos portos italianos.

Uma família nigeriana denunciou maus-tratos durante a permanência na embarcação.

Um documento preparado pelos advogados de defesa de Salvini alega que a decisão de bloquear a embarcação foi tomada porque a bordo estavam dois traficantes de drogas e que o tempo de espera foi necessário para garantir outro destino aos imigrantes.

Os 116 migrantes, a maioria africanos, foram resgatados no Mediterrâneo depois de navegar por cinco dias à deriva.

Eles permaneceram no barco de patrulha sob o forte sol do verão e apesar de um surto de sarna, além de um caso suspeito de tuberculose. Quinze menores de idade foram autorizados a sair por pressão do tribunal de menores de Catania.

Os demais desembarcaram em 31 de julho, depois que Salvini, 47 anos, anunciou que negociou um acordo com os países da UE para a transferência.

"Que um tribunal se permita julgar a linha política e de governo de um ministro é um precedente perigoso", comentou Salvini, que deseja envolver o primeiro-ministro Giuseppe Conte na questão, por considerar que a decisão de bloquear a embarcação foi coletiva, de todo o governo.

Conte rejeita a alegação e recorda que foi justamente Matteo Salvini que aprovou um decreto especial para fortalecer suas competências como ministro devido à oposição interna a sua política de portos fechados.

O líder de direita, que pediu aos juízes que se concentrem na luta contra a máfia ao invés do seu caso, fiel a sua linguagem agressiva, afirma que sua decisão deve ser julgada pelos italianos.

"Os italianos dirão nas próximas eleições se fiz ou não o correto", afirmou.

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